segunda-feira, 30 de julho de 2012

Bicentenário de nascimento da Imperatriz Dona Amélia do Brasil

BICENTENÁRIO DE NASCIMENTO DA
IMPERATRIZ DONA AMÉLIA DO BRASIL

1812 - 2012
A Imperatriz Dona Amélia na juventude


Nascida Princesa Amélia Augusta Eugênia Napoleona de Beauharnais em Milão, à 31 de julho de 1812, Princesa de Leuchtenberg, era a quarta filha do General Augusto Beauharnais e da Princesa Augusta da Baviera. Seu pai era filho adotivo de Napoleão Bonaparte e Vice-Rei da Itália, e sua mãe era filha do Rei Maximiliano I José da Baviera e da Rainha Augusta, nascida Princesa de Hesse-Darmstadt. Embora tivesse uma configuração familiar diferenciada, haja vista seu parentesco próximo com Napoleão e a repulsa de todos por este, Dona Amélia possuía em seu sangue as mais caras tradições, descendendo de grandes Famílias Reais e Principescas. Hoje, 31 de julho de 2012, portanto, comemora-se seu bicentenário de nascimento. 

Em 1826, tendo falecido a Imperatriz Dona Leopoldina, Dom Pedro I achou por bem casar-se novamente e incumbiu o Marquês de Barbacena para que buscasse esposa a altura nos Reinos da Europa, observando nascimento, beleza, virtude e cultura. A Princesa Amélia de Leuchtenberg era reconhecida por todos estes requisitos, além da refinada educação e dos mais belos modos. O jornal London Times, a época do casamento, publicou que ela era umas das Princesas mais bem educadas e preparadas da Alemanha. 

O casamento foi arranjado. A convenção matrimonial foi assinada na Inglaterra em 30 de maio de 1829, ratificada em 30 de junho, em Munique. Em 30 de julho daquele ano, foi confirmado, no Brasil, o tratado do casamento de Sua Majestade com a Princesa Amélia de Leuchtenberg. Ao confirmar-se o casamento, Dom Pedro I instituiu a Ordem da Rosa, cujo lema é "Amor e Fidelidade". A cerimônia do casamento foi realizada por procuração em Munique, na capela do Palácio de Leuchtenberg, a 2 de agosto daquele ano. Dom Pedro I havia enviado a sua representação legal em Munique, uma considerável quantia para que se fizesse um casamento que condissesse com a situação dos noivos, porem Dona Amélia insistiu em doar a um orfanato de Munique a apreciável quantia enviada por Dom Pedro I, fazendo-se uma cerimônia simples.  Durante sua viagem ao Brasil, trazendo uma comitiva, Dona Amélia incumbiu aos presentes que lhe instruíssem sobre o novo país, o marido, a língua portuguesa, os costumes e tradições brasileiras.  

Dona Amélia chegou a Brasil em 15 de outubro de 1829, na fragata Imperatriz, vinda da Bélgica e que trazia também a Princesa Dona Maria da Glória vinda da Inglaterra, por motivos de segurança, pois seu tio, Dom Miguel havia lhe usurpado o Trono de Portugal. Ainda no dia de sua chegada ao Rio de Janeiro, Dona Amélia recebeu a bordo além do marido, os filhos do primeiro casamento deste, a quem recebeu com muito carinho e amor filial. No dia seguinte, com forte chuva, Dona Amélia fez o desembarque e foi calorosamente recebida com grande procissão, rumando para a Capela Imperial, para receberem as bênçãos nupciais. A delicadeza de modos e educação da noiva deixou a todos com muito boas impressões. Dona Amélia compareceu aquelas cerimônias com um fino vestido branco e um manto bordado em prata que lhe serviam para reforçar sua beleza. Seguindo a celebrações religiosas, houve uma cerimônia pública e todos foram convidados a se servirem no grande banquete de Estado. Somente em janeiro de 1830 o Imperado r ofereceu um grande baile para apresentação oficial da Imperatriz à Corte. Depois do baile o casal passou cerca de um mês em lua de mel na Fazenda do Padre Correa, na antiga Serra da Estela, onde então seria, alguns anos mais tarde, erguida a cidade de Petrópolis.  

Os anos que se seguiram no Brasil, pouco mais de 2, foram de intenso trabalho para a Imperatriz. Dona Leopoldina havia falecido e o palácio se encontrava sobre as ordens das damas da Corte, não possuindo o brilho e a pompa de antes. Os pequenos Príncipes estavam sendo educados sem a vigilância de seus pais, haja vista as funções do pai como Imperador do Brasil. Dona Amélia foi responsável por modernizar, trazer a pompa e a circunstância próprias a um Palácio Imperial à Quinta da Boa Vista. Quanto as crianças, Dona Amélia as tratou como verdadeira mãe, cumprindo seu valoroso papel, cuidando pessoalmente da educação das Princesas. O ambiente familiar voltou a Quinta.  

Em 1831, Dom Pedro I abdicou o Trono em favor de seu filho, o futuro Imperador Dom Pedro II, ocasião em que a Imperatriz, tendo que deixar o pequeno Dom Pedro no Barsil, suplicou as mães brasileiras: “Mães brasileiras, vós que sois meigas e carinhosas para com vossos filhinhos, supri minhas vezes: adotai o órfão coroado, dai-lhe, todas vós, um lugar na vossa família e no vosso coração. Entregando-o a vós, sinto minhas lágrimas correrem com menor amargura”. A Imperatriz Dona Amélia seguiu com o marido para a Europa, onde este empreendeu uma guerra civil contra o usurpador Dom Miguel. Em Paris Dona Amélia deu a luz a Princesa Dona Maria Amélia e, ali fixando residência, educou a Princesa Dona Maria da Glória até que fosse coroada Rainha de Portugal, bem como a filha reconhecida de Dom Pedro I, Dona Isabel Maria, Duquesa de Goiás, a que também teve a incumbência de educar, casando-a com um nobre alemão.  

Vencido o usurpador Dom Miguel, Dona Maria da Gloria foi reconhecida como legítima Rainha de Portugal e Dom Pedro I – na ocasião - Duque de Bragança, acompanhado da Família, foi viver em Portugal, primeiramente na Quinta do Ramalhão e depois no Palácio Real de Queluz, onde então Dom Pedro I faleceu de tuberculose a 24 de setembro de 1834.  

