domingo, 19 de julho de 2015

Conde d’Eu: um grande exemplo de Príncipe

Por cortesia da Livraria Dom Pedro II, de Juiz de Fora, o Blog Monarquia Já, com exclusividade, transcreve uma sessão do compêndio que marcou o centenário da cidade de Petrópolis, narrando parte da visita realizada pelo Conde d’Eu ao Brasil, quando da revogação da Lei de Banimento. Neste texto, Alcindo Sodré demonstra a verdadeira face do Príncipe Gaston d’Orleans, Conde d’Eu, muito distinta da imprensa da época e das deformações dos livros escolares. Confira:


CENTENÁRIO DE PETRÓPOLIS
VOL. V

TRABALHOS
DA
COMISSÃO DO CENTENÁRIO

P. M. P.
1942


Nota: Por ser transcrição, a grafia da época foi mantida.

***

O Conde d'Eu em fotografia de 1921, no Rio de Janeiro, último registro em solo brasileiro
Imagem: Acervo MIP


GASTÃO D’ORLEANS
(MARECHAL CONDE D’EU)


Foi no verão de 1920 para 1921.

Em consequência da lei que revogara o banimento da Família Imperial, o Conde d’Eu e o Príncipe Dom Pedro achavam-se no Brasil, e haviam subido certa tarde para Petrópolis, hospedando-se no Hotel Moderno, à avenida Quinze de Novembro.

Na manhã seguinte, entre 8 e 9 horas, passávamos eu o e o professor Adrien Delpech, em passeio a cavalo, pela porta do Hotel Moderno quando dali saia, sosinho e a pé, o Conde d’Eu.

Seria o primeiro contacto de Gastão d’Orleans com Petrópolis após 31 anos de ausência forçada. Bem interessante deveria ser uma cômoda e discreta observação que nos proporcionava um singular personagem em tão especiais circunstâncias.

E foi o que obtivemos, sofreando o passo de nossos ginetes, de maneira a termos a sempre pela nossa dianteira o Conde d’Eu. Trajando escuro, e com andar vagaroso próprio da idade avançada, e além disso com o passo incerto de quem caminhava sem sabe como, desprovido de rumo, pisando e vivendo num cenário de sonho e lembrança, o velho Marechal se detivera pouco adiante, na iniciativa de um aperto de mão ao primeiro transeunte que lhe tirara respeitosamente o chapéu...

Na confluência da rua Paulo Barbosa, Gastão d’Orleans atravessa a ponte para o lado par da avenida 15, e mal chegado ao passeio torna a deter-se para novo aperto de mão a um negociante que, da porta do estabelecimento, se curvara à sua passagem.

Atinge de pronto o extenso gradil do Palácio Imperial, naquela época ainda existente sobre a principal rua de Petrópolis, e pouco depois de ei-lo parado ao centro do largo portão que havia onde hoje começa a rua Almirante Tefé. O Conde d’Eu estacou no limiar do velho portão, antiga entrada das carruagens do Paço. Lá no fundo, junto ao barranco de vegetação do Parque Imperial, uma nova capelinha, na sua brancura e simplicidade, era a única nota de graça a estabelecer contraste nas reminiscências de uma panorama querido e jamais olvidado.

Longos minutos quedou-se o Conde d’Eu na contemplação do quadro. Seu peito como que se curvara, reverente e estático, ao peso do sentimento das mais vivas e saudosas recordações. Que turbilhão de imagens não leh teriam passado pelo espirito naqueles instantes? Lá estava a lembrança material e feliz dos dias idos. À direita, a Casa da Mordomia, depois a Casa dos Semanários, a Casa dos Músicos. Nada mudara a não ser os moradores.

De súbito, como quem acorda para a vida de momento que passa, o Conde d’Eu fez brusca meia volta, e nós, discretamente acolhidos à sombra de uma magnólia fronteira pudemos bem vêr que pela face do velho Marechal do Exército Brasileiro, deslizavam duas grandes lágrimas...

A emoção fora tão grande, que o caminheiro resolvera dar por concluído o seu passeio. Atravessando a ponte próxima, ei-lo que voltava direto ao Hotel.

Assaltou-se então o desejo de cumprimenta-lo. Para tanto, adiantamo-nos de uma quadra, e apeiados junto à calçada, aguardamos o ilustre passeiante.

Não era um simples capricho de falar a um príncipe. Levava-nos o impulso de um subconsciente, que havia coligido longa série de episódios e convivências, em narrativas que só as avós podem e sabem contar...

