quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Princesa Dona Isabel: possível início do processo de beatificação

Neste ano de 2011, uma singular notícia chega aos brasileiros: o possível início do pedido de beatificação da Princesa Dona Isabel, que completa no dia 14 de novembro, 90 anos de falecimento.

O culto a Princesa Isabel já era comum desde o final do século XIX


Nascida em 29 de julho de 1846, Princesa Imperial do Brasil, Herdeira do Imperador Dom Pedro II, filha também da Imperatriz Dona Teresa Cristina, a Princesa Isabel foi educada privativamente, de acordo com os preceitos morais e religiosos de sua época, tendo em vista também a posição que lhe era devida com a futura ascensão ao Trono. Casada com o Príncipe Gaston d’Orléans, Conde d’Eu, da França, Dona Isabel teve com ele três filhos – Dom Pedro de Alcântara (Príncipe do Grão-Pará e Herdeiro Presuntivo do Trono Imperial até 1908, data em que renunciou por si e por sua descendência), o Príncipe Dom Luiz (Príncipe Imperial do Brasil) e Dom Antonio. Dona Isabel foi Regente do Império por três vezes em períodos que juntos comportam quase quatro anos, foi também a segunda mulher a governar o Brasil independente. Exemplo de Chefe de Estado e de Governo, cidadã, filha, esposa, mãe e avó admirável, Dona Isabel foi a grande propulsora do abolicionismo no Brasil, teve ela uma história de grande cumplicidade com os escravos. No Rio, em seu palacete ou em qualquer residência da Família Imperial, não havia escravos. A Princesa abrigou em suas propriedades, por muitas vezes, os escravos fugidos de grandes propriedades. Comprovadamente, auxiliava o quilombo do Leblon, que lhe ofertou em homenagem a Camélia Branca, flor símbolo da luta contra a escravidão. Mulher à frente do seu tempo, defendia melhores condições para os oprimidos, com destaque para o projeto de auxílio aos escravos alforriados e, mais tarde, para os beneficiados pela lei Áurea. No lado familiar e religioso, procurou assegurar a si e a sua Família os melhores valores cristãos, cultivados pelos seus antepassados e mantidos, hoje, por seus descendentes. Impossibilitada de assumir o Trono, depois de grave e injusta campanha difamatória que culminou no golpe republicano de 1889, Dona Isabel rumou com demais membros da Família Imperial para a França, onde se dedicou à Família, à caridade e à Igreja. Faleceu em 1921, no castelo d’Eu.

Em 2009, quando se comemorava o 160° anos de nascimento da Princesa Dona Isabel, seu bisneto, o atual Chefe da Casa Imperial do Brasil, Dom Luiz de Orleans e Bragança, palestrou sobre a Princesa em um evento na sede do Pró-Monarquia em São Paulo, confira:


A Princesa Isabel – 160 anos

Atendi com muito prazer ao amável convite para falar às senhoras e aos senhores sobre minha bisavó, a princesa Isabel, de memória tão marcante, que até o fim da vida soube representar aquilo que ela era, uma princesa brasileira, carinhosamente lembrada como a “Redentora” dos escravos.

Direi inicialmente algo sobre o contexto histórico, abordando a questão da escravidão, e pouco a pouco irei introduzindo a Princesa Isabel, para apresentar a personalidade dela, sua atuação, comentando o que ela poderia ter sido para o Brasil, se houvesse reinado como Imperatriz – o modelo de grande dama brasileira.

O problema da escravidão existiu desde quase o começo da Humanidade. Na Antiguidade, estima-se que só 10 por cento dos homens eram livres. 90 por cento constituía a enorme massa de escravos que não tinham direito algum. Os senhores podiam fazer deles o que quisessem: vender, matar, mutilar; usar como cobaia; fazer os piores horrores que se possam imaginar. As uniões, os casamentos dos escravos podiam ser desfeitos ao bel prazer do senhor. Eram tratados como animais.

A Igreja Católica, com a conversão do Império Romano do Ocidente, se empenhou em eliminar pouco a pouco a escravidão. Ela não o fez de uma só vez, pois causaria tais sobressaltos, que seria um perigo para a sociedade e para os Estados. Eu cito aqui um texto de Leão XIII, uma encíclica de 5 de maio de 1888: “Não quis a Igreja apressar-se em obter a emancipação e a libertação dos escravos, posto que isso não podia realizar-se sem alvoroço e sem prejuízo para eles próprios e para as nações, mas preocupou-se principalmente por que fossem as almas dos servos instruídas, conforme as suas capacidades, na religião cristã e que estes adotassem costumes em concordância com o batismo recebido”.

Quer dizer, a Igreja primeiro tratou das almas. Primeiro tratou das mentalidades. Depois, pouco a pouco, foi erodindo a instituição da escravidão. Leão XIII continua: “Pacificadas depois as coisas, e tranqüilos os tempos para a Igreja, os ensinamentos apostólicos sobre a união fraternal dos espíritos entre os cristãos foram expostos com admirável sabedoria pelos Santos Padres e aplicados com igual caridade em defesa dos escravos, esforçando-se em refutar que o direito dos senhores sobre o trabalho dos escravos fosse de absoluta honestidade; e que, sobretudo, fosse de modo algum lícito ao seu poder imperioso e à sua cruel sevícia atentar contra suas vidas”.

A partir de Carlos Magno, que reinou de 760 a 815, no Ocidente a escravidão praticamente desapareceu. No século 9º, segundo o autor americano Rodney Stark em seu livro “A Vitória da Razão”, a escravidão deixou de existir na Europa. Vou citá-lo: “A escravidão acabou na Europa medieval somente porque a Igreja estendeu seus sacramentos a todos os escravos e depois trabalhou para impor a proibição da escravidão de cristãos e de judeus. No contexto da Europa medieval, essa proibição foi de modo efetivo, uma lei de abolição universal”. Continuou a haver escravidão no mundo islâmico, onde, conforme explica o autor, “há uma única e insuperável barreira para a condenação da escravidão: Maomé comprou, vendeu, capturou e possuiu escravos”.

Hoje em dia, no Islã, ainda há escravos. Isso não é contado na mídia em geral, mas há escravidão, e uma boa parte do problema da Somália e daqueles países do leste da África provém do fato de que os maometanos procuram escravizar os cristãos e torná-los seus animais de serviço.

Na Antiguidade, explica esse autor, o conceito de liberdade não existia. Só havia o conceito de sujeição. O conceito de liberdade foi introduzido no Ocidente pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Paulatinamente a escravidão foi sendo substituída por um regime muito mais suave, que hoje em dia é demonizado, mas que de fato era completamente diferente da escravidão – a servidão da gleba. O servo da gleba era alguém que recebia de um senhor um pedaço de terra e era obrigado a cultivá-la. Cultivá-la para seu proveito. Podia se casar. Podia legar essa gleba. Podia juntar um pecúlio. Podia, se quisesse, deixá-la, embora a perdesse se a deixasse. Tinha unicamente que dar um dia da semana de trabalho ao senhor. Um dia da semana de trabalho por semana corresponde a um sexto do que ele trabalhava.

Eu pergunto às senhoras e aos senhores: hoje em dia, com mais de 38 por cento do PIB do Brasil absorvido pelo Estado, quem tem uma sorte mais cruel: o servo da gleba da Idade Média, ou nós, pobres cidadãos livres de uma república democrática? Não há comparação possível!

Os senhores tinham obrigações para com seus servos. Tinham que administrar a justiça e ajudá-los em casos de penúria ou calamidade. O castelo era, por assim dizer, o celeiro de toda a comunidade, onde se guardavam os grãos para as épocas de más colheitas.
O senhor tinha obrigação de proteger seus servos em caso de ataques de inimigos. E os servos só podiam ser chamados às armas se o seu torrão fosse atacado. Eles não podiam ser recrutados, de maneira compulsória, para acompanhar seu senhor numa guerra contra outro senhor ou numa guerra externa. Não havia o que só surgiu nos séculos 19 e 20 – o serviço militar obrigatório. Os servos eram livres.

Em Portugal não houve servidão da gleba. Passou-se da escravidão diretamente para o regime do senhorio, com camponeses livres. Na Espanha também não havia. Só na Catalunha houve feudalismo, e portanto servos da gleba. No resto do país, não os houve. Mesmo a servidão da gleba na Catalunha foi abolida em 1486, por Fernando o Católico.

No século 15, na França, a servidão da gleba já havia desaparecido completamente. Na Alemanha, estava sendo abolida nas províncias mais do sul, continuando ao leste. No leste europeu – eu incluo a Áustria, a Hungria, a Checoslováquia – um pouco, mas muito mitigada sempre pelo trabalho da Igreja. Na Polônia, e principalmente na Rússia, a servidão da gleba se prolongou por mais tempo.

Com a Renascença voltou a escravidão. Por que voltou?

O homem medieval era profundamente religioso. Ele tinha a noção de que sua finalidade principal era servir a Deus, amando-o sobre todas as coisas, e ter amor ao próximo por amor de Deus. Em conseqüência, ficou muito facilitado o trabalho da Igreja pela abolição da escravidão e da servidão. Entretanto, na Renascença voltou a aparecer o ideal de felicidade pagã do gozo da vida.