De 1834 em diante, ou seja, até a data de sua morte, Dona Amélia dedicou-se a caridade e as orações. Parte de seu tempo era tomado pela educação da filha Dona Maria Amélia. Dona Amélia passou a requisitar por parte do governo brasileiro a pertença de sua filha a Família Imperial do Brasil, sendo reconhecida como tal em 1841, na maioridade do Imperador Dom Pedro II. Privada das liberdades outrora abundantes, bem como das felicidades que se tinha com o marido, o destino se encarregou a 4 de fevereiro de 1853 de lhe levar seu maior bem, a filha Dona Maria Amélia. Morta nas mesmas condições do pai, era desfecho que uma longa luta que a levou para ao Funchal, onde permaneceram por considerável tempo, na busca pelo tratamento, porem nada adiantou. Dona Maria Amélia, então com 22 anos de idade estava se encaminhando para um casamento com o futuro Imperador do México Maximiliano, que a ela devotava grande amor e que jamais a esqueceria. No Funchal, Dona Amélia, em memória de sua filha, fundou um hospital para o tratamento de pessoas tuberculosas na Ilha da Madeira, “o Hospício Princesa Dona Maria Amélia”, mantido até os dias de hoje com recursos de descendentes de sua Família, no caso atual, da Família Real da Suécia, descendente de sua irmã, a quem deixou em testamento esta incumbência.  

De volta a Lisboa, morando então no Palácio das Janelas Verdes, faleceu em 26 de janeiro de 1876, deixando expressamente em seu testamento a vontade de que retornasse ao Brasil todos os documentos e objetos referentes ao país. Ao Príncipe Maximiliano, deixou uma propriedade na Baviera e à sua irmã, a Rainha da Bélgica, responsável por manter vivas as suas obras de caridade, deixou joias, dinheiro e a Tiara Bragança.  

Dona Amélia foi sepultada em São Vicente de Fora, de onde foi transladada para o Brasil em 1982, estando atualmente sepultada na Capela Imperial do Monumento a Independência, em São Paulo. 

Em 31 de julho de 2012, celebra-se o bicentenário de nascimento da Imperatriz Dona Amélia, esta grande Dama que em pouco tempo foi responsável por orientar a educação de nosso futuro Imperador Dom Pedro II, influenciando nos destinos do país nos longos anos de reinando deu filho postiço. Foi Dona Amélia uma grande mulher de seu tempo. Forte em sua personalidade, piedosa, amorosa e caridosa. Em sua vida, marcada pelas tristezas, não se pode lembrar da amargura e do rancor.  

Sobre Dona Amélia, Dom José Palmeiro Mendes, Abade Emérito do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, em sua homilia, no dia 17 de outubro de 2009, em missa na Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé Catedral, antiga Capela Imperial, onde foi oficiado o casamento da Imperatriz com o Imperador, e onde este religioso celebrava a missa de ação de graças pelos 180 anos deste casamento, afirmou: “Sobre Dona Amélia, tem que se reconhecer que humanamente ela levou uma vida de muitos sofrimentos. Com 11 anos perdeu o pai; imperatriz do Brasil por ocasião do casamento, perde este título com a abdicação do marido três anos depois; passa um largo tempo exilada e longe do marido, só indo com ele encontrar-se em 1833. No ano seguinte perde o esposo amado (viúva com apenas 22 anos) e poucos meses depois o irmão, o príncipe Augusto, que tinha casado com D. Maria II. Verifica-se um estremecimento de relações com a enteada rainha. Vive para a filha Maria Amélia, princesa belíssima e prendada, mas de 1850 a 1853 acompanha a lenta e implacável doença da filha, que morre com edificante piedade cristã na ilha da Madeira com apenas 21 anos. No mesmo ano morre D. Maria II. Fica Dona Amélia muito ligada ao neto, o rei D. Pedro V e sua esposa D. Estefânia, mas ambos tem morte prematura. Sua profunda fé cristã porém sempre a acompanhou. Dedicava-se muito a obras de caridade. Viveu retirada no chamado Paço das Janelas Verdes, em Lisboa, que tinha mais de convento religioso do que de palácio real. Ali vai receber a visita do conde d´Eu a caminho do Brasil, onde casará com a Princesa Imperial; ali depois recebeu a neta Dona Isabel em viagem de núpcias e enfim, em 1871 o filho Dom Pedro II, com quem sempre se correspondia. Cercada de meia dúzia de incansáveis amigos, ali morre no início de 1873. Será sepultada no Panteon da Casa de Bragança na Igreja de São Vicente de Fora, ao lado de D. Pedro I. Desde 1982 seus restos repousam no Brasil, no Monumento do Ipiranga, em S. Paulo, junto aos de D. Pedro I e de D. Leopoldina.”   

No dia 31 de julho de 2012, serão oferecidos jantares em comemoração ao bicentenário da Imperatriz Dona Amélia. Em São Paulo o jantar ocorrerá ás 19h45 no Restaurante Monet, à Rua Fradique Coutinho, 37 – Pinheiros. No Rio de Janeiro, o evento será realizado  às 19h30min no Restaurante Siqueira Grill, à  Rua Siqueira Campos, 16-b, Copacabana, ocasião em que o Professor Otto de Alencar de Sá Pereira dará palestra como o título “Dona Amélia, a Imperatriz da Rosa”.

A Imperatriz Dona Amélia em idade avançada - 1861

domingo, 29 de julho de 2012

Dom Pedro II em viagem ao Oriente

Transcrevemos o artigo acadêmico do professor Reuven Faingold, que traz algumas minucias da viagem que o Imperador Dom Pedro II empreendeu ao Oriente e onde foi tão bem recebido por intelectuais, religiosos e autoridades, comprovando-se seu elevado saber e seus reconhecidos dotes de inteligência.
Dom Pedro II em São Petersburgo.
Imagem de coleção particular, arquivo de Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança, integrante a obra "A Intriga"

 D. Pedro II, manuscritos hebraicos e os orientalistas de São Petersburgo

Reuven Faingold*

Introdução 

Este artigo aborda quatro momentos pouco conhecidos da vida do Imperador D. Pedro II. Analisaremos a sua forte paixão pela Bíblia e pelos manuscritos hebraicos da época; lembrando, também que, três dos quatro momentos escolhidos fazem parte da pequena caderneta de viagem (Diários 18-19, maço 37, doc. 1057), guardada no Museu Imperial de Petrópolis, e publicada há alguns anos em edição crítica.1 São estes os episódios: 1) visita guiada à Universidade de São Petersburgo; 2) traduções realizadas durante sua viagem a Terra Santa; 3) visita aos judeus samaritanos na cidade de Nablus na Samária; 4) crítica aos monges de Saint Sabbá na Judéia.

