quarta-feira, 31 de março de 2010

A missa por Dom Luiz no Rio de Janeiro

A missa em sufrágio a alma de Dom Luiz de Bragança, o Príncipe Perfeito, celebrada em 27 de março, às 12h, contou com a presença de autoridades e de uma representante da Família Imperial.

A Princesa Dona Isabel, Dom José Palmeiro Mendes e a Presidente do Círculo Monárquico do Rio de Janeiro, Senhora Lêda Machado.


Na celebração estavam presentes Dom José Palmeiro Mendes, OSB; Abade Emérito do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, o deputado estadual João Pedro Figueira e por parte da Família Imperial, foi representando os Orleans e Bragança, a Princesa Dona Isabel. Estavam presentes também os membros do Círculo Monárquico do Rio de Janeiro. A missa contou com considerável número de pessoas, as quais puderam ouvir a bela homilia do Monsenhor Sergio Costa Couto e as palavras de Gustavo Cintra do Prado, um dos dirigentes do Pró-Monarquia.

Monsenhor Sergio Costa Couto profere a homilia, ao pé a Princesa Dona Isabel, o dr. Gary Bon Ali e Gustavo Cintra do Prado.


O representante do Pró-Monarquia discursa aos presentes, ao lado, os irmãos da Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro
 
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As fotos são de Luís Mendes, cedidas por Sua Excelência Reverendíssima Dom José Palmeiro Mendes.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Site Noblesse et Royautés homenageia Dom Luiz de Bragança

O site belga Noblesse et Royautés publicou no dia 26 de março uma homenagem ao Príncipe Dom Luiz de Bragança. Confiram o texto original e as fotos, seguidos da tradução:

90ème anniversaire du décès du prince Luiz d’Orléans-Bragance


Les monarchistes brésiliens célèbrent cette semaine, le 90ème anniversaire du décès du prince Luiz d’Orléans-Bragance, Prince impérial du Brésil, connu comme “le Prince parfait”. Le prince Luiz, Maria, Filipe, Pedro de Alcantara, Gastao, Miguel, Rafael, Gonzaga d’Orléans-Bragance a vu le jour le 26 novembre 1878 à Petropolis. Il est le deuxième fils de la princesse Isabelle (1846-1921), fille et héritière de l’empereur Pedro II du Brésil et du prince Gaston d’Orléans, comte d’Eu (1842-1922).


Il a 11 ans lorsque la république est proclamée et que la famille impériale du Brésil part en exil. Il poursuit dans un premier temps ses études en France puis entre comme ses frères à l’Académie militaire de Vienne (1895-1908).

Le prince aimait les voyages et a écrit plusieurs livres contenant ses impressions de voyage “Dans les Alpes”, “Tour d’Afrique”, “A travers l’Indu-Kush”, prix de la Société de Géographie de France et de l’Académie française,… Son récit de son voyage aux Etats-Unis est encore inédit.

En 1907, il souhaite s’arrêter au Brésil mais le gouvernement républicain empêche son débarquement à Rio de Janeiro. Il poursuit alors son périple dans d’autres pays d’Amérique du Sud.

Le 30 octobre 1908, son frère aîné le prince Pedro de Alcantara renonce à ses droits à la Couronne du Brésil. Le prince Luiz lui succède en tant que prince impérial. La princesse Isabelle, sans renoncer formellement à sa position d’héritière du trône, transmet à Luiz la charge de s’occuper de l’action monarchiste au Brésil.

En 1909 et en 1913, le prince Luiz écrit deux manifestes avec un grand retentissement au Brésil. Il publie en outre en portugais son livre avec ses impressions de voyage en Amérique du Sud. Une active correspondance avec des Brésiliens s’établit.


Au moment de la Première Guerre Mondiale, il souhaite s’engager dans l’armée française ce qui lui est refusé par le Président Poincaré en raison de son ascendance Orléans. Il intègre alors l’armée britannique en tant que capitaine du 23 août 1914 au 15 juillet 1915. Sa santé fragile le contraignant à se retirer.


Au niveau des décorations et distinctions militaires, il a reçu la Croix de Guerre, la Médaille de l’Yser par le roi Albert I et pour la Grande-Bretagne la British War Medal, la Victory Medal et la Star Medal. A sa mort, il fut fait Chevalier de la Légion d’Honneur.

Le prince Luiz s’est marié à Cannes en 1909 avec la princesse Maria Pia de Bourbon-Deux-Siciles (1878-1973), fille du comte de Caserte. Le couple a eu 3 enfants : Pedro Henrique (1909-1981) qui est le père de l’actuel héritier au trône et le grand-père du prince Pedro Luiz décédé dans le crash de l’avion Rio-Paris, Luiz Gastao (1911-1931) et Pia Marie (1913-2000) qui épousera le comte René de Nicolay.

Après la guerre, le prince demeure très fragile de santé, souffrant notamment de rhumatismes contractés lors de la bataille de l’Yer. Il est aussi très marqué par la mort de son frère le prince Antonio décédé en 1918 dans un accident d’avion quelques jours après l’Armistice.

Le prince Luiz est décédé le 26 mars 1920 à Cannes à l’âge de 42 ans. Il est inhumé en la Chapelle royale de Dreux, à côté de son épouse et proche de son fils Luiz Gastao et de son frère Antonio.

Le Cercle monarchiste de Rio de Janeiro invite à uen messe pour l’âme du prince Luiz le samedi 27 mars 2010 à la Chapelle de la Fraternité impériale de Outeiro da Gloria, très liée à l’histoire de la famille impériale du Brésil. (Merci beaucoup à José et à Dionatan pour le texte et les photos)


Tradução:

90º aniversário de falecimento de Dom Luiz de Orleans e Bragança

Os Monarquistas brasileiros celebram esta semana, o 90 º aniversário da morte do Príncipe [Dom] Luiz de Orleans e Bragança, Príncipe Imperial do Brasil, conhecido como o “príncipe perfeito”. O Príncipe [Dom] Luiz Filipe Maria Pedro de Alcântara Gastão Miguel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança nasceu em 26 de novembro de 1878, em Petrópolis. Foi o segundo filho da Princesa [Dona] Isabel (1846-1921), filha e herdeira de D. Pedro II do Brasil e do Príncipe Gastão de Orleans, Conde d'Eu (1842-1922).

Ele tinha 11 anos, quando foi proclamada a república e a Família Imperial do Brasil foi para o exílio. Ele estudou inicialmente na França e, entrou como seus irmãos para Academia Militar de Viena (1895-1908).

O príncipe gostava de viajar e escreveu vários livros contendo suas impressões de viagem “Dans les Alpes”, “Tour d’Afrique”, “A travers l’Indu-Kush” premiado pela Sociedade Geográfica de França e pela Academia francesa ... Seu relato de sua viagem para os Estados Unidos ainda é inédito.

Em 1907, tentou desembarcar no Brasil, mas o governo republicano impediu o desembarque no Rio de Janeiro. Em seguida, continuou sua jornada em outros países da América do Sul.

Em 30 de outubro de 1908, seu irmão mais velho Príncipe [Dom] Pedro de Alcântara renúncia aos seus direitos a Coroa do Brasil. O Príncipe [Dom] Luiz sucedeu-lhe como Príncipe Imperial. A Princesa [Dona] Isabel, sem renunciar formalmente a sua posição como herdeira do trono, transmitiu a [Dom] Luiz a carga das responsabilidades de cuidar de ação monárquica no Brasil.

Em 1909 e 1913, Príncipe [Dom] Luiz escreveu dois manifestos muito apreciados no Brasil. Ele também publicou seu livro em português, com suas impressões de viagem a América do Sul. Mantinha uma correspondência ativa com os brasileiros.