E entre as coisas de que nossas cabeças estavam povoadas, figurava uma grata hospedagem dada em 1885 aos Condes d’Eu e filhos, na Estância da Quinta, propriedade de família no Rio Grande do Sul.

Aproximava-se o Príncipe, e percebendo logo nossa expectativa, mune-se da corneta acústica e para, a mão direita estendida. E logo, o breve diálogo:

- Somos bisneto do Conselheiro Jobim.
- Neto da Eugênia ou da Luisa?
- Da Eugênia, Alteza.
- Muito me lembro dela. Guardo ainda a melhor lembrança da minha visita ao Rio Grande. Ainda está com a família, aquela propriedade à margem do Jacuí, que atravessamos numa grande balsa, varando entre margens de lagedos?

Satisfeito o nosso impulso em cumprimentar o Conde d’Eu, ficou-nos funda impressão daquele admirável memória de otogenário que ao simples enunciar de um nome, logo estabelecia as hipóteses de descendência, e se referia a um detalhe de viagem que lhe ficara preso à retina, numa perfeita identificação de pessoas e coisas, colocadas a longa distância de tempo, ele que pela sua função oficial, tantos momentos semelhantes deveria ter vivido, de modo a que quantidade lhe desse justificavel perturbação às nítidas evocações de cada episódio.

_______

O sentimento do neto de Luis Filipe para com o Brasil, sentir sincero e de leal à Pátria da Princesa Imperial, sua ilustre consorte, tem sido comprovado através de abundante documentação. Mesmo assim, não será demais, e tem até um sabor especial para a atualidade, o conteúdo de uma carta do Conde d’Eu, agora recolhida ao arquivo do Museu Imperial.

Um estudioso de assuntos históricos, residente no Rio Grande do Sul, mantinha correspondência com o historiador paraguaio Juan Silvano Godoy, e desejando esclarecer um feito da campanha contra Lopes, mencionado em livro do escritor estrangeiro, dirigiu-se por carta ao Conde d’Eu, que lhe respondeu desta forma:

“Chateau d’Eu, 7 de outubro de 1916. – Ilmo. Sr. Alberto Rodrigues – Pelotas.

Agradeço-lhe vivamente ter-se lembrado de escrever-me pedindo que eu retificasse as alegações contidas no trecho que me enviou por cópia de uma obra do Sr. Silvano Godoy relativo a incidentes que este afirma terem-se dado após a tomada de assalto da Praça de Paribebuí, a 12 de agosto de 1869. Posso informar-lhe que segundo minhas recordações são inteiramente imaginários os incidentes ali narrados, não só do incêndio de um hospital abrigando feridos e doentes, como o da pretensa morte do Comandantes Caballero que o autor da narrativa menciona como tendo sido Chefe dessa praça de guerra. Nenhum militar brasileiro seria capaz de matar a sangue frio a um prisioneiro de guerra, nem eu toleraria semelhante ato, se chegasse a meu conhecimento, e eram pelo contrário os paraguaios que caíram nas nossas mãos sempre tratados com muita consideração, e por via de regra, postos em liberdade pouco depois; pois nenhum desejo mostraram de procurar reunir-se às forças do Ditador Lopes, onde só encontrariam a continuação de sofrimentos de toda a ordem por eles já experimentados e a prolongação de uma luta esteril.

Rogo-lhe dê toda a publicidade possível às presentes linhas; e creia que lhe sou grato por ter me proporcionado esta ocasião de desagravar o brilhante renome do exército brasileiro que me coube a honra de comandar.

Queira receber expressões de cordial estima. – Gastão d’Orleans, Conde d’Eu.

Sinto não possuir a obra do Sr. Godoy, pois nela encontraria talvez outros pontos a retificar.”

Aí está mais um depoimento sobre a conduta de Gastão d’Orleans respeitante ao Brasil. Exiliado com a esposa, já com muita idade, certamente sem a menor esperança de rever sequer a Pátria de seus filhos, não pôde sopitar o transbordamento do coração, numa oportunidade que lhe foi oferecida para se repetir honrado com a investidura de comandante em chefe das armas brasileiras, e defender a dignidade da nossa classe militar. E no momento em que o fazia, a França em guerra, o Conde d’Eu defendendo como podia a terra de seu berço, achava-se de carabina ao ombro, em serviço de retaguarda.

E por sinal que, conforme as circunstâncias, sua nobilitante carta para o Brasil, trazia no envólucro o necessário carimbo: “Ouvert par l’autorité militaire”.  
       
Alcindo de Azevedo Sodré

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