1. D. Pedro II na Universidade de São Petersburgo 

D. Pedro II foi recepcionado na famosa Academia de Ciências e Universidade de São Petersburgo em 31 de agosto de 1876 pelo emérito orientalista Elie Nicolaevitch Berezine. Nãosendo época de aulas, o monarca percorreu salas vazias, laboratórios, bibliotecas, museus de história natural, mineralogia, zoologia, geologia, botânica, física e química. Com redobrada atenção, observava tudo, ouvindo as explicações que lhe eram dadas, revelando aos professores que o acompanhavam, um vasto conhecimento das ciências. 

Na visita, demorou-se no gabinete do professor Dimitri Ivanovitch Mendeleiev (1834-1907), inventor da tabela periódica dos elementos químicos; freqüentemente comparado com o criador da química moderna o francês Antoine Lavoisier (1743-1794). O químico russo havia preparado algumas salas para recorrer durante a visita de Sua Majestade. Ao examinar cada seção, [Dom] Pedro II falava como conhecedor, e pedia, ao mesmo tempo, novas informações sobre outros mestres russos que visitara antes na Europa. Com o lingüista Vasiliev conversou longamente sobre as línguas chinesas, mostrando-se, ser, também, um erudito filólogo.  

Afeiçoado à leitura, durante as explicações fornecidas, o Imperador descobria quase sempre, discordâncias, enganos e lacunas. Assim, compreende-se a forte admiração despertada, entre os professores russos, ao emitir opiniões próprias, pedindo novos esclarecimentos sobre casos controversos. Segundo o escritor Argeu Guimarães, "sua maneira delicada, afável, comunicativa,impressionou os docentes da Universidade de São Petersburgo, os quais, após a partida do monarca, se reuniram para proclamá-lo membro de honra dessa instituição e oferecer-lhe várias obras, tais como a História da Universidade de São Petersburgo de Grivoriev, a Enciclopédia Russa do professor Berezine, uma História Natural e outras publi-cações acadêmicas". 

Por volta das 11h da manhã, D. Pedro começou uma visita à Biblioteca Imperial. Prolongou-se até as 15h, quando o Imperador examinou com muita atenção todas essas relíquias bibliográficas. Bibliófilo e erudito, surpreendeu a todos com seus conhecimentos. O Imperador lia com facilidade os títulos dos livros em russo, mesmo aqueles gravados em caracteres antigos. Não só o texto russo, mas também o latino, alemão, árabe, hebraico e samaritano, estavam ao alcance do seu saber na seção de manuscritos antigos. Era, segundo relatos, surpreendente a facilidade com que versava sobre importantes questões e, não raro, os especialistas que o acompanhavam efacilitavam as explicações, eram induzidos a desistir, pois o Imperador já estava bem sintonizado com os temas ministrados. 

De particular curiosidade para [Dom] Pedro II foram as seções de história, etnografia, arquitetura, indumentária e ornamentaria russa. Os mais ilustres nomes da literatura, da história, das ciências e das belas artes eram familiares ao monarca, grande admirador das obras do historiador Nicolau Karamzine e do fabulista Ivan Krylov. 

[Dom] Pedro II examinou autógrafos do escritor Alexandre Sergueievich Pushkin (1799-1837), do poeta lírico Nicolau Gogol (1809-1852), do romancista Michail Y. Lermontov (1814-1841), do poeta Gavril Roma-novich Derjavine (1743-1816), do compositor Miguel Ivanovich Glinka (1804-1857), do reformador e estadista Mikhail Speransky (1772-1839), ou seja, toda uma galeria intelectual da Rússia czarista. Numa crônica russa publicada nos dias de sua visita, o dignitário brasileiro é tido como eminente poliglota, lingüista e filólogo. Sob esse olhar, ele conquistou um lugar de destaque entre os sábios orientalistas de São Petersburgo. A visita à Biblioteca Imperial terminou pelo exame minucioso de uma coleção de Bíblias impressas em várias línguas. Esteve finalmente na sala da Idade Média, no famoso “Gabinete de Fausto”, cujo gosto e originalidade lhe inspiraram elogios. O Imperador voltou à Biblioteca Imperial uma semana depois, em 6 de setembro, para examinar especialmente os pergaminhos hebraicos e os manuscritos samaritanos da “Coleção Firkovitch”. 

Abraham Ben Samuel Firkovitch (1785-1874) foi um renomeado escritor caraíta (judeus que acreditam apenas na lei escrita, na Torá), responsável pelo revival dos estudos caraíticos na Rússia. Protegido pelo sábio Bobovitch, com 25 anos de idade empreende uma viagem à Palestina otomana para depois retornar e fundar, na Criméia, uma sociedade dedicada à publicação de obras caraítas antigas. Na ocasião, faz uma petição ao governo russo para que lhe seja entregue um informe completo sobre as origens da seita. Assim, já consagrado como estudioso, Firkovitch promoveu discussões científicas a respeito dessa literatura, despertando o interesse de pesquisadores judeus e não judeus do mundo inteiro. A fim de demonstrar a antiguidade dessa vertente judaica, no entanto, ele falsifica documentos, mesclando peças autênticas com falsas. Essas falsificações foram descobertas após sua morte. 

Firkovitch realizou numerosas expedições arqueológicas, furtou manuscritos dos arquivos das comunidades caraítas da Criméia para, logo depois, vendê-los à biblioteca da Universidade de São Petersburgo. Num primeiro momento, os historiadores judeus aceitaram a autenticidade dos documentos de Firkovitch, mas um tempo depois, suas teorias foram contestadas por Steinschneider, Efraim Deinard, David Kahana. Suas obras são de valor literário limitado. O livro Avnei Zicharon (Pedra da Memória), publicado em 1872, causou grandes polêmicas contra o Judaísmo rabínico. Já seus artigos e poesias formam publicados em Viena (1871) pelo ensaísta judeu Saul Smolenski sob as siglas Abnei Reshef (referindo-se às primeiras letras de Abraham ben Rabbi Shemuel Firkovich). 