Como diz muito bem o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro Revolução e Contra-Revolução, na Renascença voltou o ideal de vida de satisfazer o orgulho e a sensualidade, como os antigos romanos, os antigos gregos, os antigos egípcios. E com isso o egoísmo, o antropocentrismo substituiu o teocentrismo medieval. E o homem, por via de conseqüência, voltou a ser o lobo do próprio homem. O gozo da vida era para ser alcançado a qualquer preço, a qualquer custo, passando por cima dos direitos, das conveniências. A Renascença foi uma volta colossal do paganismo antigo, com todas as suas abominações.

É verdade que, pela ação da Igreja, o Cristianismo ainda tinha raízes muito profundas, que continuaram até nossos dias, embora se erodindo pouco a pouco, como é magistralmente bem descrito no referido livro do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Mas voltaram várias aberrações.

A América foi a região onde espanhóis e portugueses encontraram pretexto para restaurar a escravidão. Muitos afirmavam que os índios e os negros não tinham alma, e que portanto eram verdadeiros animais. Entretanto a Igreja, desde o começo, se levantou contra isso.

Carlos V consultou o Papa Paulo III sobre se era lícito escravizar os índios. E a resposta de Paulo III é lapidar. Na bula de 9 de junho de 1537 ele afirma: “A mesma verdade, que nem se pode enganar nem ser enganada, quando mandava os pregadores de sua Fé a exercitar esse ofício, sabemos o que disse: Ide e ensinai a todas as gentes.A todas disse, indiferentemente, porque todas são capazes de receber a doutrina de nossa Fé. (…) Sob pretexto de que são incapazes de recebê-la, os põem em dura servidão, e os afligem e oprimem tanto, que ainda a servidão em que têm seus animais apenas é tão grande com que afligem a esta gente. Nós outros, pois, que ainda que indignos temos as vezes de Deus na terra e procuramos com todas as forças achar suas ovelhas, que ainda estão perdidas fora de seu rebanho, para levá-las a ele, pois este é nosso ofício; conhecendo que aqueles mesmos índios, como verdadeiros homens, não somente são capazes da fé de Cristo, senão que acodem a ela, correndo com grandíssima prontidão, segundo nos consta; e querendo promover nestas cousas de remédio conveniente, com autoridade Apostólica, pelo teor das presentes, determinamos, e declaramos, que os ditos índios, e todas as mais gentes que daqui em diante vierem à notícia dos cristãos, ainda que estejam fora da Fé de Cristo, não sejam privados, nem devem sê-los, de sua liberdade, nem do domínio de seus bens, e que não devem ser reduzidos à servidão. Dada em Roma, ano de 1537, aos 9 de julho, ano terceiro de nosso pontificado”.

Fechou a questão. Roma locuta, causa finita. Uma linguagem que dá saudades!

A Igreja, apesar de tudo, tolerou a escravidão dos negros. Por sua doutrina, ela fazia com que eles fossem mais bem tratados aqui na América do Sul e na América Central. Muito mais bem tratados que entre os pagãos. Ela batizou os negros aqui trazidos. Casava-os segundo o rito católico. Empenhava-se para que os casais não fossem separados, e eles escapavam – foi essa a razão que levou a Igreja a tolerá-la – a uma sorte muito mais cruel, se permanecessem como escravos na África.

A partir de fins do século 17 e durante o século 18, os territórios portugueses da África foram governados pelos vice-reis do Brasil. Portanto, tudo que se tratava em África passava primeiro pelo Brasil. D. João VI mandou o padre Vicente Pereira Pires, um baiano, como enviado junto ao rei do Daomé, para fazer uma aliança, um tratado. O que ele relata do que viu é espantoso. Naturalmente ele conta que os escravos que os portugueses traziam para cá eram comprados de outros reis negros, quando não de mercadores árabes. Ele relata o tratamento que os escravos tinham na África. São coisas atrozes!

Quando algum escravo desagradava o rei negro, ele era enterrado até o pescoço e mantido até a morte sob o sol escaldante, untado com uma substância que atraía os insetos. E se queria construir uma nova choça, para fazer uma certa argamassa ele mandava sangrar algumas centenas de escravos, como se sangra um animal. Recolhia aquele sangue, misturava com barro e fazia os tijolos para construir a choça. O fato é que, quando aqueles escravos – que eram prisioneiros de guerra – sabiam que iam ser vendidos para mercadores portugueses, davam vivas, pulavam de alegria, porque sabiam que iam ter uma sorte muito mais humana do outro lado do Atlântico. Notícias disso atravessaram o oceano, e os negros da África sabiam dessa realidade.

Os negros que vinham para o Brasil encontravam senhores católicos. Não só isso, mas encontravam uma virtude tipicamente brasileira, que é a grande bondade que impera em nosso País, herdada de Portugal, e que aqui, por assim dizer, se alargou de uma maneira extraordinária.

Há mil exemplos de como os escravos eram bem tratados por seus senhores. Fala-se muito mais do tronco, do açoite, mas quase não se fala da dedicação que os escravos tinham pelos seus senhores. Isso só se dá quando há bons tratos. A mãe-preta, a ama-de-leite que amamentava o filho do patrão, e que depois se tornava ama-seca e como que uma segunda mãe para o filho do patrão, permanecendo na família até a morte.

O pior escravagista – segundo o mito, barão de Cotegipe, chefe da bancada escravagista – quando ia ao Parlamento, ia de carruagem e levava consigo, além do cocheiro, um menino negro para levar recados, levar uma coisa aqui, acolá etc. Se começava a chover, o barão dizia: Zezinho, Zezinho, vem cá, entra aqui na carruagem, para não pegar um resfriado. Praticamente tratava-o como filho. E esse era o chefe dos escravagistas no Parlamento!

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira contava que sua avó, Da. Gabriela Ribeiro dos Santos, uma grande senhora que marcou muito a sociedade paulista no fim do século 19 e início do século 20, costumava conversar longamente com uma velha ex-escrava. Entretinham-se, recordando os velhos tempos. Quer dizer, era tratada como um membro da família. E não eram exceções. Era a regra geral em nosso grande, querido e bondoso Brasil.

Os escravos às vezes eram castigados. Mas conta-se que em muitos casos o fazendeiro dizia para a filha: Olha, vou ter que chicotear tal escravo; quando o feitor levantar o chicote, você vem e me pede misericórdia. É bem típico do jeitinho brasileiro!

Eles tinham também a possibilidade de comprar a própria liberdade. A alforria era uma instituição. Poucos sabem que a Caixa Econômica foi fundada para que os negros pudessem depositar suas economias, fazer um pecúlio, e finalmente comprar a liberdade.

Os escravos que obtinham a liberdade, freqüentemente ficavam com seus senhores. Recebiam um pedaço de terra. Alguns voltaram para a África, e lá se tornaram elite, pois tinham recebido a influência da sabedoria cristã. No meio da barbárie dos seus congêneres, faziam fortuna. Tornaram-se grandes empresários, políticos etc. E a superioridade dos negros brasileiros é reconhecida na África – em Daomé, no Benin, na Costa do Marfim. Isso mostra como foi vantajoso para os negros virem para o Brasil, apesar do regime de escravidão que, embora reprovável, foi tolerado como um mal menor.

A Família Imperial se empenhou desde o começo pela abolição. D. Pedro I quis incluir uma cláusula com a abolição da escravidão na primeira – e única! – constituição do Império. Foi José Bonifácio que o demoveu, dizendo que uma medida de tão grandes conseqüências causaria convulsões, problemas sociais e políticos, e no momento era inviável para o Brasil, que se arriscava a perder sua integridade, esfacelar-se em várias repúblicas. Mas os imperadores sempre tiveram essa meta diante dos olhos.

D. Pedro II premiava os senhores que libertavam seus escravos. Fala-se muito do caderninho preto e do lápis fatídico de D. Pedro II. É o caderno onde ele anotava suas observações de viagem. Se encontrasse algum funcionário, um governador, uma pessoa qualquer indigna, ele anotava, e essa pessoa estava com a carreira cortada. O caderninho dele era muito temido, e o lápis dele era chamado lápis fatídico. Mas, é preciso dizer, esse lápis não era só fatídico, era também premiante. O senhor que libertava seus escravos recebia uma comenda ou alguma honraria.

Joaquim Nabuco, que era um dos próceres da abolição, narra sua estadia em Roma, pouco depois de passar por Londres, para tratar da abolição. Com Leão XIII ele se empenhou para que o Papa escrevesse uma encíclica contra a escravidão. No relato de viagem, que consta no livro “Minha Formação”, no capítulo “O Papa e a Escravidão”, ele diz: “Descrevi ao Papa o movimento abolicionista como tendo-se tornado, proeminentemente, um movimento da própria classe dos proprietários. E dei, como devia e é justo, aos operários desinteressados de última hora a maior parte, a solução do problema, que sem a sua generosidade seria insolúvel. Expus que não havia na história do mundo exemplo de humanidade de uma grande classe, igual à desistência feita pelos senhores brasileiros de seus títulos de propriedade escrava. Quanto à Família Imperial, repetia ao Sumo Pontífice que o que há de feito em nossas leis, em favor dos escravos, é devido à iniciativa e imposição do Imperador, ainda que seja pouco”.