Quando estourou a Primeira Guerra Mundial, ele quis se alistar no exército francês, que o que foi negado pelo presidente Poincaré por causa de sua ascendência Orleans. Ele então se juntou ao exército britânico como capitão a 23 de agosto de 1914 a 15 de julho de 1915. Sua saúde frágil o forçou a se aposentar.

Em níveis de prêmios e condecorações militares, ele recebeu a Cruz da Guerra, a Medalha do Yser, pelo Rei Albert I e pela Grã-Bretanha, a British War Medal, a Medalha da Vitória e a medalha de Star. Na sua morte foi feito Cavaleiro da Legião de Honra.

O Príncipe [Dom] Luiz casou-se em Cannes em 1909 com [Dona] Maria Pia de Bourbon-Duas Sicílias (1878-1973), filha do Conde de Caserta. O casal teve 3 filhos: [Dom] Pedro Henrique (1909-1981), que é o pai do atual herdeiro ao trono e avô de [Dom] Príncipe D. Pedro Luiz que faleceu no acidente de avião Rio-Paris, [Dom] Luiz Gastão (1911-1931) e [Dona] Maria Pia (1913-2000) que se casou com o Conde René de Nicolay.

Após a guerra, o príncipe ficou com a saúde muito fragilizada, notadamente pelo reumatismo contratado na Batalha de Yer. Foi também muito marcado pela morte de seu irmão o Príncipe [Dom] Antonio faleceu em 1918 num acidente de avião apenas alguns dias após o armistício.

O Príncipe [Dom] Luiz faleceu em 26 de março de 1920 em Cannes, na idade de 42 anos. Ele está enterrado na Capela Real de Dreux, Ao lado de sua esposa e perto de seu filho [Dom] Luiz Gastão e seu irmão [Dom] Antonio.

O Círculo Monárquico do Rio de Janeiro convida para missa pela alma do Príncipe [Dom] Luiz, sábado, 27 de março de 2010 na Igreja da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, intimamente ligada à história da Família Imperial do Brasil. (Obrigado a José e Dionatan pelo texto e pelas fotos).

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sexta-feira, 26 de março de 2010

"MORTE DO PRÍNCIPE DOM LUIS: Repercussão no Rio de Janeiro"

Hoje, 26 de março de 2010, data em que se relembra os 90 anos da morte de Dom Luiz, publicamos um artigo sobre a morte e o funeral do Príncipe Perfeito, de autoria de Sua Excelência Reverendíssima Dom José Palmeiro Mendes, OSB, Abade Emérito do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, que escreveu especialmente ao blog Monarquia Já:


MORTE DO PRÍNCIPE DOM LUIS
Repercussão no Rio de Janeiro

A princesa Dona Pia Maria de Orleans e Bragança, condessa René de Nicolay, filha mais moça do príncipe Dom Luis, de que estamos comemorando os 90 anos de morte, publicou na França, onde vivia, em 1990 um interessante livro de lembranças, de circulação restrita apenas para o meio da família e de pessoas amigas: “Le temps de ma mère – souvenirs”. Neste dia em que lembramos o “Príncipe Perfeito”, achamos bom traduzir a página desta obra em que Dona Pia Maria recorda, de forma discreta, singela, a morte do pai. Ela, recordamos, no início de 1920 era uma menina de 7 anos, enquanto seus irmãos D. Pedro Henrique e D. Luiz Gastão, estavam com 10 anos e meio e 8 anos, respectivamente.

“Após a guerra, os reumatismos que meu Pai tinha contraído no barro das trincheiras, enquanto ia de um regimento a outro, agravaram-se e pouco a pouco o paralisaram, impedindo-o de caminhar. Ele pode, com a ajuda de minha Mãe, colocar-se numa cadeira de rodas e se deslocava pedalando, esperando assim manter um pouco de vida em suas articulações. Minha mãe pensou que o sol do “Midi” lhe seria propício, e partimos para Cannes, recebidos de braços abertos por Nonno e Nonna (o conde e a condessa de Caserta, pais de Dona Maria Pia) na cara Villa Marie-Thérése.

Papai se pôs então a nos ensinar português.

No grande quarto que ocupava com Mamãe, havia um destes grandes birôs ingleses, com gavetas de cada lado, um largo espaço no meio, onde as pernas podiam ficar estendidas. Ele ali permanecia, nós três, seus filhos, o escutando com atenção. Meus irmãos começavam já a escrever em seu caderno. Eu apenas escutava, sabiamente agachada junto dele. Meu privilégio era de colocar-lhe suas pantufas, quando voltava de um passeio. O inverno se passou assim, mas infelizmente no mês de março de 1920 ele tomou sem dúvida frio e contraiu uma congestão pulmonar. A medicina da época era primária, se conhecia apenas a aspirina. Cuidava-se com cataplasmas de mostarda, com cobertas, e se esperava com angústia o fatídico nono dia. Sentindo que ele não tinha tido nenhuma melhora, na noite deste dia fatídico, ele nos fez chamar para nos abençoar, dizendo a Mamãe: “Quero que meus filhos me vejam receber os últimos sacramentos, a fim de conservar em sua memória a lembrança deste grande dever realizado por seu pai”. Eu tinha sete anos. Tudo isto está ainda presente em minha memória, como está presente o desespero que me torturou o coração durante muitos anos.
     
Minha mãe tinha quarenta e dois anos. Ela tomou o luto que não deixou mais ao longo de sua vida. Eu não a vi usar se não o preto, o cinza ou o branco, e sei que não foi para exteriorisar seu luto, mas porque a ferida que sentiu aquela noite nunca ficou curada. Meu pai foi enterrado em Dreux na capela edificada por Luis Filipe, para ele e seus descendentes”.

            
Dom Luis faleceu na noite de 26 de março, uma sexta-feira. A notícia irá sair nos jornais brasileiros só no domingo, 28, através de um telegrama da agência Havas. Houve, porém, uma lamentável confusão da informação, de forma que a notícia é que tinha morrido o filho de Dom Luis, Luis Gastão, e não o pai. Eis a nota de “Última Hora” do “Jornal do Brasil”: Nice, 27 (H.) – Faleceu ontem à noite, em Cannes, em conseqüência de uma pneumonia, o Príncipe Don Luiz de Bourbon e Bragança, descendente de D. Pedro II, último imperador do Brasil. O corpo do Príncipe vai ser trasladado para Paris, onde será sepultado em jazigo da família.

N.R. – D. Luiz de Bourbon e Bragança era o terceiro filho de D. Luiz de Orleans e Bragança e neto do Conde e Condessa d´Eu”.

O “Jornal do Brasil” do dia 29, já esclarecia o equívoco, embora cometendo outros erros: “A notícia da morte do Príncipe D. Luiz de Orleans, pretendente ao trono do Brasil, começou a circular anteontem ao anoitecer, causando surpresa. Foi um telegrama da Havas que a trouxe. Mas a notícia correu entre confusão, estabelecida pela própria agência informadora. O seu primeiro telegrama, fornecido aos vespertinos, informava ter falecido em Cannes, o Príncipe filho dos Condes d´Eu, das casas Orleans e Bragança. Era D. Luiz, o pretendente ao trono do Brasil, com a abdicação do Príncipe D. Antonio, que morreu num acidente, não de automóvel como foi noticiado em notas dos matutinos de ontem, mas sim de aeroplano.

Mas um segundo telegrama da Havas foi fornecido à imprensa matutina à última hora, informando que  morrera D. Luiz de Bourbon. Estava a confusão estabelecida. Os jornais, em sua quase totalidade, exceção feita somente do “Jornal do Brasil”, noticiaram assim mesmo como se o passamento fosse do ilustre rebento da casa Orleans Bragança. Não se aperceberam do engano. A retificação da agência falava num Bourbon-Bragança, que é justamente a descendência do autor do “Sous la croix du sud”. Não se tratava mais de Dom Luiz de Orleans e Bragança, filho dos Condes d´Eu e neto de Pedro II. Era o segundo filho do pretendente ao trono do Brasil, na sua aliança matrimonial com a casa Bourbon, pois ele se uniu à Princesa Maria Pia, filha da Condessa de Caserta. Tratava-se de D. Luiz de Bourbon e Bragança. Com a morte de seu genitor, nem mesmo seria ele o presumido herdeiro, e sim o primeiro rebento de D. Luiz, o seu filho Pedro Henrique.