Na Biblioteca Imperial, [Dom] Pedro II passou cerca de duas horas com o bibliotecário Garkavine, conversando sobre a data dos manuscritos hebraicos e comentando as ilustrações existentes nas margens dos mesmos. O monarca queria saber detalhes do debate arqueológico envolvendo os judeus da Criméia. Referindo-se aos diferentes temas abordados durante o Terceiro Congresso de Orientalistas, Sua Majestade discursou sobre o tema dos hieroglíficos, e particularmente sobre as inscrições do Rei Mesha, líder dos moabitas. Pediu informação sobre a seita dos samaritanos e sua literatura, fez perguntas e indagou no fim da palestra se haveria indícios comprobatórios de
que a sintaxe e a prosódia da literatura hebraica dos tempos antigos foram alterados, se seria possível constatar com documentos fidedignos como se denominavam primitivamente os lugares da Palestina. 

Satisfeita a curiosidade do monarca, declarou ele que pretendia ir à Palestina e fazer por lá novas pesquisas. Os convidados ouviam suas palavras com respeito e admiração, especialmente pela vastidão de seus conhecimentos históricos e literários. Em 6 de setembro, pela tarde, o Imperador recebeu uma comissão da Academia de Ciências e da Universidade da São Petersburgo, que lhe entregou os diplomas de membro de honra das duas instituições. Saudado pelo Prof. Brosse e pelo físico e químico Nicolai Nicolaievitch Beketof (1827-1911), [Dom] Pedro II agradeceu em francês, fazendo elogios à cultura russa. A sessão inaugural se realizou na sala da Biblioteca Imperial. D. Pedro II aceitou o título de membro de honra que lhe fora concedido pelos participantes do evento. Assistiram à solenidade o Ministro de Instrução Pública, numerosos sábios russos, convidados estrangeiros. 

A grande ala mostrava um aspecto deslumbrante, toda decorada de flores, bandeiras e tapeçarias. Atrás de um estrado, destacava-se um quadro do czar Alexandre II. Ao fundo, um grupo de habitantes da Sibéria oriental, especialmente convidados pelo governante russo. Junto à mesa central, os representantes do governo, membros de institutos, e jornalistas. Do lado oposto estava o público presente. Na ocasião foram entoados cânticos, e o professor Grigorieff, presidente do congresso, abriu a sessão com um discurso em francês.

O Congresso de Orientalistas devia absorver o tempo de [Dom] Pedro II, sacrificando uma parte de seu programa de visitas e passeios. Mas, como a inauguração do Congresso foi marcada para a tarde, o Imperador aproveitou para ver o Paço de Ekaterinehoff. E, terminada a sessão de abertura, fez uma excursão às ilhas e às belas vilas de Outine e Gromoff. 

A Comissão organizadora do Congresso de Orientalistas, convocado pela Universidade de São Petersburgo, compunha-se dos seguintes profissionais: W.W. Grigorieff, professor de História do Oriente e decano da Faculdade de Línguas Orientais; K.P. Pakanoff, catedrático de armênio; Daniel Abramovitch Chwolson, professor de hebraico, caldeu e assírio; A. L. Kuhn, adido ao Governo do Turquestão para pesquisas arqueológicas. O primeiro tema abordado no Congresso tratou do desenvolvimento das disciplinas orientalistas sob os diferentes prismas: arqueológico, epigráfico, geológico e paleontológico. Os participantes se propunham a definir o nexo entre o Oriente e a Europa. As línguas estudadas documentavam a continuidade das raízes arianas e das russas, oferecendo novos caminhos para procurar respostas às interrogações formuladas. Os russos, assim como os arianos, iam buscar o berço milenar na Ásia central. Tudo em pleno horizonte das predileções de D. Pedro II. Tinha ele a paixão pelo estudo das línguas orientais e das civilizações antigas. A obra do judeu Antoine Isaac Silvestre de Sacy (1758-1838), precursor dos estudos orientais na França, para quem a vida do Oriente não tinha segredos, era uma das leituras favoritas da Biblioteca do Imperador. Ele lera o mestre francês e os seus ilustres discípulos, dentre eles, o famoso Jean François Champollion (1790-1832), tradutor de hieroglíficos da “Pedra Rosetta”, atualmente exposta no Museu Britânico de Londres. Como sabemos, até morrer em Paris em 1891, [Dom] Pedro II dedicou-se ao estudo sobre textos de línguas mortas. Nas cartas ao Visconde de Tunay o monarca brasileiro relata acerca das suas leituras sobre egiptologia e as traduções dos originais da Bíblia e das Mil e Uma Noites em que se empenhava. Em 1891, durante seu exílio em Paris, Sua Majestade contou com o carinho de outro grande orientalista, o seu quarto mestre de hebraico, Christian Seybold (1859-1921). Esse professor de línguas semíticas morou no Rio de Janeiro e foi membro do “Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro” sediado na cidade. 

2. Viajar e traduzir 

O Imperador D. Pedro II foi um devoto cristão e um profundo crítico da Bíblia. Desde que estudava hebraico em Petrópolis e aprimorava seus conhecimentos da língua com seu primeiro mestre, o cônsul da Suécia no Rio de Janeiro, Leonhard Akerbloom (1830-1896); Sua Majestade traduzia trechos bíblicos dos Salmos, de Isaías, Jeremias, Gênesis e Ruth. Durante a visita de 24 dias a Terra Santa, trabalhou com afinco nas traduções. Sempre achava intervalos para realizar exercícios de tradução com seu mestre de hebraico e sânscrito, o alemão Karl Henning. Horários imprevisíveis e lugares históricos que inspirassem o monarca eram os escolhidos para realizar essas traduções. A primeira tradução dos Atos dos Apóstolos começou depois do almoço às margens do arroio Dhirani e continuou depois de uma animada festa noturna. 

Algumas vezes [Dom] Pedro II examinava lugares históricos mencionados na Bíblia, mas lamentava-se amargamente de não ter, naquele preciso momento, o texto para traduzir ou ler determinadas passagens. Isso ocorreu na região das aldeias de Naïm e Endor, lugares onde Síssara foi derrotado e morto pela juíza Débora, cujo “Canto de Débora” não foi possível recitar. Obstinado, o monarca queria traduzir o cântico de gloria ao Senhor: começou na minúscula aldeia de Djenine (Jenin) e concluiu em Nablus, com o comentário de que “tinha esquecido bastante o hebraico”.

