quinta-feira, 7 de março de 2013

Entrevista exclusiva da Professora Valdirene do Carmo Ambiel ao Blog Monarquia Já sobre a exumação dos despojos do Imperador Dom Pedro I e das Imperatrizes Dona Leopoldina e Dona Amélia


Ela ajudou a recontar parte da História do Brasil. Historiadora, especializada em Arqueologia, a Professora Valdirene do Carmo Ambiel acaba de concluir seu mestrado sobre a exumação dos despojos do Imperador Dom Pedro I e das Imperatrizes Dona Leopoldina e Dona Amélia. O brilhantismo de seu trabalho atraiu os olhares da mídia curiosa e, o que já era sabido para os monarquistas, passou a ser notícia em todos os meios de comunicação do país, sendo manchete também na Europa, Estados Unidos e China. A Professora Valdirene concedeu entrevista exclusiva ao Blog Monarquia Já para contar um pouco mais sobre as pesquisas:  

BMJ - Professora Valdirene, em nome dos leitores, colaboradores e da equipe de edição, o Blog Monarquia Já agradece a franca disponibilidade em conceder esta entrevista.  

Professora Valdirene - Obrigada pelo apoio! 

BMJ - Por que pesquisar a cripta do Monumento à Independência, no Ipiranga, e exumar os corpos do Imperador e das Imperatrizes?  

Professora Valdirene - Como os senhores já devem ter visto na imprensa, o local sofre com infiltração de água, já há muito tempo. Eu nasci poucos quarteirões do local e passei minha infância brincando no local. Quando o corpo da Imperatriz Dona Amélia chegou, eu estava entre as pessoas que aguardavam, na época eu tinha 11 anos. Logo, eu via os problemas e temia que esta umidade afetasse os remanescentes humanos, de forma que pudéssemos perdê-los para sempre. Quando tive a oportunidade de apresentar meu projeto de mestrado no MAE/USP, pensei em fazer algo sobre isso, mesmo porquê, meu TCC em História havia sido sobre a participação política de Dona Leopoldina no processo de Independência do Brasil. 

BMJ - Quando começaram os trabalhos de pesquisa e porque a necessidade do sigilo? 

Professora Valdirene - As pesquisas na Cripta ou Capela Imperial começaram em fevereiro de 2012, mas as pesquisas bibliográficas e nos documentos históricos começaram em 2007. 

O sigilo foi porquê nós não tínhamos nada para dizer. É possível que as dúvidas da imprensa fossem as mesmas que nós tínhamos. Por isso, optamos por falar quando tivéssemos algo a dizer. 

BMJ - Como a Família Imperial recebeu o pedido da exumação dos despojos Imperais? 

Professora Valdirene - Eu já conhecia Dom Luiz e Dom Bertrand desde quando fiz as pesquisas para minha graduação. Acredito ter transmitido confiança aos Príncipes, porém, eu passei como todo o trabalho seria feito. É claro que não pensava que contaria com as tomografias e análises do Instituto de Física. O mesmo material foi enviado a Dom Pedro Carlos, devo dizer que os Príncipes tiveram a atitude digna de descendentes de Dona Leopoldina. 

Contei com o apoio de uma pessoa do Pró Monarquia que se transformou em um Grande Amigo: Gustavo Cintra do Prado. 
 
A professora Valdirene falou aos monarquistas sobre seus trabalhos no Encontro Monárquico do Rio de Janeiro, em julho de 2012
 

BMJ - Sabe-se que o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, representando seu irmão, Dom Luiz, Chefe da Casa Imperial, acompanhado de sua assessoria e de membros do Instituto Pró Monarquia, fizeram inúmeras visitas a cripta. Que outros membros da Família Imperial estiveram lá? 

Professora Valdirene - Basicamente só eles. 

BMJ - Uma benção antecedeu a abertura dos sarcófagos, descendestes dos Imperadores estavam lá. Apesar de ser, para a equipe de profissionais e para a Senhora como pesquisadora, um evento científico, como foi a emoção de ver os restos mortais daqueles vultos históricos que garantiram ao país a independência, a nacionalidade e a identidade brasileira? 