Estava assim estabelecida a confusão, com os informes contrastantes da agência. Entretanto, a versão que ainda perdura é que o morto é D. Luiz de Orleans. Os jornais da tarde ainda admitiam. 

Nestas condições, procuramos colher informações mais precisas. Estivemos na residência a baronesa de Loreto. Estava fazendo uma estação d’água em Poços de Caldas. Uma pessoa de sua família pôde, porém, dar-nos alguns esclarecimentos. A família da baronesa não recebera nenhum telegrama a respeito. Mas há uns oito dias a baronesa recebera uma carta do príncipe D. Luiz de Orleans, agradecendo-lhe os cumprimentos pela passagem de seu aniversário a 26 de janeiro e informando que ia para uma estação em tratamento de dolorosos males adquiridos na trincheira. Era reumatismo. Entretanto acrescentava que ia sempre melhor.

Na residência do Conde de Afonso Celso nenhuma informação pudemos colher. Sabia S. Excia. somente o que vira pelos jornais, mas estava inclinado a acreditar, infelizmente, que quem morrera fora o filho dos Condes d´Eu. Telegrafara pela manhã de ontem para Boulogne, mas nada ainda havia recebido. 

(...)

Para maior esclarecimento, ainda falamos para o Cons. Silva Costa, o procurador da família dos Condes d´Eu. O Conselheiro ainda se encontra em Petrópolis, e nos atendeu ao telefone com a gentileza que lhe inspira a sua simpatia pelo “Jornal do Brasil”. Também nada mais pôde adiantar. Nenhuma comunicação recebera. Telegrafara para Paris, e esperava receber hoje alguma informação. E acrescentou: - Infelizmente quer me parecer que a notícia é relativa a D. Luiz de Orleans. O seu estado de saúde era bem precário, conforme as últimas cartas”.
    
Enfim, o “Jornal do Brasil” explica o que se passou na agência Havas. O telegrama vindo da França referia que havia falecido em Cannes “D. Luiz de Bourbon, descendente de D. Pedro II”. “E das explicações que nos deu um dos seus redatores, concluímos que, na primeira tradução, a palavra descendente foi interpretada por neto”.

Tudo se esclareceu no dia seguinte. Eis a matéria do “Jornal do  Brasil” do dia 30 de março:

“A morte de D. Luiz de Bragança – Confirma-se a triste notícia – Confusão desfeita
        
Para os amigos da família imperial, para os admiradores de D. Luiz de Bragança, a dúvida sobre se o óbito ocorrido em Cannes era a deste príncipe ou de D. Luiz de Bourbon e Bragança, seu filho, desapareceu por completo. Quem morreu foi realmente D. Luiz de Orleans e Bragança, filho dos Srs. Conde e Condessa d´Eu e neto de D. Pedro II. Para os Srs. Condes d´Eu o golpe foi terrível, pois, com o coração ainda chagado pela morte recente de seu filho, o príncipe D. Antonio, eis que se lhes abre uma outra ferida cruel com a morte de um outro filho estremecido, que tanto sabia honrar e engrandecer o nome ilustre de que era portador.

A certeza da morte do príncipe D. Luiz de Bragança tivemo-la ontem. Veio trazê-la pessoalmente à redação do “Jornal do Brasil” o Sr. Dr. Octavio da Silva Costa, procurador da família imperial, que, por um requinte de gentileza para conosco, nos mostrou o seguinte telegrama vindo no domingo último:

Cannes, 27 – Dr. Octavio Silva Costa – Comunique aos amigos grande desgraça. Nosso querido filho Luiz faleceu de congestão pulmonar, mostrando admirável piedade, resignação, coragem e lucidez. – Conde e Condessa d´Eu”.
     
Esse telegrama só ontem chegou  às mãos do destinatário porque foi endereçado para o seu escritório, o qual esteve fechado desde a tarde de sábado até ontem pela manhã, visto não funcionar aos domingos.

(...)

Nesta cidade serão celebradas exéquias por alma de D. Luiz de Bragança, mas só depois da Semana Santa, pois justamente nesta semana se torna impossível a celebração deste ato.”
                             
Na mesma edição do “Jornal do Brasil” saia, na primeira coluna editorial, um belo artigo do Conde de Affonso Celso sobre D. Luiz, muito grande para transcrevê-lo aqui. O ilustre filho de visconde de Ouro Preto, como historiador e monarquista, muito ligado à família imperial, estava, graças a Deus, bem informado sobre a situação dinástica brasileira. Trata D. Luiz de Príncipe Imperial do Brasil. Lembra que seu primogênito, a quem, pela Constituição Imperial de 25 de março de 1824, caberia o título de Príncipe do Grão-Pará, era o Príncipe Dom Pedro Henrique Afonso Felipe. O direito de D. Luiz à coroa brasileira proveio da renúncia do seu irmão mais velho, D. Pedro de Alcântara, renúncia efetuada em Cannes a 30 de outubro de 1908. Recorda, enfim, longamente a viagem de D. Luiz ao Brasil, chegando ao Rio de Janeiro a 12 de maio de 1907, sendo impedido de desembarcar. Recorda os livros que publicou e menciona a carta de 1908 aos membros do Diretório Monarquista expondo suas idéias políticas. Lembra a correspondência de D. Luiz com muitos brasileiros, transcrevendo uma carta de 1912 a Vicente de Ouro Preto.

No dia seguinte, dia 31 de março, novo artigo do conde de Afonso Celso (assinava ele apenas as iniciais A.C. O título da matéria era revelador: “Príncipe Perfeito”.

Citemos só o início do artigo: “Houve, na história de Portugal, um príncipe que, por seus talentos e virtudes, mas principalmente em razão das esperanças despertadas pela sua peregrina individualidade, mereceria a designação de – príncipe perfeito. Igual antonomásia cabia, em justiça, ao filho de Isabel, a Redentora e neto de D. Pedro II, o Magnânimo, e herdeiro presuntivo da coroa do Brasil, esse que a fatalidade acaba de arrebatar de entre os viventes. Dotado das mais raras e elevadas qualidades de inteligência, coração e caráter, digno era, em verdade, de empunhar o cetro e ocupar um grande trono. Não o permitiu o Supremo Árbitro, na sua sabedoria infinita e inescrutável. Mas a passagem dele sobre a terra foi nobre, pura, exemplar, merecedora dos maiores tributos de admiração, acatamento e saudade. Era atualmente o mais ilustre, o mais auspicioso e encantador dos Braganças do Brasil e de Portugal, dos Orleans, das muitas famílias régias, de cuja linhagem participava”
                      
Neste dia, 31 de março, foi celebrada missa em sufrágio da alma de Dom Luiz, mandada dizer pelos amigos da família imperial. A missa foi celebrada às 9h, por Dom Octaviano Pereira de Albuquerque, bispo do Piauí, na Igreja da Lapa.
                     