Geralmente, o monarca traduzia antes de dormir, mesmo depois de uma árdua jornada. Em quase todo lugar, [Dom] Pedro d’Alcântara revelava sólidos conhecimentos bíblicos, ensaiando digressões filológicas baseadas na onomástica bíblica, para, por exemplo, explicar o nome da histórica “Ponte das Filhas de Jacó”, Guesher Benot iaacov, sobre o rio Jordão. Segundo o versículo em Gn. 32:22, “naquela mesma noite, ele [Jacó] levantou com suas duas mulheres, suas duas servas e seus doze filhos e passou o vau do Jaboc”. Para [Dom] Pedro II, a ponte adquiriu seu nome de uma corruptela da palavra “Joboc”, que, trocando as letras de lugar deu origem à palavra Jacob. Esse trocadilho é muito curioso com letras latinas, embora as palavras na sua forma hebraica, não permitam tal especulação.  

D. Pedro II também relacionava a leitura e a interpretação da Bíblia às obras de arte visitadas durante suas viagens. Em Gabaon, enquanto revivia o episódio em que Josué ordenou o sol parar, lembrava de ter visto, na Filadélfia, o quadro de um artista francês representando a cena. Traduzir, traduzir, traduzir! Parece que essa atividade se tornou uma verdadeira obsessão. O momento de maior alegria para um cristão é verter do hebraico o Salmo 122 “Vamos subir à Casa do Senhor”, afirma, descrevendo-se ali a chegada dos peregrinos cristãos à Jerusalém. Outro livro sagrado fascinou sobremaneira o Imperador do Brasil desde sua mocidade, Ruth. Trata-se de um romance pastoril lido pelos judeus na festa de Shavuot, data da outorga da Torá no Monte Sinai. A ação transcorre nos antigos campos de Moab, na planície de Jericó. Ali, D. Pedro II olha para as montanhas de Moab e se emociona ao lembrar do texto de Ruth que ele mesmo traduziu para o hebraico. 

Durante o retorno de Jerusalém ao porto de Jaffa, hoje Tel-Aviv, o Diário de Viagem a Terra Santa cita a planície de Sharon, lugar onde o juiz Sansão, da tribo de Dan, soltou raposas com fachos acesos nas caudas. D. Pedro II encerra seu relato citando a história de Sansão e Dalila, segundo o monarca, um dos capítulos mais curiosos da Bíblia. 

3. Uma visita aos judeus samaritanos 

Depois de ter visitado Nazaré, a comitiva de D. Pedro II rumou para Djenine, onde pernoitou. Em 25 de novembro, cedo pela manhã, entrou na Samária, um território que muito lhe agradou. Nablus, ou Siquém, uma cidade de ruas estreitas, estava preparada para receber o monarca brasileiro. Como assíduo visitante de templos judaicos, [Dom] Pedro II conheceu no sábado, a sinagoga freqüentada pela seita dos judeus samaritanos. A sinagoga era pequena e [Dom] Pedro d’Alcântara aguardou pacientemente na porta, enquanto no interior, “homens e meninos de roupa branca” rezavam. Em poucos minutos, foi convidado a entrar. Atendendo a seu pedido, os judeus trouxeram a Torá para fora da sinagoga. O manuscrito de pele de gazela, meio rasgado e com letras bastante apagadas, foi examinado. Alguns defendem que sua antiguidade data de 1.500 a.C, o tempo de Absche filho de Pinéas, filho de Eleazar, filho de Arão. Mas, na opinião de outros, seria do período de Manasses, do Templo de Garizim em 330 a.C, ou mesmo posterior ao nascimento de Cristo.  

Apaixonado por manuscritos antigos, [Dom] Pedro II, três meses antes de chegar a Terra Santa, como já dissemos, tinha inspecionado manuscritos bíblicos e participado de um encontro com orientalistas russos. Na sinagoga dos samaritanos surgiu uma oportunidade única: analisar de perto um manuscrito com caracteres hebraicos. Para ver melhor as letras do manuscrito, pediu que o desenrolassem mais, porém havia ainda linhas que se embaraçavam, e o grande sacerdote samaritano, com um canivete, não quis cortá-las para não infringir o preceito de não trabalhar no sábado. Karl Henning, terceiro mestre de hebraico do Imperador, cortou então as linhas, mas outro judeu prometeu levar ao acampamento dos brasileiros uma folha da cópia do Pentateuco. O Pentateuco de que trata D. Pedro II estava escrito em letras fenícias, ou cananéias, todas usadas antes do cativeiro da Babilônia em 586 a.C. 

Deixemos por um instante a antiga sinagoga dos samaritanos e retornemos ao Brasil, mais de um século depois. Em 23 de agosto de 1995 a revista Veja publicou uma nota sob o título “Pergaminho de 24 metros”. A curta matéria, ilustrada com uma fotografia em caracteres hebraicos, informava sobre a existência das três edições mais antigas da Torá: uma no Museu de Israel em Jerusalém, outra nos Estados Unidos e uma terceira no Brasil.  

Que sabemos sobre esse texto milenar localizado no Brasil? Tratava-se de um pergaminho de 24 metros de comprimento, dividido em nove rolos de 60 centímetros de altura, todo ele em couro avermelhado de novilho. O livro teria sido copiado por um escriba judeu, sofer, que teria habitava o antigo Egito entre os séculos I e IV. Escritos com pigmento vegetal, esses pergaminhos estavam no Museu Nacional do Rio de Janeiro. 