Quer dizer, o Imperador estava limitado pela Constituição. Mas o que ele podia, ele fazia.

O Conde d’Eu, logo que terminou a Guerra do Paraguai – sendo o comandante-em-chefe das forças aliadas -, e tratando de reorganizar e levantar o Paraguai de suas ruínas, como primeira medida aboliu a escravidão. Isso em 1870, 18 anos antes da Lei Áurea. É evidente que ele fez isso de acordo com o Imperador.

Agora, vamos à Princesa Isabel. D. Pedro II era casado com Da. Teresa Cristina Maria de Bourbon, das Duas Sicílias. Teve quatro filhos, dois varões e duas mulheres. Os filhos homens morreram cedo, e portanto às filhas transmitiu-se o direito de sucedê-lo no trono diretamente. Primeiro D. Isabel, que nasceu em 20 de julho de 1848, batizada a 15 de novembro do mesmo ano com o nome de Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Rafaela Gonzaga, na capela imperial, pelo Bispo Conde de Irajá. Padrinhos por procuração: D. Fernando, rei de Portugal, e a rainha Maria Isabela, viúva do rei Francisco I da Áustria, sogra de D. Pedro II. Conta o livro de Hermes Vieira: “Antes do batismo, na escadaria da capela imperial, o Imperador, aproximando-se da filha e tomando-a nos braços, avançou um passo e a apresentou ao povo, que lá fora, curioso, comprimido, correspondeu ao gesto do monarca ovacionando Sua Alteza e aos soberanos do Brasil. Ouviram-se então os sons heróicos do Hino Nacional, confundidos com o vozerio consagratício da multidão, entoadas pelas bandas de música postadas no passadiço e no coreto armado junto ao alpendre da torre da capela imperial”.

Da. Teresa Cristina, nossa terceira imperatriz, é da Casa de Nápoles, que é sumamente católica. É uma Casa que se esmerou sempre na aliança com o Papado, na defesa da Igreja. Por ocasião do chamado Risorgimento Italiano, perdeu seu trono porque não quis usurpar os Estados de outros soberanos, principalmente os Estados Pontifícios. Perdeu seu trono em 1860, dez anos antes da queda de Roma frente às tropas garibaldinas. Garibaldi e os Savóia concentraram todas as suas forças contra Nápoles, e só depois foram atacar os Estados Pontifícios.Da. Teresa Cristina recebeu, e transmitiu, essa profunda formação católica à sua filha.

A Princesa Isabel realmente foi católica no fundo da alma, até o fim da vida. Com 14 anos ela prestou o juramento de estilo perante as Duas Câmaras. Aos 48 anos, foi reconhecida solenemente como herdeira presuntiva do trono. Em 1864 se casou com o conde d’Eu, como resultado de um fato pitoresco e até comovedor. D. Pedro II procurava noivos para suas duas filhas, a Princesa Isabel e Da. Leopoldina. E pediu à sua irmã, que era casada com o príncipe francês de Joinville – daí o nome de nossa cidade em Santa Catarina – que procurasse para suas sobrinhas dois noivos apropriados, entre as Casas Européias. E a Princesa de Joinville encontrou dois primos irmãos: o Duque de Saxe e o Conde d’Eu, que era um príncipe da Casa de Orleans. Portanto, muito proximamente aparentado com o marido dela. O Duque de Saxe estava destinado à Princesa Isabel e o Conde d’Eu a Da. Leopoldina. Mas, chegando aqui, os noivos viram que não combinavam, e resolveram trocar. A Princesa Isabel escreve, com muito charme: Deus e nossos corações decidiram de outra maneira. O Conde d’Eu se casou então com a Princesa Isabel, e Da. Leopoldina com o Duque de Saxe. O Conde d’Eu, segundo Hermes Vieira, se sentia bem ao lado dela. Era simples, boa, afetuosa e pura. Possuía uma voz bem educada e tocava piano com sentimento e graça. Tinha uma sadia ingenuidade, uma singeleza de idéias, quer dizer, uma clareza de idéias admirável, além de muita sensibilidade. Isso, sem falar dos seus talentos, da sua instrução pouco comum para a época. Dominava corretamente o francês, o alemão e o inglês.

Logo que a Princesa Isabel se estabeleceu com casa própria – no hoje palácio Guanabara, que era o palácio Isabel da época – ela procurou, no seu papel de princesa herdeira mas não regente, fomentar uma vida cultural e social no Rio de Janeiro. Então havia toda semana um serão e um jantar, mais ou menos elegante, mais ou menos cultural etc. Isso para fomentar a cultura geral na Corte. E eram bastante concorridos esses serões. O próprio Imperador ia uma vez por semana na casa da filha para jantar com ela. Em 1871, por motivo da viagem do casal imperial, Isabel prestou juramento como Regente do Império perante as Duas Câmaras. “Juro manter a Religião Católica Apostólica Romana, a integridade e indivisibilidade do Império, observar e fazer observar a Constituição política da Nação Brasileira e mais leis do Império, e prover o bem do Brasil quanto a mim couber. Juro fidelidade ao Imperador e entregar-lhe o governo logo que cessar o seu impedimento”.

Nesse mesmo ano, a 27 de setembro, sendo presidente do Conselho o visconde do Rio Branco, pai do barão do Rio Branco, foi votada a Lei do Ventre Livre, na sessão que ficou chamada Sessão das Flores. Quando aprovada a Lei do Ventre Livre, uma chuva de rosas desatou-se no plenário da Assembléia. O ministro dos Estados Unidos no Rio de Janeiro colheu algumas dessas flores, e disse: “Vou mandar estas flores para meu país, para mostrar como aqui se fez uma lei que lá custou tanto sangue”. A Guerra de Secessão nos Estados Unidos custara seiscentos mil mortos. Não é preciso dizer mais nada.

Em 1876, na segunda regência, começou uma campanha de detração pelos círculos republicanos positivistas, maçônicos também, contra a Princesa Isabel, por causa de seu catolicismo. Eles viam que ela – por sua firmeza de princípios, por sua formação profundamente católica, mas também pelo pulso que demonstrou nas regências – seria uma imperatriz que faria da Terra de Santa Cruz realmente uma exceção no mundo. Ela exerceria uma profunda influência por sua autenticidade, sua cultura, sua religiosidade, e por tudo aquilo que pode elevar o espírito de um povo. Isso eles não queriam, então começaram a campanha de detração: era feia; não era patriota; não gostava do Brasil; preferia ter médicos franceses a brasileiros. E quantas outras calúnias. O Conde d’Eu era um surdão, arrogante, mantinha cortiço. Até a surdez – da qual ele, coitado, não tinha culpa – era assacada em meio às calúnias. De tal maneira que, pouco a pouco, foram demonizando esse casal, para evitar que mais tarde subissem ao trono. Dizia-se, em certos círculos, que era preciso fazer a república logo, porque se a Princesa Isabel subisse, acabaria com todo esse movimento ateu, positivista e republicano. Ela teria pulso, teria prestígio para fazer isso. Tornou-se corrente a frase: “Precisamos fazer a república enquanto o velho está vivo, senão a filha dará cabo de nós”.

Em 1888 foi a Lei Áurea. Caindo o gabinete Cotegipe, a Princesa Isabel chamou o Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, abolicionista, à presidência do Conselho. Ele fez votar a Lei Áurea e a apresentou para a assinatura da Princesa Isabel. O Conde d’Eu, nessa ocasião, teve um momento de hesitação : “Não o assine, Isabel. É o fim da Monarquia”. Ao que ela respondeu: “Assiná-lo-ei, Gaston. Se agora não o fizer, talvez nunca mais tenhamos uma oportunidade tão propícia. O negro precisa de liberdade, assim como eu necessito satisfazer ao nosso Papa e nivelar o Brasil, moral e socialmente, aos demais países civilizados”.

Depois da assinatura, grande festa no Rio de Janeiro, o povo aclamando etc. Estando a Princesa Isabel junto ao barão de Cotegipe na janela do palácio – o barão a estimava, só estavam em desacordo na questão da escravidão – ela lhe indagou: “Então, senhor Barão, V. Excia. acha que foi acertada a adoção da lei que acabo de assinar?”. Ao que o Barão, com muito carinho, respondeu: “Redimistes, sim, Alteza, uma raça, mas perdestes vosso trono…”

D. Pedro II nesse momento estava em Milão, muito doente e com a perspectiva de morte. Mas a 22 de maio ele sentiu uma certa melhora e a Imperatriz teve a coragem de lhe dar a notícia da Abolição. Diz Heitor Lira: “Enchendo-se de coragem, debruçada sobre a cabeceira do marido, deu-lhe com brandura a grande nova. O Imperador abriu lentamente os olhos amaciados e depois perguntou como quem ressuscitava: ‘Não há mais escravos no Brasil?’. ‘Não – respondeu a Imperatriz – a lei foi votada no dia 13. A escravidão está abolida’. ‘Demos graças a Deus. Telegrafe imediatamente a Isabel enviando-lhe minha bênção e todos os agradecimentos para o País’. Houve um momento de silêncio. A emoção dos presentes era grande. Virando-se depois, lentamente, o Imperador acrescentou com voz quase sumida – ‘Grande povo, grande povo’ – e desatou a chorar de emoção. O telegrama que foi mandado à Princesa Isabel tinha o seguinte teor: ‘Princesa Imperial. Grande satisfação para meu coração e graças a Deus pela abolição da escravidão. Felicitação para vós e todos os brasileiros. Pedro e Tereza’”.