No dia 1º de abril novo artigo (não assinado) no “Jornal do Brasil”, junto de uma grande foto da Princesa Isabel e do Conde d´Eu com o netinho Dom Pedro Henrique. O artigo critica o banimento da Família Imperial e fala da dor dos condes d´ Eu pela morte de mais um filho.  E elogia D. Luiz: “Moço, inteligente, culto, cativante nas maneiras, cheio de fascinação pessoal, D. Luiz era uma dessas creaturas nascidas para senhorearem o êxito, onde quer que aparecesse. (...) Os nossos compatriotas, que trataram com D. Luiz, todos guardam da sua convivência uma recordação enternecida. Não se podia ser mais atraente. Ele encantava pela amabilidade, pelo interesse da conversação, que sempre procurava encaminhar para os assuntos do Brasil, como um espírito que não era nem queria ser estranho a nada do que se passava na sua terra. Porque o traço dominante, a nota tônica do temperamento do malogrado príncipe, era o patriotismo. (...)”

Na mesma página do jornal é publicada uma notícia da missa celebrada no dia anterior na Igreja da Lapa. Como é costume dos jornais da época, é publicada a lista das pessoas presentes. Seria interessante publicar a longa lista na íntegra, mas impossibilitados de copiar todos os nomes neste momento, eis porém, alguns de pessoas ou famílias conhecidas:
Mons. Dr. Fernando Rangel de Mello, Alice Smith de Vasconcellos, Dr. Hilário de Gouvêa e filha, Dr. A. Felício dos Santos, Dr. Fernando Mendes de Almeida, Conde e Condessa Mendes de Almeida, Condessa de Mota Maia, Mota Maia e senhora, viúva Santos Dumont e filho, Dr. Toledo Dodsworth e senhora, Dr. Alfredo Ferreira Lage, Dr. João Soares Brandão, Desembargador J. Moreira da Rocha e família, Francisco de C. Soares Brandão e senhora, Alfredo de Paranaguá Muniz e senhora, M. Fleuiss e senhora, Miguel de Bearepaire Rohan e filhos, Amadeu de Beaurepaire Rohan, Dr. José Maria de Beaurepaire Pinto Peixoto, Luiz Maria de Beaurepaire Pinto Peixoto, Eliza de Beaurepaire Pinto Peixoto, Dr. Sabino Ignácio Nogueira da Gama, Mac Dowell, Nelson Guillobel, Renato Guillobel, Condessa de Souza Dantas, Helena de Lima e Silva, Senador Carlos Peixoto,, viúva Almirante  Fontes Vidal, Maria Paranaguá Moniz, viúva Conselheiro Costa Pereira, Capitão Tenente César da Silva, Capitão de Mar e Guerra Pedro Cavalcanti de Albuquerque e Senhora, Mariana Monteiro de Barros Leão, Miguel Calógeras e senhora,viúva Lage, Corina Lage da Silva,Condessa Diniz Cordeiro,Conde de Affonso Celso e família, A.C. Parreiras Horta, Lucilia de Holanda Cavalcanti de Albuquerque, Amélia Cavalcanti de Albuquerque, M. Bernardino Moniz de Aragão, Rego Barros, Dolores R. R. Mac Dowell, Dr. Luiz Cruls, Stella Crulz, Dr. Godofredo Taunay, Conde de Laet, Almirante Guillobel e senhora, barão e baronesa de Vasconcellos, Lucrecio Fernandes de Oliveira, por si e sua família e pela baronesa de Pinto Lima, Paulo Monteiro de Barros e família, Ugo Pinheiro Guimarães.

Enfim, dia 26 de abril foram celebradas imponentes exéquias por Dom Luiz, agora na Catedral Metropolitana. O “Jornal do Brasil” do dia 27 dá uma noticia da missa. “O templo apresentava um aspecto triste e sereno. Na nave foi erguido um riquíssimo catafalco, ladeado de tocheiros acesos e sobre o qual se via um grande pano de veludo preto, em que estava bordado a ouro uma grande cruz. Altares, portas e tribunas ostentavam cortinas de veludo preto com franjas e galões dourados. Às 10 horas entrou a missa solene. Oficiou o Rev. Cônego Dr. Francisco de Assis Caruso, Cura da Catedral, servindo de diácono e subdiácono os Revs. Cônegos José Caminha e Epaminondas Rolim e Mestre de Cerimônias Rev. Padre Pedro Fossel. De Capelos serviram outros sacerdotes. Finda a missa solene, o Rev. Celebrante cantou o “De Profundis” em torno do cadafalco e deu a absolvição. No coro da igreja, excelente e magistral orquestra sob a direção do Rev. Padre Romualdo da Silva, se encarregou da parte musical, executando escolhidos trechos fúnebres, sendo também digno de nota o exímio corpo de cantores”.

E publica novamente o jornal a lista das pessoas presentes, figurando em primeiro lugar a baronesa de Loreto. Alguns outros presentes: Deputado Leão Velloso, Vice-Almirante José Carlos de Carvalho, Conselheiro J. Duarte, Conselheiro Dr. José da Silva Costa, Barão de Maia Monteiro, Dr. Fernando Mendes de Almeida, Condessa de Motta Maia, Conde e Condessa Candido Mendes de Almeida, Stella Mendes de Almeida e seu filho, Almirante Guillobel e senhora, Dr. Octavio da Silva Costa, Senador Irineu Machado, Comendador Abílio José de Andrade, Pia União das Filhas de Maria da Escola de Santa Teresa da Lapa, Capitão de Corveta Juvêncio Nogueira de Moraes e senhora, Comissão de Liceu de Artes e Ofícios, Senador Carlos Peixoto, Miguel Calogeras e senhora, Viúva Almirante Chaves,  1º Tenente Alberto Alvim Chaves,Barão de Saavedra, vários membros da família Beaurepaire Rohan, Conde e Condessa de Affonso Celso, A.C. de Ouro Preto, Maria Argemira Paranaguá Moniz, Cônego José Gonçalves de Rezende,Conde e Condessa Paulo de Frontin, Adelaide Taunay Dória, Dr. Godofredo d´Escragnolle Taunay, Dr.Augusto Telles, Barão de Mucio Teixeira, Coronel Miguel Vasco, Dr. Manoel Marcondes de Andrade Figueira e filhas, J. A. de Rego Barros MacDowell, Laura Jacobina Lacombe, Izabel Lacombe, Viúva Capitão Salomão,  V. de Paula Monteiro de Barros e senhora, Affonso Bandeira de Mello e senhora, Paulo Gomide e senhora,  Diretoria do Recolhimento dos Desvalidos de Petrópolis, Capitão Almeida Chaves, , Dr. João Soares Brandão e senhora, João Soares Brandão Filho, Dr. Carlos Botto, Alberto Bettim Paes Leme e senhora, Tenente Juarez Távora, Carmen Belisário Távora, Irmã Superiora e Irmã Júlia, do Colégio da Imaculada Conceição, acompanhadas das Moças da Obra de Proteção Benemérita Lina Rego Barros, vários membros da família MacDowell, Tenente Antonio Correa Bandeira, Dr. Oscar Motta Maia e senhora, Baronesa da Estrella, Joaquim de Souza Leão e senhora, Dr. Lineu de Paula Machado, Dr. Enéas de Arrochellas Galvão, Ministro do Supremo Tribunal Militar, Coronel José de Miranda Monteiro Martins e família, Confraria das Mães Cristãs da Catedral Metropolitana, , Viúva Almirante J. F. Gonçalves, Capitão Álvaro do Amarante e senhora, Comissão do Instituto Luso-Brasileiro, Irmã Maria Auxiliadora Belleus de Vasconcellos, Barão e Baronesa de Vasconcellos, Isabel de Capanema, Barão e Baronesa de Smith de Vasconcellos, Dr. Leitão da Cunha, senhora e filhos, Comissão da V. O. 3ª de Nossa Senhora do Carmo da Lapa, , Dr. Olympio Valladão, Comendador Jacintho Alves da Silva, 1º Tenente Lima e Silva, Comandante Caetano Taylor da Fonseca Costa e família, União Católica Brasileira, Conde de Laet, família Santos Dumont, Liga Monárquica Dom Manoel II, Desembargador Luiz Caetano Muniz Barreto, Fluminense Foot Ball Club, representado pelo Dr. Mario Pollo, Dr. Marcos Leão Velloso e família, Luiz Filipe de Souza Leão e família, Viúva Almirante Foster Vidal, Manuel de Araújo Porto Alegre.
         