A nota publicada na revista Veja sugere a formulação da seguinte pergunta: seria esse o manuscrito apresentado ao monarca brasileiro na antiga sinagoga dos samaritanos? Em visita ao Departamento de Arqueologia do Museu Nacional no Rio de Janeiro para esclarecer essa e outras dúvidas, surgiu meu desapontamento: não é possível afirmar que o manuscrito samaritano citado no Diário de Viagem à Palestina seja aquele do Museu Nacional. Os argumentos que permitem sustentar essa negativa são os seguintes: 1) o Diário de Viagem à Palestina trata de um manuscrito de pele de gazela enquanto o do Rio de Janeiro é todo de couro; 2) as letras do Pentateuco examinado por D. Pedro II dificultavam a leitura e algumas estavam bastante apagadas, os caracteres dos pergaminhos do Museu Nacional estão completamente legíveis; 3) a idade do manuscrito segundo o Diário de Viagem data da época de Absche, Avishua, filho de Pinéias, o sacerdote-mor que atuava no tempo de Josué bin Nun, sucessor de Moisés. O Pentateuco do Rio de Janeiro teria sido copiado por um escriba sofer que viveu no Egito entre os séculos I e IV; a prova mais evidente de que o manuscrito do Museu Nacional não seria o mesmo do Diário de Viagem, reside na forma dos próprios caracteres hebraicos. Por meio da paleografia, é possível concluir que as letras dos escribas samaritanos eram diferentes das letras hebraicas utilizadas pelos escribas judeus. O texto do Rio de Janeiro é perfeitamente legível, enquanto o do Diário não; finalmente, o argumento mais contundente: a promessa dos judeus samaritanos de levar uma cópia do Pentateuco ao Imperador nunca foi cumprida, o que torna ainda mais difícil, a hipótese de que o texto do Museu Nacional seja àquele citado por Sua Majestade D. Pedro II. Certamente, seria necessário um estudo de caráter técnico para avaliar, com precisão, o material do manuscrito, o tamanho e a forma dos caracteres, além das dimensões e dos espaços no próprio texto. 

4. A crítica aos monges de Saint Sabbas 

O monastério construído em homenagem ao mártir Saint Sabbas (439-532), é um lugar recôndito nas montanhas de Moab, em direção sudoeste de Jerusalém. Para chegar até o convento, caminha-se ao longo do rio Cedrón, cujas ribanceiras têm dezenas de metros de altura. Durante novembro e dezembro, épocas em que o Imperador visitou a região, o leito do rio estava seco. O conjunto do convento é muito antigo e imponente. Ele ficava a três horas de viagem a cavalo de Belém e estava formado de edifícios que parecem agarrados como trepadeiras à ribanceira direita do Cedrón, desembocando no Mar Morto, a maior depressão do mundo. Observando o monastério desde o chão, ele parece fixado às rochas, quase pendurado sobre o abismo. 

O convento de Saint Sabbas é um labirinto de câmaras e galerias construídas em pleno deserto. O padre Samuel Manning (1822-1881) visitou o lugar em 1873 e afirmou: “only an inmate of the convent can find his way from one part to another, ou seja,somente um morador do convento pode achar o caminho de um lugar a outro. O Diário de Viagem à Palestina localizado no Museu Imperial de Petrópolis relata que, em 29 de novembro de 1876, a comitiva de D. Pedro II divide-se temporariamente, pois o caminho até Saint Sabbas seria difícil, as gargantas não permitem uma viagem com tarantuas, liteiras, e o regimento desse lugar sagrado proíbe terminantemente a entrada de mulheres no convento. Afinal, mulheres não faltavam na delegação brasileira composta por quase 200 pessoas, entre elas a própria esposa do monarca, Dona Teresa Cristina, e suas damas de honra na Câmara Imperial: Dona Josefina da Fonseca, e sua criada de quarto, Dona Joaninha. O rígido regulamento, a reclusão e o complicado acesso, geraram problemas. Segundo consta, certa vez ocorreu um misterioso massacre de monges no lugar. Além disso, ninguém poderia ser recebido no monastério sem a permissão oficial da maior autoridade religiosa: o Patriarca Grego de Jerusalém.

O Diário de Viagem à Palestina registra a entrada do Imperador e de seus súditos no recinto. Ela foi solene, sendo recebido com repiques e duas tochas acesas. O encontro de D. Pedro II com os moradores do convento foi tranqüilo. O cheiro de incenso impregnava seus largos corredores e os 60 frades gregos esperavam-no com certa impaciência. O soberano surpreendeu-se com vários bandos de melros, cujos ninhos ocupavam os buracos da ribanceira oposta e comiam na mão dos frades. Os monges eram gregos cismáticos. Regidos pela regra de São Basílio, os ascetas possuem uma capela minuciosamente examinada pelo monarca. O exterior do convento é um montículo de pedras, meschakid, aproveitando as grutas do rochedo. Os frades utilizavam pequenos espaços do rochedo para construir minúsculas casas de madeira e plantar flores e arbustos. 

Num outro canto do convento, [Dom] Pedro II distingue um dos símbolos do monastério: a histórica palmeira de Saint Sabbas, que segundo o próprio imperador “é uma palmeira bastante alta que se curva para trás como que precisando do encosto da parede”. Já dentro do convento, Sua Majestade pediu para conhecer a biblioteca. Sob um silencio constrangedor, porque os monges nada explicavam; ele folheou manuscritos dos Evangelhos datados do século 10, coleções de sermões e outros textos sagrados guardados numa pequena sala. O Imperador do Brasil queria obter mais informações sobre aqueles manuscritos, porém, segundo consta, nada obteve dos anfitriões. Depois de muita insistência, o único frade que falava o francês, permitiu que o Dr. Karl Henning examinasse uma outra coleção de livros. Ele garimpou vários manuscritos que o frade afirmou existirem somente impressos. Segundo o monarca, “tal repugnância poder-se-á explicar pela vergonha que eles tenham de não haverem aproveitado, por ignorância, as riquezas literárias que possuam”. As palavras do Imperador ecoavam com força e indignação. Embora o Levante fosse francófono, apenas um dos 60 monges falava fluentemente o francês, serviu de intérprete e se convenceu que ele como os demais do monastério, não conheciam suas coleções de manuscritos, passando momentos de constrangimento intelectual. Como então estudavam? Como se permitiam ignorar textos sagrados de seu próprio acervo?  

Através de um irônico depoimento de Samuel Manning, religioso britânico que visitou os monges gregos três anos antes da visita do chefe de Estado brasileiro, sabemos que esses ascetas eram pouco hospitaleiros. O mesmo padre Manning acrescentou em The Holy Fields: Palestine sobre a biblioteca do monastério: “Though there is a valuable library, it seems to be entirely unused; indeed, a majority of the ascetics are unable to read, and their only recreation consists in drinking raki, and in feeding the birds and jackals, which are very numerous”, ou seja, apesar de existir uma valiosa biblioteca, ela me parece completamente inútil, pois a maioria dos ascetas é incapaz de ler; e o seu único passa-tempo consiste em beber raki e alimentar pássaros (texto: melros) e chacais que são muito numerosos. 