O Papa Leão XIII resolveu premiar a Princesa Isabel com a maior distinção que os Soberanos Pontífices davam a chefes de Estado e a pessoas de grande relevo, nas ocasiões em que eles adquiriam méritos especiais. Enviando-lhe a Rosa de Ouro, que foi entregue a 28 de setembro de 1888, no 17º aniversário da promulgação da Lei do Ventre Livre. A data foi escolhida pelo próprio Núncio Apostólico, para a cerimônia que se realizou com toda magnificência na capela imperial. Entretanto, apesar de tudo, continuou a campanha de detração contra a monarquia, agora contra o Imperador: o velho está gagá; ele dorme o tempo todo; o Conde d’Eu e a Princesa Isabel vão se tornar tiranos aqui; e toda uma leva de calúnias, espalhadas por todo o País.

A 15 de novembro, os militares que estavam no Rio de Janeiro – eram uma minoria, representavam um terço do Exército Brasileiro – proclamaram a República. O golpe foi totalmente alheio à vontade do povo, tanto é que eles embarcaram a Família Imperial à noite, rumo ao exílio, para que não houvesse reação popular. Na partida, a Princesa Isabel passando junto à mesa onde havia assinado a Lei Áurea, bateu em cima e disse: “Mil tronos houvera, mil tronos eu sacrificaria para libertar a raça negra”.

D. Pedro II recusou 5 mil contos de réis – cerca de 4 toneladas e meia de ouro, uma fortuna – que lhe ofereceram os revoltosos, porque, dizia, o governo não tinha direito de dispor assim dos bens nacionais. Da. Tereza Cristina, mal chegando a Portugal, morreu de desgosto no Grande Hotel do Porto. Eu estive lá alguns anos atrás, quando o hotel inaugurou uma placa. E D. Pedro II faleceu a 4 de dezembro de 1891, no Hotel Bedfor, em Paris, onde uma placa recorda o passamento do ilustre hóspede. Tal era o prestígio que cercava sua pessoa, que a República francesa lhe concedeu funerais completos de Chefe de Estado.

Conde d’Eu e a Princesa Isabel compraram um palacete em Boulogne-sur-Seine, que é um bairro de Paris periférico mas nobre. Lá ela abria seus salões para os brasileiros que iam visitá-los. E não só isso. Conseguiu se impor na sociedade parisiense a tal ponto que nas memórias de várias pessoas, era quase uma rainha daquela sociedade. Era tida como a principal personalidade lá. Somente ela e o presidente da República podiam entrar de carruagem no pátio interno da Ópera de Paris.

Uma indu, que se tornaria mais tarde Maarani Karkutula, escreve em suas memórias, que ela via a Princesa Isabel como uma verdadeira rainha, uma fada. Não só isso – uma rainha, uma fada – mas, mais uma vez, com toda a bondade brasileira e católica, que era própria da Princesa Isabel. A Maarani conta que, quando menina, teve uma crise aguda de apendicite. Operada com os recursos incipientes da época, passou uma longa convalescença no hospital. A sociedade parisiense toda, curiosa, ia visitá-la. Ela dizia que se sentia um bichinho exótico, que as pessoas iam ver como num zoológico, e a única que foi visitá-la com bondade e para lhe fazer bem, foi a Princesa Isabel. Ela conta que a Princesa Isabel se aproximou do seu leito, agradou-a muito, acariciou, consolou etc. E no fim, disse: “Minha filha, eu não sei que religião você tem. Mas sei que há um Deus que ama todas as crianças do mundo. Aqui está uma imagem da mãe dele. Guarde-a consigo, e quando você estiver numa grande aflição, peça a ela para interceder junto ao Deus verdadeiro”. A Maarani não se converteu à Igreja Católica, permaneceu pagã até o fim da vida, mas nos momentos de apuro se ajoelhava diante da imagem de Nossa Senhora, que a Princesa Isabel tinha lhe dado. Porque ela sabia que seria ouvida.

Santos Dumont, nessa época, fazia suas experiências em Paris. Sabendo que ele passava muito tempo no campo onde fazia seus experimentos, mandava-lhe farnéis para que ele não precisasse voltar à cidade para almoçar. Certa vez, escreveu-lhe: “Sr. Santos Dumond, envio-lhe uma medalha de S. Benedito, que protege contra acidentes. Aceite-a e use-a na corrente de seu relógio, na sua carteira ou no seu pescoço. Ofereço-a pensando em sua boa mãe, e pedindo a Deus que o socorra sempre e ajude a trabalhar para a glória de nossa Pátria”. E noutra ocasião: “Suas evoluções aéreas fazem-me recordar nossos grandes pássaros do Brasil. Oxalá possa, o Sr., tirar de seu propulsor o partido que aqueles tiram de suas próprias asas, e triunfar para a glória de nossa querida Pátria”.

Muito tocante também é o fim da carta que ela escreveu para o Diretório Monárquico, para anunciar os casamentos de seus filhos mais velhos. O Diretório era composto pelo Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, pelo Visconde de Ouro Preto e pelo Conselheiro Lafaiete. A carta é datada de 9 de setembro de 1908: “Minhas forças não são o que eram, mas o meu coração é o mesmo para amar a minha Pátria e todos aqueles que lhe são dedicados. Toda a minha amizade e confiança”. Quer dizer, era o jeito brasileiro, a bondade brasileira perfeitamente encarnada naquela senhora.

Uma outra amostra de seu profundo interesse pelo Brasil está numa carta ao Cons. João Alfredo. O Banco do Brasil, não me recordo agora no período de qual presidente, estava num descalabro propriamente republicano: desordem completa; contas não estavam acertadas; funcionalismo completamente rebelde. E o presidente da República concluiu então que o único que teria inteligência, força, garra e pulso para pôr ordem ali seria o Cons. João Alfredo, e o convidou a assumir a presidência do Banco do Brasil. João Alfredo respondeu: “Eu sou monarquista, e portanto só posso aceitar esse cargo se a minha Imperatriz autorizar”. Escreveu à Princesa Isabel, explicando o caso, e ela respondeu: “Para o bem de nossa Pátria, o Sr. deve aceitar”. João Alfredo assumiu a presidência do Banco do Brasil, pôs em ordem o funcionalismo, pôs em ordem a contabilidade. Pagou todos os atrasados, todas as dívidas, deixou tudo em perfeito estado. Depois pediu demissão e morreu pobre, porque não levou um tostão daquela gestão. Outros tempos! Hoje em dia… (risos…)

Agora uma carta da Princesa Isabel à irmã de um monarquista eleito deputado, Ricardo Gumbelton, de uma boa família, muito conhecida. Ele não queria aceitar o cargo de deputado, e a princesa Isabel diz: “Não concordo, absolutamente! Diga ao seu irmão que ele deve aceitar a cadeira de deputado e propugnar pela grandeza moral, econômica e social de nossa Pátria. Não aceitando é que ele estará procedendo de maneira contrária aos interesses da coletividade. Não nos deve importar o regime político sob que esteja o Brasil, mas sim conseguir-se colaboradores de boa vontade capazes de elevar o nosso País. De homens como ele é que o Brasil precisa para ascender mais, para fortalecer-se mais. Faça-lhe sentir que reprovo sua recusa”. Quer dizer, o bem do Brasil estava acima dos interesses próprios.

Ela ainda viveu até 1921. Cada vez mais fraca, mas sempre com aquela grande classe, com aquele grande porte. Nas fotografias dela no exílio, ela tem um porte imperial que não tinha aqui no Brasil. No infortúnio, a noção da missão dela foi se cristalizando cada vez mais, e ela era realmente, nessas fotografias, uma imperatriz. No batizado de meu pai – pena que eu não tenha aqui a fotografia, que gostaria de apresentar para as senhoras e os senhores – ela é uma senhora de uma nobreza e de uma categoria impressionantes. E foi assim até o fim da vida.

Morreu sem poder voltar ao Brasil. Ela representou na França o que havia de melhor no Brasil. Muito mais do que nosso corpo diplomático, muito mais do que nossos homens de negócio, ela foi um exemplo do que o Brasil era ou deveria ser. E a França entendeu isso. Assis Chateaubriand, em Juiz de Fora, a 28 de julho de 1934, escreveu: “Apagada a sua estrela política, depois de vencida a tormenta da abolição, ela não tinha expressão dura, uma palavra amarga para julgar um fato ou um homem do Brasil. No mais secreto de seu coração, só lhe encontrávamos a indulgência e a bondade. Este espírito de conduta, esse desprendimento das paixões em que se viu envolvida, era a maior prova de fidelidade, no exílio, à pátria distante. Mais de 30 anos de separação forçada não macularam a alvura dessa tradição de tolerância, de anistia aos agravos do passado, que ela herdara do trono paterno”.