Nestas notas seguimos as notícias do “Jornal do Brasil”. Mas igualmente outros jornais do Rio de Janeiro deram notícias e artigos sobre a morte do Príncipe. Por exemplo, “O Paíz”, que deu vários detalhes sobre as missas celebradas por Dom Luiz.

                                       
                                      Dom José Palmeiro Mendes, OSB.

Na revista do Livro de março 1960, Alexandre Eulálio escreve sobre Dom Luiz

In Revista do Livro – órgão do Instituto Nacional do Livro, do Ministério da Educação e Cultura, nº 17, ano V, março de 1960, páginas 139 a 148. Por Alexandre Eulálio, com excertos de João do Rio, na Revista Leitura para todos, quando da morte do Príncipe.

A grafia da época foi conservada 


Dom Luís, segundo filho da Princesa Isabel e do Conde d’Eu, foi sem dúvida o mais ilustre dos netos do Imperador. Personalidade complexa, ao mesmo tempo intelectual e homem de ação, escritor e sportsman, constitui o tipo de viajante interessado em tudo que lhe pudesse aumentar a experiência de estudioso de ciências sociais. Provam-no os três livros que publicou, relatando as suas impressões da África, da Índia e da América do Sul, sem falar nas notas ainda inéditas sôbre os Estados Unidos, o Extremo Oriente, o Egito. Ainda que contemporâneo de uma época propícia a globe-trotters ociosos, vivendo melhor ou pior um ideal de Fradique Mendes, as Agências Cook não conseguiram embotar em Dom Luís a aguda curiosidade e a intuição sociológica.

Membro de uma dinastia deposta, viveu numa época em que pareciam mais seguars do que nunca as grande monarquias européias; assim, o lugar que ocupava na linha da sucessão da sua família e o seu entendimento superior faziam dêle um chefe de partido nato. Inteligente e culto, afável, insinuante, de larga visão e idéias avançadas, as qualidades de Dom Luís criaram uma aura de simpatia em torno do seu nome de que apenas conseguiram se esquivar os mais ferrenhos opositores. No Brasil, os partidários do Império decaído viam com as maiores esperanças o aparecimento de um líder jovem, surto na própria Família Imperial. Finalmente, acreditavam estes, poderiam coordenar os seus esforços, até então improfícuos, com a vantagem de reunir à bandeira das doutrinas novas, que apaixonavam a mocidade, o peso da tradição. E a política, com as suas exigências, acabou absorvendo esse príncipe brasileiro que o banimento obrigara a se realizar como escritor de língua francesa.

Iniciando-se na arte maior, que desde então vai se tornar o centro dos seus interesses, Dom Luís talvez acreditasse aí poder conciliar os polos opostos da sua personalidade, ao mesmo tempo contemplativa e participante. No entanto, a sua posição excepcional de exilado fazia com que mesmo o melhor dos esforços enviados em prol da Restauração – incremento da propaganda, correspondência dilatada com correligionários e simpatizantes, os dois manifestos lançados à Nação – não lhe parecessem nada mais que trabalho ainda e apenas intelectual, sem o correspondente lado concreto, indispensável ao autor de Tour d’Afrique, A travers l’Hindo-Kush e Sous La Croix-du-Sud. Os três livros do viajante traíam no fundo o gosto fisco da caminhada e um prazer da paisagem, dos quais não será difícil descobrir o excursionista adolescente, que escrevera a entusiástica brochurazinha Dans les Alpes.

Amadureceu êste entusiasmo como vocação de se realizar, tanto no campo da inteligência como no dos acontecimentos. Frustrado nêste último por uma série de imponderáveis que seria longo enumerar, teria apenas na guerra (que talvez lhe aparecesse como um imprevisto convite à ação sempre adiada) a oportunidade para sua fortíssima necessidade de engagement. Essa necessidade profunda de participação ativa não o poderia deixar à margem do conflito que irrompe em 1914. Homem de cultura francesa como o melhor brasileiro seu contemporâneo, e mais, príncipe de Orleans, entraria logo a tomar parte da campanha ao lado dos Aliados. Nesta circunstância mantém um minucioso diário das operações em que toma parte, reação natural num homem para quem o esforço físico só se completa com a disciplina intelectual que o julgue e explique.

Um ano de intensa participação material e moral na guerra esgotaria a sua saúde, que não era especialmente resistente. Desde 1916, atacado pelo reumatismo, torna-se quase um inválido. Após prolongado declínio em que cada vez menos  podia afastar-se do quarto, viria a falecer em Cannes, sua residência favorita no sul da França, em março de 1920. Dedicara-se, nos últimos tempos de imobilidade compulsória, a dar forma definitiva ao seu Diário de Guerra,  reconstruído sôbre as notas tomadas in loco. Reunia também seus apontamentos para o ensaio que pensava então escrever sôbre o Socialismo, tema que vinha interessando progressivamente o atento observador da realidade européia.

Embora sem o confessar, Dom Luís devia sentir truncado o seu destino. Sacrificara-se voluntàriamente por uma causa generosa; morria aos 42 anos, em pleno vigor da inteligência, após ter empregado uma parcela mínima da sua grande capacidade de dedicação ao país para o qual se preparava – não sem romantismo – para servir desta ou daquela maneira. João do Rio chamou com alguma ênfase, de drama shakespereano à sua vocação heróica frustrada – tema na verdade muito mais para um Tchekoff, cronista do crepúsculo individualista. Para nós, de qualquer modo, êle é sem dúvida uma das figuras mais simpáticas do 1900 nacional, e o devotamento que demonstrou pela sua pátria sentimental representa um singular conflito de cultura que não nos pode deixar indiferentes, no momento em que se começa a pensar o Brasil em têrmos menos convencionais.

*****
Em Petrópolis os irmãos brincam: Dom Luiz a frente, Dom Antonio e Dom Pedro logo atrás 

Dom Luís nasceu em Petrópolis, a 26 de janeiro de 1878, poucos meses depois da Princesa Isabel haver ocupado pela segunda vez a Regência do Império. Depois de uma primeira viagem á Europa, ainda muito menino, seria entregue, assim como o irmão mais velho, o Príncipe do Grão-Pará, e o mais moço, Dom Antônio, ao preceptor Ramiz Galvão, encarregado de zelar pelo progresso intelectual dos três rapazes. Em 84, viagem acompanhando os Condes d’Eu às províncias do Sul. Em 87 ingressa no Imperial Colégio. O 15 de novembro interrompe a sua educação brasileira; segundo o depoimento do mestre Ramiz, então conhecia “mui regularmente a língua pátria e francesa, iniciara o estudo da alemã, tinha noções adiantadas de geografia geral e da do Brasil devassara toda a História Sagrada, conhecia os episódios capitais da história brasileira e generalidades de história nacional de física e de desenho; sabia com segurança a aritmética e começava o estudo da álgebra”.

No exílio continua os estudos no Colégio Stanislas de Cannes, (onde parece ter-se definitivamente revelado a veia literária do jovem, que aí compõe o poema satírico Les Pistolets), depois em Versailles, com os Pères Eudistes, em seguida no Stanislas de Paris. Após o falecimento do Imperador, passado o período do luto, os meninos mais velhos excursionavam com o Conde d’Eu – Alemanha, Inglaterra. Férias de família na Savoia, onde Dom Luís e Dom Antônio ensaiam suas ascensões alpinísticas. Segundo a tradição das famílias reais exiladas, Dom Pedro de Alcântara, e mais tarde os seus irmãos, devem fazer o serviço militar em uma monarquia amiga de mesma religião: Sua Majestade Apostólica Francisco José acede prazerosamente em ter o Príncipe do Grão-Pará, e mais tarde seus irmãos como oficiais do imperial exército austro-húngaro. Em Weiner Neustadt recebem instrução militar os príncipes brasileiros.