Professora Valdirene - Não posso dizer que não sou admiradora de Dona Leopoldina, não só pelo lado político, mas por tudo que ela fez pela Ciência em nosso país. Tive a oportunidade de “reconhecer” a figura de Dom Pedro I (que merece uma releitura) e também o enorme prazer de conhecer a figura fantástica de Dona Amélia. Para mim, a sensação foi de uma admiradora vendo seu ídolo, algo emocionante, pois eles não eram mais páginas de livros, nós tivemos a certeza que eles eram seres humanos e tiveram uma vida como nós temos a nossa hoje. Isso faz com que o respeito, que já não era pouco, aumente ainda mais.
 
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Para mim, a sensação foi de uma admiradora vendo seu ídolo, algo emocionante, pois eles não eram mais páginas de livros, nós tivemos a certeza que eles eram seres humanos e tiveram uma vida como nós temos a nossa hoje. Isso faz com que o respeito, que já não era pouco, aumente ainda mais.
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A celebração que antecedeu a abertura dos ataúdes
Foto: divulgação
 

BMJ - Quais foram os procedimentos executados nos corpos do Imperador e das Imperatrizes? 

Professora Valdirene - Cada um teve um procedimento diferente, pois seu estado era diferente: 

a) Dona Leopoldina estava com o corpo esqueletizado. Sua urna funerária havia sido substituída na segunda metade da década de 1980, por isso não foi necessária a troca, pois estava bem preservada. As vestes (de gala Imperial) estavam preservadas, mas em situação frágil, natural pelo tempo. Como tivemos as imagens da tomografia para analisar os ossos e a própria roupa, não foi necessária uma decapagem arqueológica mais intensa que poderia comprometer as vestes. 

b) Os remanescentes humanos de Dom Pedro I estavam nas urnas que o trouxeram de Portugal, em 1972: o corpo em um caixão de madeira rudimentar (tradição da época, séc.XIX), dentro de uma 'placa de chumbo' que aparece nas bibliografias como caixão de chumbo. Estas duas urnas, no caso, estavam dentro de um grande ataúde, feito de pinho português, com um crucifixo e as coroas de Portugal e Brasil (o que mostra que era realmente de 1972, e não de 1834). 

A urna que abrigava o corpo estava totalmente comprometida, o que nos obrigou a fazer a decapagem arqueológica total, ou seja, retirar todo o conteúdo da urna e colocar em uma outra para o exame de tomografia. 

Após o exame, a urna que abriga o corpo foi substituída, por outra também de madeira rudimentar, mas o fundo foi forrado com tecido de puro linho branco, material usado para preservação de despojos humanos desde a antiguidade. Esta urna foi colocada dentro do caixão de pinho português.

c) Dona Amélia estava com o corpo sem sedimentos, não foi necessária a decapagem arqueológica. E seu corpo estava preservado. Só nos restava levá-lo para tomografia, onde vimos que a preservação também foi dos órgãos internos. 

As urnas de Dona Amélia (madeira, chumbo e esquife) foram substituídas, pois apesar de resistir e preservar o corpo por 30 anos, apresentavam sinais de desgaste. Logo, compramos uma nova urna, como as que são usadas para longos traslados, com zinco no lugar do chumbo. Foi feito um trabalho de preservação no corpo, que chamamos de reembalsamamento, que visa preservar o corpo da ação de micro-organismos. O mesmo procedimento foi aplicado na urna. 

BMJ - Depois de aberto os ataúdes, verificou-se que o corpo da Imperatriz Dona Amélia está praticamente intacto. A que se atribui este fenômeno?  

Professora Valdirene - Ainda estamos fazendo exames, mas é possível que seja pelo fato da urna ter sido hermeticamente fechada em 1873 e pelo mesmo cuidado ter sido feito em 1982. 

Encontramos uma incisão na região da jugular, este procedimento foi feito após a morte, acreditamos que tenha sido para preservar o corpo para os funerais que demoravam em torno de 3 dias. Como o corpo foi hermeticamente fechado, como afirmamos, é possível que as ações responsáveis pela decomposição tenham sido anuladas, preservado o corpo. Ou seja, foi acidental. 