Faleceu no castelo d’Eu. Apagou-se suavemente, docemente. Aí sim, a República reconheceu o que o Brasil tinha perdido. Epitácio Pessoa determinou três dias de luto nacional, e que fossem celebradas exéquias de Chefe de Estado. Também a Câmara Federal votou que seu corpo fosse trazido para o Brasil num vaso de guerra, o que só se realizou em 1953. Em 13 de maio de 1971, seu corpo e o do Conde d’Eu foram levados solenemente à catedral de Petrópolis, e lá repousam à espera da ressurreição dos mortos e do juízo de Deus.

Essa era a grande mulher que nosso Brasil tinha. Ela não foi uma grande intelectual. Foi uma princesa até o fundo da alma. Foi uma patriota até o fundo da alma. Uma senhora que sabia que tinha nascido para o bem de um país, e encarnou essa missão na Pátria e no exílio até o fim da vida. Foi um exemplo de princesa, um exemplo de imperatriz, um exemplo de católica. Ela foi o tipo perfeito do que deveria ser a mulher brasileira. (aplausos)

Se houver alguma pergunta, estou à disposição.

Aparte: V. Alteza antecipou alguma coisa na palestra, mas faço apenas um comentário, por curiosidade. É a respeito dessa medalha que foi encaminhada ao Santos Dumont, porque se propagava que Santos Dumont era um homem ateu. Mas, na verdade, essa medalha – na tradução constou como medalha de S. Benedito, mas é uma medalha de S. Bento – ele a usou no pulso direito até o fim da vida, e ele mostrava essa medalha. Talvez, quem sabe, Deus tenha tocado a alma dele, de algum modo.

D. Luiz: Quem sabe. Deus queira! Isso mostra quanto a Princesa Isabel representava para os brasileiros, e neste caso um brasileiro de escol!

Aparte: Ele mandou fazer uma cópia em ouro dessa medalha, e a deu de presente à primeira aviadora brasileira, Anésia Pinheiro Machado, que tinha sido brevetada com apenas 18 anos de idade. Ela usou também a medalha até o fim da vida.

Aparte: Não foi apenas coincidência a lei do banimento ser extinta somente após a morte dela. Porque, se a Princesa voltasse para o Brasil em vida, certamente a República balançaria.

D. Luiz: É preciso dizer o seguinte. Em 1920 houve umas comemorações no Brasil em que foram convidados os membros da Família Imperial, e ela poderia ter vindo, mas a saúde dela estava tão alquebrada que ela não pôde empreender a viagem. Vieram o Conde d’Eu e alguns membros da Família Imperial.Ela praticamente já não teria mais atuação aqui no Brasil. Mas o problema para a República era meu avô, D. Luiz de Orleans e Bragança, o chamado Príncipe Perfeito. Ele era muito empreendedor, com muita garra, muito pulso, muito inteligente, muito culto, muito viajado, e a República o temia. Foi só depois da morte dele, em 1921 também – antes do falecimento da Princesa Isabel, em conseqüência de uma doença adquirida no fronte da I Guerra Mundial – que a República se sentiu segura para abolir a lei do banimento.

Por ocasião das comemorações da Independência, em 1922, o Conde d’Eu veio com minha avó paterna, meu pai e seus irmãos, e também com o filho D. Pedro de Alcântara, que tinha renunciado ao trono. Ele veio aqui por um sentimento de dever para com o Brasil também, porque com a renúncia de D. Pedro de Alcântara era perigoso que, apesar disso, se formassem partidos, principalmente tendo meu avô morrido. Então o Conde d’Eu fez questão de vir aqui para apresentar meu pai como herdeiro legítimo da Princesa Isabel. Ele veio apesar de seus médicos desaconselharem formalmente a viagem. De fato, ele morreu a bordo do navio, antes de chegar ao Rio de Janeiro. Sua atitude foi de um soldado indo ao campo de batalha, sabendo que poderia sacrificar sua vida para o bem da Pátria.

 A Lei Áurea por Miguel Navarro Cañizares

Após 90 anos de seu falecimento, tendo a Princesa uma vida cheia de virtudes, foi encaminhado a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, sendo entregue ao Arcebispo Dom Orani João Tempesta, carta de sugestão de encaminhamento do pedido de beatificação da Princesa Dona Isabel. O pedido é uma iniciativa do professor Hermes da Fonseca Nery, Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida – Movimento Legislação e Vida / Diocese de Taubaté. Disposto a grandes e longas empreitadas o professor Hermes compôs o documento que foi entregue em audiência com Dom Orani, na presença do Príncipe Dom Antonio de Orleans e Bragança. Documento este que agora trazemos de forma integral para o conhecimento de nossos leitores:


São Bento do Sapucaí, 19 de outubro de 2011

À Vossa Excelência Reverendíssima

DOM ORANI JOÃO TEMPESTA

DD. Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

 “Mas meu coração é o mesmo para amar minha pátria e todos aqueles que nos são tão dedicados”.

Princesa Isabel do Brasil, durante o exílio

Com efusiva alegria lhe escrevemos, agradecendo desde já a acolhida, neste dia em que a Igreja celebra a festa de São Pedro de Alcântara (+ 1572), para solicitar-lhe de modo muito especial a abertura do processo que permita declarar serva de Deus a Princesa Isabel do Brasil (1846-1921), para posteriormente alcançar a sua beatificação. Seu exemplo de vida, que exigiu coerência e coragem em momento decisivo da nossa história, especialmente no difícil campo político, pode servir de referência aos que hoje sentem-se tentados ao desânimo, ao ceticismo e ao indiferentismo, ou pior ainda, aos que não se empenham mais aos sacrifícios necessários no exercício de funções públicas, tendo em vista o verdadeiro bem comum. Preparada desde cedo para ser rainha do Brasil, quis a Providência que exercesse a Regência por três p eríodos, e como governante mulher, zelosa de suas prerrogativas e deveres, empenhou-se vivamente para liquidar de vez no Brasil, a ignominiosa escravidão. Ao assinar a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, seu nome fulgurou glorioso na história nacional.

Testemunharam os que conviveram com ela, o vigor límpido de seu caráter, seu autêntico patriotismo, a sensibilidade na busca de soluções efetivas que dessem ao Brasil condições a um desenvolvimento social pautado nos princípios e valores do humanismo integral, para corrigir distorções e abusos que atentassem contra a dignidade da pessoa humana, refletindo em ações concretas o que Leão XIII imprimiria em sua memorável Rerum Novarum. Quando as circunstâncias exigiram dela uma tomada de posição, ousou correr riscos em defesa dos fragilizados, decidindo em favor daqueles que mais necessitavam um olhar compassivo, tomando decisões que refletiram um desejo sincero e profundo de melhoria conjuntural para viabilizar um panorama social brasileiro menos perverso. “Carinhosa ao extremo, devotada à família, ela q ueria que todas as mães sentissem a ventura de se verem livres para melhor se dedicarem aos seus entes queridos. Vibrava nela, de modo intenso, o sentimento da solidariedade cristã”1 Nesse sentido, teve percepção do momento histórico em que viveu e não protelou os encaminhamentos necessários, agindo com firmeza, enfrentando resistências e dissabores, sem deixar de ser fiel às suas convicções humaníssimas e cristãs, ciente de que “todo cristão, no curso de sua vida, deve fazer frente a situações que exigem opções fundamentais, que comprometem até o fundo a sua caridade para com Deus e para com os homens, oferecendo-lhe, assim, a oportunidade de praticar a virtude de modo heroico”.2

No momento em que se viu com o destino da Nação em suas mãos, não recuou diante das dificuldades. A hora requeria muito mais que discursos em tribuna, mas a energia e a coragem para o bem. No tocante à abolição, “a herdeira do trono não era uma mulher só de palavras. Organizava festividades com o intuito de angariar fundos para diversos grupos abolicionistas – ela mesma contribuía financeiramente – possuía papel de destaque na Comissão Libertadora, protegia escravos fugitivos e apoiava quilombos abolicionistas, no que era apoiada por seu marido, o Conde d’Eu.”3 Enquanto muitos dissimulavam e evitavam as questões incômodas, ela olhou de frente e decidiu para o bem de todos. Não apenas na questão magn a de sua vida – a emancipação dos escravos – mas também nos fatos corriqueiros do cotidiano, expressava uma dulcíssima benevolência, marcante de sua personalidade de temperamento forte, mas magnânimo, com uma “ternura mesclada à bondade sem limites e capaz dos mais assinalados sacrifícios”.4 Tinha consciência de que a sua condição de herdeira do trono brasileiro (cujo sangue descendia do cristianíssimo São Luiz), a levava a procurar na sobriedade e na generosidade um exemplo de conduta digna dos valores da sua fé cristalina. Machado de Assis ao descrever numa crônica publicada noDiário do Rio de Janeiro a sua festa de casamento, observou: “Uma das coisas que fez mais efeito nesta solenidade foi a extrema simplicidade com que trajava a noiva imperial”.5