Terminada esta fase Dom Luiz aproveita para viajar: África, Ásia, Europa Oriental. Em 1902 já é autor de dois livros, Dans les Alpes, do ano anterior, e Tour d’Afrique, recém aparecido; ambos lhe valem a admissão no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de que o Conde d’Eu continua a ser Presidente de Honra. Em 1904 visita os Estados Unidos e em 1906 publica A travers L’Indo-Kush, premio Malte-Brun da Societé de Géographie de France e da Academia Francesa.

 Cartão comemorativo a vinda de Dom Luiz ao Brasil em 1907. Vê-se o Príncipe ao centro 

Desde o tempo da sua viagem à América do Norte tem Dom Luís voltada a atenção para o Brasil, onde o descontentamento reinante parece aos monarquistas favorecer o incremento da propaganda restauradora. Atingndo os filhos da Redentora maioridade política e personalidade própria, parece agora aos seus partidários que lhes poderão apoiar de maneira eficiente, modificando a atitude da Princesa, que continuava o propósito da absoluta discrição do Imperador no exílio. Discute-se também a lei do Banimento, que alguns julgam não passar de um dispositivo transitório do Govêrno de 15 de Novembro, automaticamente afastado pela Constituição de 91, que não o havia ratificado. De temperamento impetuoso, não se vendo tolhido pela posição de herdeiro presuntivo, que cabia ao irmão mais velho, Dom Luís parte para o Brasil, a bordo do vapor Amazone, querendo experimentar de que modo em 1907 reagiria o Gôverno diante do fato concreto de desembarcar, no Rio de Janeiro, um membro da Família Imperial. Afonso Pena tema alguma contrariedade séria pelo agitar das paixões, que logo transparece na imprensa; após consultar Rui Barbosa resolve impedir o desembarque do Príncipe. O advogado dêste impetra habeas corpus, indeferido pelo Supremo Tribunal. Impossibilitado de pisar em terra, tanto no Rio como em Santos (portos em que os correligionários acorreram a bordo para saudá-lo), Dom Luís segue para a Argentina, e depois para o Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai. O relato dessa viagem foi feito com emoção no volume Sous la Croix-du-Sud (1912), editado por Plon e traduzido pelo autor, em colaboração com seu Simplício de Melo Resende, no ano seguinte. (Sob o Cruzeiro do Sul, Societé de l’Imprimerie et Lytographie de Montreaux).

1908 é decisivo para a vida de Dom Luís. Após madura reflexão Dom Pedro de Alcântara resolve abdicar seus diretos à sucessão do trono brasileiro em favor do irmão. Assumindo, por delegação de Dona Isabel, o lugar de pretendente, ficava êle à frente de tôdas as decisões pròpriamente políticas da Família Imperial. Em novembro casar-se-ia com a Princesa Maria Pia de Bourbon-Sicílias, filha dos Condes de Caserta (Chefes da Casa Real de Nápoles) e sobrinha da Imperatriz Teresa Cristina.

Depois do lançamento do seu primeiro manifesto e do nascimento do herdeiro, dois acontecimentos de 1909, a época mais importante da vida política de Dom Luís é 1913, data do segundo documento público que firmou em prol da restauração. A guerra, no ano seguinte, desviaria a sua atenção imediata do Brasil. Quando do rompimento das hostilidades, logo após pedir dispensa do Exército austríaco, tenta ingressar no francês o que não lhe foi permitido dadas as suas relações de parentesco próximo com a Família Real, então no exílio. Engajou-se então no Exército inglês, onde obteve admissão como tenente do Estado Maior das tropas britânicas na França, na qualidade de oficial de ligação do Marechal Douglas Haig. Esteve na linha de batalha de 23 de agôsto de 1914 a 15 de julho de 1915, quando, a saúde muito abalada teve de se retirar do fronte. A este tempo, apesar da sua depressão, candidatou-se no Brasil, à vaga do Almirante Jaceguai na Academia de Letras, tendo sido derrotado por Goulart de Andrade numa campanha em que não foram alheios motivos políticos. Mereceu, no entanto, o voto insuspeito de Rui Barbosa, então o presidente da Casa de Machado de Assis.

Seus últimos anos foram de sofrimento, em Cannes, onde vivia a família da esposa. Aí viria a falecer – exatamente há quarenta anos – no dia 26 de março de 1920.

*****
A morte de Dom Luís de Bragança e Orleans pode ter sido surpresa para os que não o viram em Cannes, em abril do ano passado. Para os que viram, porem, o doloroso estado de Dom Luís não deixava dúvidas; e cada mês que se passava sem a nova amarga era mais um motivo para manter a admiração pela resistência moral, pela vontade de ferro de Dom Luís. Êsse homem admirável, rico, ilustre, portador de um nome esplêndido, príncipe que era imperador exilado, podia ter passado uma deliciosa vida de prazer de gôzo. Entretanto, os deuses quiseram nele acumular as qualidades boas, só as qualidades boas, de duas família reais. Educado nas altas virtudes de Dona Isabel e do Conde d’Eu, Dom Luís, na tremenda crise moral do mundo, foi assim o realizador de uma breve vida de dever, de inteligência e de vontade.       

Num largo período de vários anos eu o vi só três vezes: a primeira na baía de Guanabara, quando o Governo e a tropa se moveram para obstar que êle saltasse no Rio; a segunda, antes da guerra, em Cannes; a tereceira, ainda nessa cidade da Costa Azul, a única que mantém as tradições do ponto de repouso de gente verdadeiramente decente, naquele trecho de mar em que Nice é a bambochata, Monte Carlo é a jogatina, Menton a burguesia a todas as cidades o vício perpétuo e inconsistente dos bárbaros em trânsito.

Guardo dos três momentos a impressão de assistir a três atos de uma peça empolgante, uma peça à maneira dos dramas biográficos de Shakespeare, e apesar de várias cartas com que Dom Luís me distinguiu nos intervalos dêsses encontros, as cartas não disseram mais do que os quadros em que êle aparecia com sua vontade e a sua luminosa alma.

Está muito nítido no meu cérebro o imperecível quadro do primeiro encontro, com seu cortejo de crispantes ridículos, e de espectrais revivescências do passado. Um jornal destacara-me para falar do Príncipe, a bordo do navio fundeado na baía. Fazia um sol de fogo  do Cais de Pharoux, cheio de povo, cheio de soldados, cheio de secretas. Um político, então ministro, afirmava-me que as instituições perigariam se o príncipe saltasse na sua terra. Eu sorriria, julgando meio inverossímil a restauração no Cais Pharoux. Mas ali, diante daquela gente, era patente a sem razão do medo. A multidão era bem democracia americana, curiosa, inofensiva, palerma. E a demonstração defensiva dos Govêrno integralmente América Central.

- Que dirá Dom Luís de tudo isso?

Eu não conhecia Dom Luís e julgava-o no molde dos príncipes de Abel Hermant. Mas nesse isntante, por entre a turba, via a teoria dos monarquistas não-adesistas, todos de chapéu alto e sobrecasaca, seguindo para uma lancha. Em atitude aguerrida lá estava Vicente de Ouro-Prêto.

Fui com êles. O navio, cheio de soldados, tinha sido invadido por inumeráveis curiosos. Encontramos, isto é, vimos o príncipe no salão de jantar, ouvindo o discurso de um sargento. O calor era de sufocar. Havia no recinto para mais de quinhentas pessoas. Depois, o príncipe falou. Falava português, com o sotaque de seu pai. Estava nervoso, irritado, irritadíssimo com as precauções escandalosas e idiotas do Gôverno – que poderia ter significado de outro modo  o seu não consentimento. Não enfrentava o escândalo com altivez com , com elevação, com decisão.