BMJ - De acordo com os exames realizados, as características físicas de Dom Pedro I e Dona Leopoldina, que as pinturas, alegorias e a historiografia transmitiram, remetem a realidade? 

Professora Valdirene - Só teremos certeza disso em meu doutorado, quando análises mais precisas serão feitas com base nas tomografias. Mas, em um exame superficial, é possível notar que Dona Leopoldina possuía uma ossatura fina, característica de uma mulher não muito robusta. Acreditamos que ela tenha sido retratada desta forma pelo número de gestações que teve, e quase que sucessivas, além dos problemas com o clima do Rio de Janeiro, para alguém de um ambiente frio pode trazer certos problemas. No caso da estatura de Dom Pedro, um homem com estatura entre 1,66m e 1,73m não pode ser considerado baixo, inclusive até bem pouco tempo atrás. 

BMJ - Sobre Dona Leopoldina, o Príncipe Dom Bertrand, na qualidade de descendente direto dos Imperadores, destacou em entrevistas que “ao contrário do que informam os historiadores malévolos, ela não morreu porque recebeu um pontapé do marido. A pesquisa prova que o aborto que sofreu foi espontâneo e a morte dela não foi decorrente de nenhuma violência”. A Senhora, como historiadora, como vê esta nova realidade da História?  

Professora Valdirene - O que eu fiz foi buscar informações em fontes primárias (documentos da época), seja no IHGSP ou no Museu Imperial. Passei os laudos médicos para o Dr. Luiz R. Fontes (ginecologista/obstetra e legista), pois, eu sou historiadora e arqueóloga. Tenho condições de ler estes documentos, mas não de interpretá-los. Eu cheguei a esta conclusão com base nestas análises. Porém, como historiadora, não posso acreditar em verdades absolutas, mas em versões com base nas fontes que usei. Se amanhã alguém tiver acesso a documentos e análises que provem contrário, podemos discutir sobre isso.

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Foi feito um acordo para que o Museu Imperial lance minha tese, com outros dados inseridos. Espero que isso aconteça ainda este ano. Há também a intenção de fazer um documentário, mas neste caso precisamos de patrocínio, pois os gastos são muito grandes.
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BMJ - Dom Pedro I e Dona Leopoldina estavam totalmente descompostos, Dona Amélia estava intacta. O que foi feito das vestimentas que os Imperadores usavam? 

Professora Valdirene – Sobre Dona Leopoldina, como afirmei acima, nós não mexemos nas vestes apenas coletamos amostras para análises.

Dom Pedro estava com as vestes, inclusive botas, totalmente fragmentados, sem condições para restauro. Nós recolhemos este material para análises do nosso trabalho também. 

Dona Amélia estava com as vestes intactas, logo, pegamos pequenos fragmentos para análises. Mesmo no processo de reembalsamamento as vestes da Imperatriz não foram mexidas, pois como houve um tratamento na urna, este procedimento seria absorvido pelas vestes, não havendo, portanto necessidade de retirá-las. Eu mesma apliquei esta substância nas mãos, pés e rosto da Imperatriz. A urna de zinco foi soldada, da mesma forma que em 1982. 

BMJ - Dona Amélia foi recolocada ao sarcófago como foi exumada, ou seja, intacta e com suas vestes? 

Professora Valdirene - Bem, esta pergunta já foi respondida. Apenas para confirmar, em nenhum momento as Imperatrizes foram desprovidas de suas vestes e é claro, continuam com as mesmas em seus ataúdes. 

BMJ - Há riscos de deterioração dos despojos de Dona Amélia depois de ter saído de um ambiente hermético e ter sido exposta ao ar e possíveis invasores?  

Professora Valdirene - Com o tratamento que fizemos e com o monitoramento semanal que está sendo realizado por mim mesma, com a permissão do DPH (da Prefeitura de São Paulo), não, porquê se houver um sinal de deterioração, pois pode haver alguma deterioração no zinco, nós logo saberemos e tomaremos as medidas necessárias. O Serviço de Verificação de Óbitos da Capital - SP (FMUSP), está me auxiliando neste trabalho. 

BMJ - Recolhidos os fragmentos das vestimentas Imperiais, as ordens honoríficas e as joias, para onde foram encaminhas e o que se planeja fazer com os objetos?  