Da Princesa Isabel, conta-nos um de seus principais biógrafos:

Ela “herdou do avô nítidos traços do seu temperamento, em que se condicionam a maneira forte de querer, a liberalidade dos sentimentos e o gênio voluntarioso. Sua impetuosidade e a desenvoltura dos gestos corajosos e enérgicos, são ainda atributos que lhe vieram do avô, como do avô era a sua natureza comunicativa, alegre, expansiva, donde o seu gosto pelas festas, pelas reuniões cheias de vozes e movimento. Bem educada e instruída, coisas que faltaram ao avô, era correta nos seus modos convenientes, geridos por seu alto senso de moralidade. Destemida, tinha ela a coragem e mesmo o desassombro de colocar, sem subterfúgios, o que aprazia os seus sentimentos acima dos preconceitos da época. Daí ter, certa feita, religiosa que era, chegado a ajudar suas criadas na lavagem de uma igreja, vassoura em punho, sem se lhe dar com a estranheza que isto causara em muitas pessoas, inclusive nos meios políticos. Franca e leal para consigo mesma, jamais faltara aos seus compromissos morais e sociais. Caracterizava-a, distintamente, a firmeza de convicção e a indomabilidade que sempre pusera à prova, quando se decidia por alguma coisa, e de que são exemplos frisantes a preferência dada ao médico francês que a assistiu nos seus partos e a sua sanção à lei que aboliu a escravidão no país.”6

E acrescenta:

A princesa tivera uma infância bem cuidada: (…) A religião lhe penetrara o espírito e lhe abrira as portas amplas de um mundo de meditações utilíssimas, notadamente para a vida de uma mulher de sua condição, do seu porte, do seu gênio impulsivo, de sua voluntariosidade. De caráter firme e impoluto, animada que sempre fora de um sentimento de dignidade incorruptível, jamais abandonaria ela os hábitos e os exemplos da infância e da mocidade, fruídos no sadio e austero ambiente paterno, de tanta respeitabilidade e tão em harmonia com o seu feitio religioso, aprimorador de sua moral. De tal sorte lhe foi atuante e benéfica a educação recebida que, ao formar o seu lar, timbrara em prosseguir nos mesmos passos palmilhados na infância, tratando a todos com doçura e afabilidade. Não tinha, como a Imperatriz ta mbém não tinha, nem protegidas nem validas. Diz Heitor Lyra: ‘Se cultivavam um círculo restrito de amigas, com as que têm aliás todo o mundo, de uma forma meramente pessoal e privada, não lhes faziam , mesmo a estas, outras concessões que não fossem a de um puro sentimento de amizade franca e desinteressada, de parte a parte, que se refletia apenas no círculo caseiro do Palácio, sem nenhum alcance lá fora, na política ou na administração, mesmo nas dependências do Paço’. Foi virtuosa por índole e convicção. E como o avô, possuía uma qualidade admirável: não guardava rancor de pessoa alguma. Foram ambos, medularmente nobres”.7

E ainda:

Do pai, por exemplo, herdara, a generosidade, a desambição, sobretudo o desapego ao dinheiro e aos bens materiais (…) Já a ânsia da caridade, o sonho de contribuir para a felicidade do próximo, a religiosidade, vieram-lhe da mãe, piedosa e mansa por excelência.”8

Como esposa e mãe deu exemplos admiráveis de fidelíssima amorosidade. Dedicada, sempre presente, preocupada com todos, com mais de cinquenta anos de sólida vida matrimonial na rocha da fidelidade aos princípios e valores cristãos. “Se formosa não era, possuía uma alma digna de ser muito amada”.9 Na véspera de suas núpcias, anotou: “Confessamos e comungamos, de manhã. Deus faça que sempre viva feliz com o meu amado Gaston, como espero e creio”.10 E foi, de fato, um casamento regado com afetuosidade mútua, correspondência volitiva, daquele respeito e até admiração que um nutria pelo outro, e de uma força unitiva especialmente nas horas mais difíceis de privação e provação, como vividas na guerra do Paraguai, e a injustiça do longo exílio, que a fez morrer distante do País que tanto amava e que tanto quis trabalhar pelo seu bem.

Muita apreensão lhe causou a guerra do Paraguai, em que o despótico caudilho Solano Lopez desejava desposar uma das filhas de dom Pedro II. Com o agravamento da saúde de Luiz Alves de Lima e Silva, posteriormente Duque de Caixas, foi o Conde d’Eu chamado a ocupar o comando da guerra, na pior fase do conflito. “Ao faltar o esposo tudo lhe faltava, o abandono em que ficou foi doloroso”.11 (…) Tinha-se habituado tanto a viver junto a ele, sempre com ele e para ele, que a sua ausência mormente naquele transe, a desalentava”.12Mas o dever era um imperativo. “Ele, cioso da condição que o seu casamento imp unha e desejoso de ajudar o Brasil, não pensava senão em demandar o campo de batalha, à frente de nossas frentes militares”.13 Sofreu então Isabel a angústia de ver o marido partir para a guerra, quando tudo estava tão incerto. E o esposo aceitou com prontidão a difícil missão.

A vitória brasileira, em março de 1870, confirmou o sentimento de dever cumprido, cabendo ressaltar que “nem de leve cogitamos de impor tributos de vitória a nenhuma povoação ou cidade tomada, nem recolhemos indenização alguma do Paraguai, numa inequívoca demonstração de que lutamos contra o algoz que nos afrontou e agrediu, e não contra o seu povo, digno de todo o respeito e admiração pelos sofrimentos que enfrentou.”14 Dignidade no comando reconhecida até pelos adversários. “Sob as galas da vitória, o regresso de Gastão de Órleans foi festejado com entusiasmo. (…) Feliz, imensamente feliz estava a princesa Isabel ao ter novamente o esposo ao lado.”15  Em uma de suas viagens empreendidas à Europa, com seu esposo, é significativo destacar seu encontro pessoal com Dom Bosco, em maio de 1880.

Mas foi sem dúvida a abolição que a elevou em nossa história, porque sua atuação como governante foi decisiva para o êxito definitivo de uma causa que até hoje toca tão profundamente a alma do povo brasileiro.
 “A princesa Isabel, que sabia do interesse que o seu pai nutria pela emancipação dos que viviam sob o guante da escravidão, a mourejar nas usinas e fazendas, secundava-o nas simpatias pela solução de tão grave problema social, vindo dos longes de nossa colonização. No fundo, talvez nem ela própria soubesse porque, possuindo um trono, mimada por todos desde o nascimento, e, pois, totalmente distante da dolorosa realidade escravista, condoía-se tanto por aqueles que não tinham sequer um travesseiro de sua propriedade sobre que pudessem descansar a cabeça para adormecer sob a exaustão do trabalho servil. Era entretanto a piedade cristã, que lhe falava alto ao coração; era a sua sensibilidade religiosa, que a fazia colocar os postulados da liberdade acima de todas as conveniências político-econômicas, e o ansei o de ver o Brasil elevado social e moralmente perante as nações isentas do escravismo. (…) E Isabel, comungando dos sentimentos do pai e do esposo, não se conformava com o regime escravocrata, razão porque não ocultava suas preferências pelo abolicionismo. Dessa posição advieram-lhe acerbas e injustas campanhas das áreas escravistas. Mas como recorda o cônego Manfredo Leite, (…) ‘é mister reconhecer que o manancial onde se lustrou toda essa perfeição moral de d. Isabel, e onde ela hauriu essas energias para as fecundidades da sua bondade e da sua generosidade, foi incontestavelmente a pureza dos princípios cristãos, aos quais tanto se afeiçoou e com os quais se identificou sua larga existência, ora calma e deslisando na amenidade, ora batida pelas tribulações e agitada pelos infortúnios, que põem sobre a sua fronte uns toques dessa beleza dos mártires’” 16

Em 300 anos, de 1550 a 1850 (quando foi promulgada a Lei Eusébio de Queiroz), “segundo a incontestada autoridade de Silvio Romero, nada menos de doze milhões de escravos africanos foram trazidos pelo tráfico às nossas plagas”17. O abolicionismo foi uma daquelas grandes idéias-força (lançada em 1758 pelo advogado baiano Manuel da Rocha), que tomam uma tal proporção, “que uma vez surgidas não param mais, no decurso do tempo, até sua conversão em ato”.18 Isabel foi quem tornou em ato essa grande idéia-força, que custava por se concretizar, devido a resistência dos que ainda queriam viver de um sistema sócio-econômico de cruel abuso de poder. Afinal, os traficantes enriquecidos exerciam muita influência e grandes proprietários fizeram de tudo para retardar o fim da escravidão. Temia-se inclusive a convulsão social, incitamentos e explosões de violência, pois Isabel não desejava repetir aqui os embates de uma guerra civil sangrenta, em episódios traumáticos como ocorreram nos Estados Unidos da América. Teve pouco tempo à frente do País, numa hora grave e decisiva, e teve de agir com sabedoria e determinação. A abolição era uma grande idéia-força que precisava ser concretizada sem derramamento de sangue. Este foi um dos desafios políticos do Segundo Reinado, por isso dom Pedro II estimulou o gradualismo do movimento abolicionista, e Isabel evitou postergar o que há muito já devia ter sido feito, e com sua precisão e coragem política soube fazer história. Pagou caro por isso, perdendo a coroa, que tanto havia se preparado para honrá-la, mas ganh ou mais do que isso: a glória de em vida ser chamada de Redentora, mesmo tendo que amargar um injustíssimo ostracismo, longe daqueles que tanto amava.