Conseguindo livrar-se do sargento discursador, Dom Luís subiu ao tombadilho seguido pela onda de curiosos que lhe pedia cartões postais. Aquela gente bem democrática tinha como ideal estar perto de um príncipe e ter a sua assinatura! Que restauração! Por fim, um moanrquista, creio que o Dr. Candido Mendes de Almeida, conseguiu da fôrça aramada e das autoridades civis que se evacua-se o transatlântico da horda curiosa. O comandante do navio devia ter solicitado o mesmo. Assim o grupo maonarquista conseguiu fazer descer o príncipe à sua cabine, enquanto se fazia voltar a terra todos os desocupados que tinham ido olhar o herdeiro do trono.

Desci com os monarquistas. Vicente de Ouro-Prêto apresentou-me a Dom Lúis. E, nas breves palavras que trocamos, vi em Dom Luís o jovem brasileiro que podia ser exemplo e modelo dos jovens brasileiros: manado a sua pátria, certo de seu futuro, sensato, altivo, inteligente, bom. Nada das infantilidades, dos enganos esperados. Um conhecedor do Brasil e um sociológico.

Duas horas depois subimos ao tombadilho, já livre da invasão curiosa. E aí, de repente, o meu coração tremeu encarando um passado de ontem, que parecia secular. Todas as velhas titulares que ainda podiam andar e que, retiradas da vida, eram julagadas mortas, todos os velhos áulicos sobreviventes, lá estavam para beijar a mão de sua alteza.

- Alteza, a Marquesa de S...

Uma velha senhora, de vestido roxo, bandós na face enrugada, balbuciava:

- Quantas vezes tive Vossa Alteza ao colo!

Dom Luís apertava as mãos nervosamente, dizia reconhecer, continuava maquinal dando notícias da Princesa, dos irmãos. E os espectros continuavam a desfilar, no azul esplêndido do dia, era pungente, era inexistente na sua amarga realidade. Deus! Que pensaria aquêle jovem, retido lai pelo pavor republicano, afce a face com aquêle relembrar do passado, do nobre e familiar tempo tranqüilo de menino? Que desastre para uma alma imperial!


Quando caía a tarde, Ouro-Prêto falou a Dom Luís.

- Sim, sim. Quero vê-lo.

Ouro-Prêto fez um sinal, e por trás das cadeiras surgiu um negro ainda forte posto que idoso.

- Senhor! Senhor!

Êle estava de joelhos. Fôra banhista de Sua Alteza. Ensinara Dom Luís a nadar. E, doce criatura sincera, resumia a sinceridade e a dor alegre de todas aquelas nobres relíquias da Monarquia.

- Meu Senhor! Meu Senhor!

- Dê-me a sua mão. Lembro-me de V. Sou seu amigo.

Então, o negro ergueu-se aos soluços e Dom Luís, e Dom Luís com o coração de sua Mãe excelsa, abraçou o negro, êle também, sem poder conter as lágrimas...

Oh!  Essas lágrimas existiram nos seus olhos azuis enquanto esteve na Guanabara. Encostado à amurada, indagando, informando, preocupado com o nosso exército, de súbito interrompia-se. E eu via bem a curiosa dor do exílio irrevogável pela primeira vez sentida, dentro de sua pupila azul...

Anos depois, em Cannes, o príncipe acolheu-me como um general moço acolhe um moço cheio de espernaças. Jovem, o seu pefil era grave; a sua voz era cheia de persuasão. Não me falou de restauração, de monarquia. Colocou o seu caso como uma resultante de uma situação especial, que devia respeitar. Mas falou do Brasil, dos seus homens, do seu progresso, do que se devia fazer – do Exército, da Marinha. Um grande Exército brasileiro, sempre maior, digno das tradições, era uma das suas idéias fixas. Êle falaria ao Presidente e ao Ministro  da Guerra para expor o seu plano.

- E a mocidade? As pátrias jovens precisam do calor e da fé da juventude. Quando o serviço obrigatório? Mas espontâneo, entusiástico! Quando dizia essas cousas, como fôssemos a passear, apressava o passo, adiantava-se. Era como se desejasse tomar o navio e correr ao Barsil, não como príncipe herdeiro, mas como jovem para os seus patrícios jovens. Ao recordá-lo assim, lembro um trecho de carta sua “- porque o momento futuro sendo de violenta transformação da Europa e conseqüentemente da entrada das nações da América no circulo das grandes potências econômicas, nenhum outro país como o Brasil pode se fazer primeiro desde que todas nós tenhamos a vontade solidária de fazê-lo grande”.

O desprendimento pessoal do herdeiro do trono do Brasil pelos seus direitos ploíticos era uma conseqüência natural de sua inteligência agudíssima. O calor com que conservava o patriotismo brasileiro prova da sua grande alma. E da comparação dêsse homem com os estadistas que o não deixavam passear pela avenida não resultava nada de lisonjeiro para os segundos.

Mas os estadistas da República de 89 são, não só muito mais egoístas, como muito prudentes e assaz odientos. Há trinta anos esses propagandas não encontram homens novos que os substituam nos cargos. Há trinta anos eles, sempre eles, vem decretando a falência da inteligência dos seis lustros republicanos, pois só eles são capazes. E há trinta anos, o mesmo ódio á Família Imperial; às  cinzas  de Dom Pedro abandonadas em Soa Vicente de Fora, banidas do Brasil, a Dona Isabel, banida sempre, aos netos de Dom Pedro, banidos sem ter do Brasil, que amavam, senão negações.

Quando resolvi votar em Dom Luís para a Academia Brasileira, Pinheiro Machado mandou chamar-me, furioso; dois ministros, aliás inteligentes, tiveram agudos interrogatórios a propósito da minha inconveniência, e houve positivamente uma nova propaganda republicana para não se fazer membro da Academia Brasileira um príncipe brasileiro, um homem ilustre brasileiro, uma alto escritor brasileiro, um devotado, ardente, generoso patriota brasileiro. E Dom Luís não foi da Academia.

Mas, na dramática situação de príncipes numa época que não comporta príncipes senão de opereta, ou para a ambição mundana de relações de novos-ricos, Dom Luís quis ser um príncipe de verdade, não só na herança do título, como na nobreza da vida. E foi.

Quando rebentou a guerra, entrou a combater no exercito inglês, ao lado dos aliados.

Enfim, a sua vontade de ação encontrava campo, em prol de uma obra generosa!

Êle poderia ter ficado em Cannes. Mas como Dom Luís podia não trabalhar, se sob a ameaça alemã nas portas de Paris, o velho Conde d’EU montava guarda, de carabina ao ombro, voluntário aos oitenta anos? E , Dom Luís, nas trincheiras do front belga, meses em combate, meses com água até o ventre, dormindo na lama, à neve, o seu corpo forte minado pela moléstia. Foi de súbito o reumatismo, como um polvo, prendendo-o sem pernas ao leito.

Foi depois aos poucos o ai dolorido de todo organismo.

Quando o vi em Cannes, após a morte de Dom Antônio, em avião, Dom Luís era pálido, magro, triste. Mas austeramente decidido. Ao ouvi-lo falar, eu lembrava o último ato do grande drama de um príncipe de vontade férrea, querendo refazer uma vida de exemplo imperial na derrocada de todas as instituições, lutando sem o demonstrar e morrendo pelo dever generoso, sem uma palavra que dissesse desilusão, amargura, desânimo.