Professora Valdirene - As comendas, brincos, botões e um fragmento do manto da Imperatriz Dona Leopoldina foram entregues ao Museu da Cidade de São Paulo, órgão ligado ao DPH. Nós não sabemos quando serão expostos ao público, pois agora cabe ao DPH e Secretaria da Cultura do Município de SP. 

Porém, como as análises feitas nos fragmentos foram as não destrutivas, realizadas pela equipe da Prof.ª Dra. Márcia Rizzutto do Instituto de Física da USP, nós pretendemos doar este material ao Museu Imperial, para que seja exposto ao público e analisado pelas gerações futuras. O Museu Imperial já está em contato com o IPHAN para verificação dos trâmites para esta doação. 

BMJ - Matérias de jornais famosos e revistas conceituadas informam que as pesquisas não vão parar. Quais os outros objetivos que a equipe de pesquisa tem e o que será possível fazer com os dados coletados?  

Professora Valdirene - Ainda não fizemos nada. Temos que processar todos os dados coletados nas pesquisas de campo. Este trabalho fará parte do meu doutorado. 

BMJ - A Senhora apresentou sua defesa de mestrado com o título “Estudos de arqueologia forense aplicados aos remanescentes humanos dos primeiros imperadores do Brasil depositados no monumento à independência”, no Museu de Arqueologia e Etnologia – MAE, da USP, no último dia 18 de fevereiro. Como a banca recebeu este título e que considerações podem ser feitas sobre o trabalho? 

Professora Valdirene - Não houve problema com a banca, pois foi isso que ocorreu. Eu usei muitos métodos forenses, como por exemplo, para estabelecer as estaturas e a questão de fraturas. Entretanto, foi um trabalho de Arqueologia Histórica, por isso o título: "Estudos de Arqueologia Forense Aplicados...", mas não foi um trabalho tradicionalmente forense. 

BMJ - Depois de um brilhante trabalho, com grandes elogios dos Príncipes da Casa Imperial Brasileira, sendo alvo de manchetes de jornais e revistas do Brasil e do mundo e ajudando a recontar parte da História do Brasil, como a Senhora vê todo este sucesso e a repercussão? 

Professora Valdirene - Não estou muito acostumada com a imprensa... Mas entendo que foi um importante passo para nossa história, além de uma dose de ânimo aos nossos historiadores e arqueólogos. O que fiz com este trabalho foi lançar novas abordagens aos meus colegas. Nós, da área das Ciências Humanas, devemos produzir conhecimento, assim como toda Ciência, e não só reproduzir. 

O caso dos Príncipes, eles me deram muita força durante todo o trabalho, inclusive quando minhas pernas e braços fraquejaram. Devo muito a eles. 

BMJ - A Senhora planeja lançar alguma obra, quem sabe um livro, de alcance popular, servindo também como base de pesquisa? 

Professora Valdirene - Sim, neste final de semana dei uma palestra no Museu Imperial, onde foi feito um acordo para que o Museu Imperial lance minha tese, com outros dados inseridos. Espero que isso aconteça ainda este ano. Há também a intenção de fazer um documentário, mas neste caso precisamos de patrocínio, pois os gastos são muito grandes. 

BMJ - Infelizmente quase nada se fala e pouco se pesquisa sobre nossos verdadeiros personagens históricos. Dona Leopoldina e Dona Amélia permanecem ilustres desconhecidas para muitos Brasileiros. A Senhora acha que com este belo trabalho, pode-se abrir precedentes para novas pesquisas sobre o Império?  

Professora Valdirene - Espero que sim, mas terá que ser uma pesquisa séria, a História tem que ser vista como Ciência que ela é e não romance como vemos em muitas publicações nos últimos anos.

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A História tem que ser vista como Ciência que ela é e não romance como vemos em muitas publicações nos últimos anos.
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BMJ - O que fica depois de um longo trabalho como este?
 
Professora Valdirene - A vontade de começar a nova etapa.

1 comentários :

Gutemberg Castro 7 de março de 2013 22:41  

Ótima entrevista amigo!! Post muito bom.
Gutemberg Castro

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