Temia-se que a abolição da escravatura provocasse graves distúrbios, falência da produção cafeeira, desordem pública, etc. Mas contra tais argumentos, vozes patrióticas, como as de Joaquim Nabuco, entre outros, de excelso valor ético e cívico, se ergueram para demonstrar com fatos, que a abolição significaria a condição imprescindível para o progresso social brasileiro. Muitos abolicionistas eram vistos como idealistas. “A raça negra nos deu um povo!” Bradou a voz de Nabuco, ecoando por toda a Nação esta verdade incontestável. E acrescentou: “Ela construiu o nosso País!”

No momento em que a Princesa Isabel assumiu o governo, sabia que não devia fraquejar diante daquela questão tão candente, que se arrastava por décadas, cuja solução era desejada por seu pai, o Imperador, mas que dependia de deliberação da Câmara e do Senado, e não era tão fácil assim decidir, porque a pressão contrária muito forte poderia colocar em risco sua própria vida e a da própria Monarquia brasileira. Com a sua decisão em cortar de vez aquele nó górdio que maculava o Brasil, “os republicanos entraram paralelamente em campo, dispostos a solapar o regime monárquico”.19 O barão de Cotegipe sugeriu à Regente “manter-se neutra, nessa questão, como a rainha Vitória”. 19 O que Isabel não aceitou, recordando assim, dessa forma, o que nos lembra a severa afirmativa de Dante Aleghieri: “Os lugares mais quentes do inferno são destinados aos que, em tempo de grandes crises, mantêm-se neutros.”.

Com um gabinete tão hostil, a demissão do ministério foi inevitável, “diante da firmeza da Regente”.20 E assim foi possível chegar ao 13 de maio festivo, em que por meio de uma subscrição popular foi oferecida à Princesa Isabel a pena de ouro para a assinatura da Lei da Abolição.
Isabel alegre, satisfeita, feliz, toma o barão de Cotegipe pelo braço, leva-o à janela de onde por vezes contemplava a praça, hoje 15 de novembro, e mostrando-lhe a multidão em delírio, pergunta-lhe a voz afável e doce: / – Então, sr. Barão. V. Excia. acha que foi acertada a adoção da lei que acabo de assinar? / Cotegipe, que podia iludir-se e exagerar, como se iludiu e exagerou nas calamitosas previsões do efeito dessa lei, mas que tinha muito de clarividente, fita-a com carinho e responde-lhe, profético: – Redimistes, sim, Alteza, uma raça; mas perdestes vosso trono…”21

Ela que também havia sancionado a Lei do Ventre Livre (em 28 de setembro de 1871, a histórica “sessão das flores”), no período de sua primeira regência, havia sido coroada com a glória da Lei Áurea, e, em seguida, com a proclamação da República, a sofrer o banimento no estrangeiro.

“No exílio a que foi forçada e onde passou, impiedosamente, o resto da sua existência, que se prolongou por 32 anos sem poder rever sua terra e sua gente, experimentou ela, principalmente no começo, os mais rudes golpes que lhe alancearam o coração. Primeiro, o desaparecimento da mãe estremecida; logo a seguir o pai a quem verdadeiramente adorava. Pouco depois, a perda de todos os seus bens imóveis, transferidos sem remuneração alguma para o patrimônio nacional, exatamente quando mais necessitava de recursos financeiros em terras estranhas; quase três anos adiante, uma nova nota plangente era vibrada na pauta do seu destino: o duque de Nemours, seu sogro, falecia no mesmo apartamento do Hotel des Réservoirs, em Versalhes, onde o Imperador se hospedara antes. Paradoxalmente, porém, se a morte do duque enlutou a alma do casal d’Eu, o triste evento veio desafogar-lhe os dias carentes, terrivelmente críticos, tornando-os menos sombrios e até mais confortáveis. Isso porque , no ano seguinte ao do seu desaparecimento, passou ao conde d’Eu a plena posse da casa em que habitavam em Bolonhe-sur-Seine e pouco mais tarde, também a do histórico castelo d’Eu, onde passaram a residir pelo resto de suas vidas”.22

Talvez nenhuma outra figura política brasileira viveu tanto tempo privada de seus direitos mais legítimos, pois a República lhe banira tudo. E a cada ano que passava no exterior e a idade avançava, apertava-lhe a dor da saudade, das manhãs luminosas do Corcovado, da sua cidade natal, cuja data de seu batismo coincidiu com o triste 15 de novembro, até despedir-se de vez deste mundo, muito próximo também a esta data, um dia antes, em 14 de novembro de 1921. Exílio muito penoso, porque foi uma viagem sem volta. Um desterro em condições muito humilhantes, que se prolongou até o final de sua vida. Mesmo o seu pai, que governou por durante por mais de 40 anos o Brasil, morreu como um hóspede num quarto de hotel, em Paris.

“E o mais singular é que, à medida que o tempo ia passando, mais na princesa se acentuava este traço característico do pai: quanto maior era a saudade que a pungia, maiores eram o carinho e a dedicação que consagrava aos brasileiros. Possuída cada dia mais de uma grandeza de alma que se refletia na suavização cada vez maior do semblante , dir-se-ia ter passado a viver melhor quando se viu desenganada de reconquistar para ela, ou para o filho, o trono que lhe fora destinado ao nascer. Atingida, finalmente, a conformidade, que tanto lhe custou a aceitar, diariamente se encaminhava para a capela do seu castelo, e, joelhos no pequeno genuflexório colocado em frente ao altar, orava para que o Brasil fosse bem sucedido e Deus se servisse de guardar as instituições que o engrandecessem no futuro. Curiosa nobreza de sentimentos cívicos, que a fazia cada vez mais devotada à sua terra e sua gente”.23

Sobre como a princesa Isabel suportou a dureza de seu longo exílio, escreveu Assis Chateaubriand:

“Apagada a sua estrela política, depois de vencida a tormenta da abolição, ela não tinha a expressão dura, uma palavra amarga para julgar um fato ou um homem do Brasil. No mais secreto do seu coração, só lhe encontrávamos a indulgência e a bondade, e este espírito de conduta, esse desprendimento das paixões em que se viu envolvida, era a maior prova de fidelidade, no exílio, à pátria distante. Mais de trinta anos de separação forçada não macularam a alvura dessa tradição de tolerância, de anistia dos agravos do passado, que ela herdara do trono paterno.” 24

Isabel sabia que “um rei cristão tem por função sobretudo (…) governar bem o seu reino, cuidar tanto de seu corpo físico como de seu corpo político e permanecer entre seus súditos”.25 Foi o que procurou fazer nos períodos de sua Regência, e daí a sua dor de não poder permanecer entre os seus, mas mesmo de longe, o seu olhar e o seu coração estavam voltados para o Brasil. No exílio, ela se portou com a dignidade de Imperatriz do Brasil, cujos sofrimentos a purificou, e em todos os momentos permaneceu solícita aos muitos brasileiros que a procuravam e a amavam

A Princesa Isabel reinou, verdadeiramente, foi no exílio. Aí é que a sua realeza excede o principado político das regências que lhe couberam por motivo das viagens do Imperador à Europa. Ali é que ela surge diante da posteridade com o perfil de uma autêntica Rainha’. Razão por que, ‘todos os brasileiros, pretos e brancos, deveriam ter o culto dessa Rainha de doçura e de bondade. Eu abençoo os que a baniram, porque foi no exílio que ela deu toda a medida da majestade e da magnanimidade do seu coração. Ela viveu no desterro como símbolo da fraternidade, com afirmação da Pátria, acima dos partidos e dos regimes. Debaixo da sua meiguice, da sua adorável simplicidade, quanta fortaleza de caráter, quanto heroísmo, quantas obras valorosas!”26

Caríssimo Dom Orani,

Muito teríamos a dizer ainda sobre as virtudes santificadoras da Princesa Isabel, que merecem serem melhor estudadas e conhecidas, porque nesses 90 anos decorridos de sua morte, ao longo do século XX e começo deste século, as sombras ideológicas que dominaram o cenário cultural e político do Brasil tudo fizeram para encobrir o perfume e a luz desta vida radiosa em nossa história, e que hoje pensamos ser possível fazer justiça.

Nesse sentido, solicitamos a Vossa Reverendíssima, a nomeação de um prelado da vossa Arquidiocese para ser o postulador desta causa, que certamente permitirá aos brasileiros conhecerem melhor e a amar mais aquela que muito fez pelo bem do nosso País. Não temos dúvida, de que o acesso aos documentos, às fontes históricas, revelarão uma vida edificante que muito motivará aos brasileiros e de modo especial aos fiéis católicos, a perseverarem na esperança de seguir o caminho de verdade e vida proposto por Nosso Senhor Jesus Cristo, via certa da salvação. E que a Virgem Maria Santíssima, Mãe de Deus e Rainha do Céu, interceda por esta causa, para o bem de todos.