A escritora, filósofa e jornalista britânica Harriet Martineau (1802-1876), renomeada intelectual da época vitoriana, fez também entre outubro de 1846 e junho de 1847 uma viagem ao Oriente Médio, visitando Egito, Líbano, Síria e Palestina. Estudiosa do Egito antigo e dos lugares bíblicos, Martineau foi uma mulher que conseguiu burlar o regulamento e visitar o monastério, expressando com tristeza seu desapontamento sobre os habitantes do convento Saint Sabbas. Em depoimento registrado em Eastern Life (1848) chegou a afirmar de forma contundente e categórica: “....the monks are too holy to be hospitable”, ou seja, os monges são demasiadamente sagrados para serem hospitaleiros. Realmente, tudo indica que santidade e hospitalidade não marchavam juntas entre os moradores. 

Como constatamos, a opinião de [Dom] Pedro d’Alcântara, o depoimento da escritora Harriet Martineau e a afirmação do clérigo inglês Samuel Manning, coincidem. A ignorância e o despreparo dos monges de Saint Sabbas eram inegáveis. Após visitar o monastério, a comitiva imperial continuou sua peregrinação pela Terra Santa, rumo à cidade de Jerusalém.  

Considerações finais 

Analisamos, aqui, quatro momentos que nos permitem entender a cálida relação que tinha [Dom] Pedro II para com os textos judaicos, sejam Bíblias, pergaminhos ou manuscritos hebraicos antigos. A visita à Universidade de São Petersburgo serviu para conhecer o acervo de livros e manuscritos da instituição, mas acima de tudo, para difundir o apelido de “Rei sábio” nas distanciadas terras russas. Sua curiosidade intelectual e conhecimento impressionaram os orientalistas que o consideravam uma sumidade nas diferentes áreas do saber. A arte de traduzir a Bíblia esteve presente na peregrinação pela Terra Santa. Orientado pelo seu fiel professor de hebraico Karl Henning, D. Pedro d’Alcântara fez vários exercícios de tradução. Fiel cristão, a sua paixão pela Bíblia transbordava em todo momento. Ele o motivou permanentemente a traduzir trechos bíblicos de interesse. Visitar uma sinagoga dos samaritanos foi também uma aventura única, jamais vivenciada antes pelo monarca. Essa experiência ímpar possibilitou a D. Pedro II entrar em contato direto com uma faceta da comunidade judaica na Terra de Israel. Finalmente, a rápida visita ao monastério de Saint Sabbá, nas proximidades de Jerusalém, serviu para que o Imperador percebesse que nem todos, incluindo aqui os monges guardiões, foram capazes de penetrar o conteúdo sagrado dos manuscritos existentes nas bibliotecas de seus próprios conventos.

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* Reuven Faingold é Doutor em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Professor no Depto. de História da Arte da FAAP em São Paulo e Ribeirão Preto.

Nota 

1 FAINGOLD, 1999.

Referências bibliográficas

GUIMARÃES, Argeu. D. Pedro II e os Orientalistas de São Petersburgo. Revista da Semana. Rio de janeiro, 14 jun 1941.

CALMON. P. O Rei Filósofo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938.

FAINGOLD, Reuven. D. Pedro II na Terra Santa: Diário de Viagem - 1876. São Paulo: Livraria e Editora Sêfer, 1999.

GÉRARDY-SANTINE, P., Trois ans en Judée. Paris: Hachette et Cie,1860.

GOOD, F.M. Photo Pictures of the Holy Land. London, 1840-1925.

KAMSLER, H.M. Os Samaritanos. Herança judaica. n. 7, vol.2. São Paulo: Benei Brith Editora, 1971.

MANNING, Samuel. The Holy Fields: Palestine, ilustrated by pen and pencil. Londres: The Religious Tract Society,1874.

MARTINEAU, Harriet. Eastern Life. Londres: Present and Past. 3 vols. Londres: [s.ed.],1848.

DOM PEDRO II. Tradução feita de quatro capítulos do “Livro de Ruth” (do hebraico para o latim).

IHGB, lata 311, pasta 44. Rio de Janeiro, [s.d.].

Revista Veja. Pergaminho de 24 metros. 23 ago 1995. São Paulo: Editora Abril 1995.

ROBINSON, E. Recherches Bibliques sur la Palestine. Paris: [s. ed.],1856.

SAULCY, Louis Félicien Joseph Caignart. Dictionnaire topographique de la Terre-Sainte. Paris: Vewieg, 1877.

WILSON. Ch. Picturesque Palestine. Paris:Hachette et Cie, 1880.

WOLFF, Egon e Frieda. Um brasileiro visita a sinagoga samaritana na Palestina. Herança judaica.vol. 40. São Paulo: Benei Brith Editora, 25 dez 1980. p. 43.
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Nota do Blog:
Os [ ] são do Blog.

Falece o Príncipe Maria Emmanuel de Saxe, Chefe da Casa Real de Saxe


Faleceu no dia 23 de julho de 2012, em sua residência na Suíça, aos 86 anos, o Chefe da Casa Real da Saxe (Saxônia) e Margrave de Meissen (Misnia), o Príncipe Maria Emmanuel de Saxe.