O mundo moderno está cheio de nobres tragédias, que o ceticismo estridente e a voracidade mesquinha dizem não existir porque lhes falta a inquisição para compreendê-las. Dom Luís foi na sua vida breve não o “raio da felicidade” como Alexandre, mas o duce sem soldados, o patriota sem pátria, o estadista sem realização prática, o vidente de ação sem crentes, o herói altruísta, sem apoteoses. De tudo quanto não pôde realizar êle se talhou, porem, um perfil de nobreza, de direito, de justiça, de dever, êle se mostrou uma alma de Rei, digna de igualar àqueles que mais nobremente o foram nas duas casas de que descendia.

Os brasileiros devem respeitar a sua memória – porque êle amou o Brasil como raramente o Brasil tem sido amado.

João do Rio       

Dom Luiz: prefácio do livro "A Travers l’Hindo-Kush" - "Onde quatro Impérios se Encontram"

Prefácio de Làsinha Luís Carlos de Caldas Brito em “Onde Quatro Impérios se encontram” (A Travers l’Hindo-Kush), de Dom Luís de Orleans e Bragança, editora “O Cruzeiro”, 1950, Rio de Janeiro, RJ:

A grafia da época foi conservada

Atrás: Dom Luiz e Dona Maria Pia. Na frente: Dom Pedro Henrique, Dona Isabel, Dona Pia Maria, Conde d'Eu e Dom Luís Gastão.



Grande parte dos brasileiros reserva no coração um lugar destinado ao carinho pela família imperial do Brasil. Outros, pretendendo caminhar com os tempos, fazem tábua raza dêsses sentidos e, mais positivos, ou melhor, mais negativos, encaram essas questões como meras sentimentalidades. Mesmo a êstes – felizmente menos numerosas que os outros, - interessará a figura singular do Príncipe Dom Luís, o filho da Princesa Isabel e do Conde d’Eu, neto de Dom Pedro II e herdeiro presuntivo do trono brasileiro. Nascido em Petrópolis, a 26 de janeiro de 1878, morreu em Cannes, a 26 de março de 1920, após uma vida heróica e aventurosa, bafejada de auras gloriosas e tocada da graça altiva de um ideal humanitário.

Enquanto ainda no Brasil, estudou o menino príncipe sob a direção de Ramiz Galvão. Na França, foi a princípio aluno do Colégio dos Padres Eudistas, em Versailles; seguiu, depois, o curso do Coleio Stanislas, em Boulogne. Nesse estabelecimento de ensino obteve o 1º lugar no Concurso Geral de Literatura, sendo necessário salientar que êsse concurso, organizado pela Sorbonne, tinha por fim classificar o melhor entre os melhores: cada colégio de França enviava seus primeiros alunos como candidatos. Completou os estudos no Colégio Vaugirar (Jesuítas) (Curso de Filosofia e Matemática). Finda essa parte de sua vida de estudante, desejou o jovem príncipe brasileiro cursar a Escola Militar Brasileira, desejo que não pôde ser satisfeito. Obtendo, então, consentimento do Imperador Francisco José, ingressou na Escola Técnica de Artilharia da Áustria. Terminando o curso, serviu no Regimento de Artilharia de Gratz, e, mais tarde, a fim de estudar a arma de cavalaria, estacionou no 5.º Regimento de Hussaros.

Ao começar a guerra de 14, obteve do Rei da Inglaterra licença para combater com Exército Inglês, o que explicou em carta a amigos do Brasil:

“Apesar de contar com amigos no Exército Austríaco, e ter nele servido, habilitei-me no Exército Inglês. É preciso que não prevaleça a opinião de que tratados são farrapos de papel. Êsse conceito, uma vez vitorioso, será o fim das nações desarmadas. O Brasil seria uma das vítimas. Quando se joga o destino da humanidade, não é possível haver neutralidade”.

Bastaria êsse gesto para reconciliá-lo com os inimigos da monarquia. Era, como se manifestou em outra eventualidade, “brasileiro antes de ser monarquista”

Fês, pois, a campanha no Exército Inglês e, além das condecorações inglêsas, recebeu a Cruz de Guerra e a Legião de Honra da França, e a Medalha de Yser, conferida pela Bélgica.

A permanência nas trincheiras de Ypres, durante a guerra de 14, abalou-lhe a saúde e veio a morrer em conseqüência de sua dedicação à causa da humanidade. Destoaria, porém, falarmos aqui de morte a respeito de um morto que para nós agora mais do que nunca vive. Pouco o conhecíamos, mas vamos amá-lo através de suas páginas, se já não amávamos por sua palavras sôbre o Brasil: em 1909, vendo periclitar a situação política de sua pátria, declarou:

“Não sou partidário da política “quanto pior melhor”! Não devemos desejar o naufrágio da nau para tomar conta dela. Queremos, fora de qualquer consideração de partido, o bem da nossa Pátria, seu desenvolvimento moral, intelectual e material. Essa deve ser nossa plataforma, quaisquer que sejam os acontecimentos.”

Ainda em 1911: “como brasileiro lastimo profundamente tôdas as catástrofes que estão se acumulando sôbre a nossa desgraçada Pátria. Como monarquista, deveria, talvez, regozijar-me, mas sou brasileiro antes de ser monarquista.”

Encheu a vida de sonho, de poesia, de aventura. Não era o clássico turista, que vê para ter visto. Seu espírito era uma fôrça da natureza como aquelas que tantas vêzes seu invólucro humano enfrentou. Intrépido, metia-se pelo perigo como quem busca na vida aquilo que só fora dela se pode encontrar. Nessa arriscada viagem aos lugares “onde quatro impérios se encontram”, prosseguiu sem desfalecimentos até o fim, vendo os companheiros desertarem em meio à jornada.  Através das páginas que deixou escritas, nesse maravilhoso diário de viagem, aparecem-lhe translúcidos os sentimentos, transformando a personalidade dêsse príncipe-soldado num amante da beleza, num pesquisador do sonho, num cavalheiro-andante do ideal. Não o interessavam os lugares banalizados pelos contatos humanos. Não pretendia divertir-se, viajando. Procurava algo que poucos encontram. Nas solidões geladas, nas neves e nos cumes, sentia a alma alçar-se para adiante aos horizontes humanos, “sem outros limites além das fôrças incompreensíveis que regem o universo”.  Sua alma precisava dêsses êxtases, buscando incessantemente êsse objetivo fugidio que a distância afastava em vez de aproximar. Procurando as nuvens, os picos, as geleiras, encontram-se a si próprio, pois seu espírito fazia parte dessas coisas eternas e elevadas.

Afeiçoado à literatura, publicou quatro livros: “Dans les Alpes”, “Le tour d’Afrique”, “A travers l’Hindo-Kush” e “Sous La Croix Du Sud”. Deixou escritas, mas não publicadas, as “Notas e observações sôbre a guerra de 14”, obra que o General Balfourier aconselhou que não fôsse publicada antes de decorridos alguns anos, para que pudessem os espíritos receber com serenidade “êssa crítica um tanto forte”.  Deixou também notas sôbre dois livros que planejava escrever: “O Socialismo” e “Palestina e Egito”. “Sous La Croix du Sud” foi premiado pela Academia Francesa e pela Sociedade de Geografia da França. “A travers l’Hindo-Kush” recebeu prêmio C. Walter Brun (Medalha de Ouro) da Sociedade de Genealogia da França.

Casado com Dona Maria Pia de Bourbon Sicília, teve três filhos: o primogênito Dom Pedro Henrique, que, com o falecimento de seu pai, é o Chefe da Casa Imperial do Brasil, Dom Luís Gastão (falecido) e Dona Pia Maria. Recebi das mãos de Dom Pedro Henrique a honrosa investidura de traduzir êste belo livro. Seu intuito não é comercial.  Deseja êle apenas tornar conhecida e amada do público brasileiro a memória de seu augusto pai.


[...]


LÀSINHA LUÍS CARLOS DE CALDAS BRITO. 

ATENÇÃO


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