O Príncipe era filho da Princesa Elisabeth Helena, nascida Princesa de Thurn und Taxi, e do Príncipe Frederico Cristiano de Saxe. O Príncipe Maria Emmanuel foi aprisionado em 1945 pelos nazistas e condenado à morte, mas conseguiu fugir da prisão no momento em que esta era tomada pelos russos, conseguindo evitar a estes, que o teriam igualmente matado ou enviado a um campo de concentração na Sibéria, como ocorreu com vários membros de Famílias Principescas e Nobres da Alemanha e da Áustria. Falecendo o pai em 1968, o sucedeu como chefe da Família Real de Saxe (Saxônia). Passou a residir na Suíça, o antigo reino da Saxônia integrando a Alemanha Oriental. Casou em 1962 com a Princesa Anastasia Luisa de Anhalt, nascida em 1940, filha do Príncipe Eugenio de Anhalt. O casal não teve filhos e adotaram seu sobrinho, o Príncipe Johannes (João) de Saxe-Coburgo e Gotha, descendente do Príncipe Dom Augusto Leopoldo de Saxe-Coburgo e Bragança, neto do Imperador Dom Pedro II, um primo, portanto, de Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança.  O Príncipe João, nascido em 1969, era filho da princesa Matilde de Saxe, médica pediátrica e irmã mais moça do Príncipe Maria Emmanuel, e do Príncipe João Henrique de Saxe-Coburgo e Gotha, filho do Príncipe Rainer de Saxe-Coburgo e Gotha (nascido em 1900, desapareceu num campo de concentração soviético pelo ano de 1945), um dos filhos de Dom Augusto Leopoldo, e de Johanna Karolyi de Karoly-Patty. O Príncipe João Henrique (falecido em 2010) casou em primeiras núpcias com a Baronesa Maria Gabriela de Fürstenberg, de quem se divorciou, o casamento tendo sido também declarado nulo religiosamente. Casou, então, em segundas núpcias, com a Princesa Matilde de Saxe. Seu filho, João, nascido em 1969, adotado pelo Príncipe Maria Emmanuel e destinado a ser seu sucessor dinástico, faleceu tragicamente em 1987, com apenas 17 anos de idade, no Alto Adige, Itália, em consequência de uma queda na montanha. O Príncipe Maria Emmanuel adotou então, outro sobrinho, filho de sua irmã, a Princesa Ana. Esta casou em 1952 com Roberto Afif, homem de negócios mexicano (sua irmã, Alexandra Afif, é casada com o Príncipe Carlos Antonio de Hohenzollern), de uma Família cristã da Síria e do Líbano, emigrada no início do século no México. O casamento foi considerado contrário às leis dinásticas da Casa de Saxe. Foi, porém, há alguns anos, reconsiderado, vendo-se a ilustre ascendência de séculos atrás do Príncipe Alexander, Príncipe de Gessaphe, e de grandes famílias libanesas, podendo ser consideradas soberanas. O Príncipe Maria Emmanuel adotou então o sobrinho, Alejandro Afif y Sachsen, que passou a chamar-se Alexander, Príncipe de Saxe-Gessaphe, Príncipe de Saxe, Duque de Saxe. Nascido em 1954, casou em 1987 com a Princesa Gisela da Baviera, filha mais moça do Príncipe Rasso da Baviera. A princesa Gisela é prima irmã do Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança. O casal já esteve várias vezes em São Paulo, ocasiões em que Dom Luiz pode estar com a Princesa Gisela. O casal tem quatro filhos, os Príncipes Georg (1988), Mauricio (1989), Paul (1993) e Maria Teresita (1999). O atual Chefe da Casa Real da Saxônia é o Príncipe Alexander.  
O Príncipe Alexander, a Princesa Gisela e os filhos

O Príncipe Alexander e a Princesa Gisela no casamento do Príncipe da Prússia em 2011

A Princesa Gisela e o Príncipe Dom Luiz, Chefe da Casa Imperial do Brasil, em São Paulo

terça-feira, 3 de julho de 2012

Dom Bertrand estará em Recife para debater o PNDH-3

Por: Jamildo Melo em Blog do Jamildo

 

Sem alarde, nesta quarta-feira, o Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança realizará palestra no Recife, sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), em evento no Círculo Católico, a partir das 19:30 horas.
É conhecido como um dos mais ardorosos defensores da propriedade privada e da livre iniciativa.

Dom Bertrand é coordenador nacional e porta-voz do Movimento Paz no Campo. Percorre todo o território nacional fazendo conferências e tomando contato com lideranças rurais em todo o País .

Nesta quarta, Dom Bertrand estará em Recife para tomar contato com lideranças locais e a convite do Círculo Católico de Pernambuco. Com a co-realização do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira participará de um fórum sobre a corrosão do direito de propriedade no PNDH-3. O tema: “As ameaças do Programa Nacional dos Direitos Humanos-3 continuam”.
Falarão também o professor Eduardo Barreto Campello, presidente do Círculo Católico e o Cel PMSP Jairo Paes de Lyra. Os conferencistas irão tratar de temas que estão inclusos no PNDH-3 e, na avaliação do príncipe, são verdadeiras barbaridades corrosivas para o Brasil.
D. Bertrand se posiciona claramente no campo da propriedade privada, livre iniciativa e respeito ao princípio de subsidiariedade, o qual limita o Estado ao âmbito que lhe toca por sua natureza. Tendo bem claro que os problemas sociais não são senão reflexo de outros mais profundos, de ordem moral.
O príncipe tem sido um constante defensor da instituição da família, bem como do direito da vida, sustentando com vigor os ensinamentos da doutrina tradicional da Igreja nessas matérias e opondo-se categoricamente "às tendências hedonistas e aos fatores de desagregação" “hoje tão favorecidos pelos meios de comunicação”.

Sítio Santa Maria recebe o Festival Vale do Café

O Príncipe Dom Alberto, acompanhado de sua esposa, a Princesa Dona Maritza de Orleans e Bragança serão anfitriões no Sítio Santa Maria, histórica propriedade da Família Imperial do Brasil pós exílio, em Vassouras, pelo Festival Vale do Café, ocasião em que saxofonista Daniela Spielmann e seu quarteto farão apresentação no jardins da residência Imperial.

A exemplo do que ocorre na Europa com a Famílias Reais, a Família Imperial do Brasil também resolveu abrir suas residências para grandes concertos e demonstrações culturais.


Segundo os organizadores do evento, "O Festival Vale do Café tem por objetivo criar um pólo turístico cultural e acelerar o desenvolvimento econômico do interior do estado do Rio de Janeiro. Através da preparação anual de uma grande celebração de música, história e natureza, aliada sempre ao respeito pelas raízes e pelo patrimônio histórico da região". O festival ocorrerá de 17 a 29 de julho de 2012 e a apresentação no Sítio Santa Maria ocorrerá no dia 29 às 11h.

Medalha Pedro Ernesto (RJ) é outorgada ao Professor Otto de Alencar Sá Pereira

A Câmara Municipal do Rio de Janeiro, através de proposta encaminhada pela vereadora Sonia Rabelo, homenageou o Professor Otto de Alencar Sá Pereira, com a medalha Pedro Ernesto. Estiveram presentes à cerimônia, os Príncipes Dom Fernando, Dona Maria da Graça e Dona Isabel de Orleans e Bragança.
Da esquerda para direita, Bruno de Cerqueira, Princesa Dona Isabel, Francisco Camões de Menezes (também componente da antiga asessoria do Príncipe Dom Pedro Henrique), a vereadora Sonia Rabelo, o homenagado - Professor Otto, Laila Vils, Maria Cecília Pires de Carvalho e Albuquerque Penna, Princesa Dona Maria da Graça e Príncipe Dom Fernando de Orleans e Bragança 
Foto: Câmara Municipal do Rio de Janeiro

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