Gratíssimos!

Prof. Hermes Rodrigues Nery
Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida – Movimento Legislação e Vida
Diocese de Taubaté

Mariângela Consoli de Oliveira
Secretária-Executiva
Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família

Brasília – DF

Bibliografia:
1. Hermes Vieira, Princesa Isabel – Uma Vida de Luzes e Sombras, p. 145, Edições GRD, São Paulo, 3ª edição, 1990
2. Tullo Goffi, Dicionário de Espiritualidade, Heroismo, p. 476; Paulus, 2ª edição, 1993.
3. ()http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/artigos/o-z/FCRB_EduardoSilva_Camelias_Leblon_abolicao_escravatura.pdf4.  Hermes Vieira, Princesa Isabel – Uma Vida de Luzes e Sombras, p. 27, Edições GRD, São Paulo, 3ª edição, 1990.
5. Ib. p. 52.
6. Ib. p. 11.
7. Ib. p. 12.
8. Ibidem.
9. Ib. p. 69.
10. Ib. p. 42.
11. Ib. p. 75.
12. Ibidem.
13. Ib. p. 76.
14. Ib. p. 90.
15. Ib. p. 91.
16. Ib. p. 93.
17. Ib. p. 99.
18. Ib. p. 100.
19. Ib. p. 147.
20. Ib. p. 152.
21. Ibidem.
22. Ib. p. 161.
23. Ib. pp. 231-232.
24. Ib. p. 232.
25. Ibidem.
26. Jacques Le Goff, São Luis, p. 147, Ed. Record, 3ª edição, 2002.
27. Hermes Vieira, Princesa Isabel – Uma Vida de Luzes e Sombras, p. 233, Edições GRD, São Paulo, 3ª edição, 1990


Em resposta, Dom Orani afirmou que se deve proceder ampla investigação na Arquidiocese de Paris, onde Dona Isabel faleceu. Para supervisão da Comissão de Estudos e Pesquisas, Dom Orani nomeou como responsável Dom Roberto Lopes, Abade Emérito do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, que coletará e avaliará as informações sobre o processo, recomendando-o ou não.   

Neste tocante, torna-se muito interessante o recente artigo publicado no blog “Para Discutir o Brasil”.


A religiosidade católica da princesa Isabel, a Redentora

Após quatro anos de casada com o francês Gastão de Orléans, o Conde d’Eu, D. Isabel Cristina, a Princesa Imperial do Brasil, primeira filha do Imperador D. Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina, permanecia à espera de um herdeiro que pudesse dar continuidade à Monarquia do Brasil.

A todos preocupava a ausência de filhos do casal e isso afligia sobremaneira o espírito da Princesa.

Depois de submeter em vão a todas as terapêuticas impostas pelos médicos da Corte brasileira, e pelos mestres da Academia de Medicina, a Princesa Isabel resolveu a conselho de seu próprio esposo, experimentar as águas ferríferas (contêm sais de ferro), magnesianas (contêm sais de magnésio) e carbogasosas (contêm gás carbônico) já então miraculosas de estações hidrominerais termais localizadas no “Parque das Águas” na cidade de Caxambu, ao sul de Minas Gerais. Reminiscênciou Gastão de Orléans que, em mais de uma vez na família dos Orléans, só nascia um herdeiro, depois que o casal se refazia na vilegiatura de uma estação de águas.

Preocupada com a falta de prole e almejando assegurar a continuidade da dinastia, a princesa decidiu em 25 de agosto de 1868, ir para Caxambu, acompanhada do esposo, do Dr. Feijó (seu médico pessoal e obstetra da Casa Imperial), do Conde (o melhor amigo do Conde d’ Eu no Brasil) e da Condessa de Lages, de alguns fiéis servidores, e de algumas mucamas dedicadas, em busca da grande panacéia para a sua “esterilidade”, baseada na crença que da “virtuosidade” dessas águas brotam propriedades prolíficas. A viagem era longa e sobremaneira incômoda. Contudo, nada disso arrefeceu o ânimo da princesa, pois estava disposta a enfrentar todas as vicissitudes em busca da realização daquilo que ela mais considerava um milagre: o milagre de ter um filho.

Nessa cidade, a Princesa Isabel em suas orações fez a promessa: se o uso daquelas águas lhe desse o filho almejado, faria erigir ali, no morro do Cruzeiro, uma igreja em estilo ogival (gótico) sob a invocação de Santa Isabel, rainha da Hungria, a quem ela própria fora consagrada ao nascer.

Embora a terapêutica com as “águas virtuosas e prolíficas”  não tenha sido exitosa, ela regressou em 15 de novembro para Petrópolis, consolada, robusta, e familiarizada com a simplicidade e paz do sertão.

Regressando de Caxambu, a princesa passou pela cidade de Aparecida, onde fez questão de orar entre os romeiros, em 8 de dezembro de 1868, no Santuário da Capela da milagrosa Nossa Senhora da Aparecida, feita padroeira do Império por D. Pedro I, e  da qual era devota fervorosa. Nessa ocasião, a princesa teria varrido a capela e colocado um pouco dos ciscos entre suas mamas onde fez a promessa, caso conseguisse curar-se da “esterilidade”, ofertaria à imagem de Nossa Senhora um manto azul marinho bordado em fios de prata e ouro, contendo os emblemas dos brasões do Brasil e de Portugal.

Quando de sua romaria em outubro de 1873 a Lourdes, na França, também fez promessa para curar-se da “esterilidade”, à milagrosa Bernadette Soubirous que tinha visto diversas vezes a Virgem Maria defronte da gruta chamada Massabielle, “a Rocha Velha”, junto à margem do rio Gave em 1858. Nessa cidade, comprou e enviou ao Brasil para sua genitora, um rosário bento, que tocou a gruta Massabielle, e nove medalhas de Nossa Senhora também bentas, e que também tocaram a gruta.

Em Petrópolis, dedicava-se à limpeza e à decoração semanal da igreja. Em maio de 1875, ela se dedicou totalmente ao “Mês de Maria”, durante o qual altares especiais eram enfeitados diariamente com flores frescas, com missas em homenagem à Virgem. Fazia muitas preces e novenas, e apegava-se cada vez mais aos santos, de quem esperava inspiração e milagre.

Os seus atos de benemerência e caridade eram tão grandes, e o seu apego à religião católica tão intenso, que a levou não só a abraçar a causa abolicionista, como a varrer prazerosamente o altar da Capela Imperial da Glória (Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, ou simplesmente, Igreja da Glória), no Rio de Janeiro, enchendo-a de alfaias.

A Princesa Isabel foi católica devota, tanto que a paixão pela família disputava espaço com a dedicação à igreja. Ocupava quase todo o seu tempo com missas, com o confessionário, com festejos religiosos, com quermesses, e com a participação em devoções como a Adoração da Eucaristia. Tinha duas preocupações espirituais, rezar pelos brasileiros e pela conversão dos ateus.

No exílio, recebia diariamente a Eucaristia, ao frequentar a Basilique du Sacré-Coeur (Basílica do Sagrado  Coração), localizada no bairro de Montmartre, em Paris.

A religião tornou-se um sustentáculo indispensável para Princesa Isabel, dando-lhe forças para enfrentar os seus múltiplos deveres. A fé católica lhe deu um consolo profundo, um lugar de refúgio, valor e objetivo na vida. Ela apegou-se com as devoções de Nossa Senhora de Lourdes, do Sagrado Coração de Jesus, todas identificadas com o Ultramontanismo (sistema dos que são favoráveis à autoridade absoluta do Papa em matéria de fé e disciplina).

Em 1º de agosto de 1901, escreveu para Santos Dumont esta nótula: “Senhor Santos Dumont. Envio-lhe uma medalha de São Benedito, que protege contra acidentes. Aceite-a e use-a na corrente do seu relógio, na sua carteira ou no seu pescoço. Ofereço-lhe pedindo a Deus que lhe socorra sempre”.

Após a morte de sua irmã D. Leopoldina (Duquesa de Saxe-Coburgo- Gota) de febre tifóide em 7 fevereiro de 1871 em Viena, capital da Áustria, aos 24 anos, a Princesa Isabel escreveu:

“A fé católica é a única consolação para semelhante perda, um consolo profundo em tempos de tristeza, e uma grande bondade divina”.

Doravante, a Igreja Católica tornara-se para Princesa Isabel um lugar de refúgio, e se empenhou cada vez mais em defender a sua doutrina contra tudo e contra todos, mesmo os hierarquicamente superiores.

 A Princesa Isabel realmente foi católica do fundo da alma até o fim da vida, ficando conhecida por beata, em função desse fervor religioso.


OUTROS RASGOS QUE FALAM ALTO DO ESPÍRITO RELIGIOSO DA MAIOR DAS BRASILEIRAS:

1- No 35.º aniversário da Imperatriz Teresa Cristina, em 14 de Março de 1857, ela informou: “Hoje, quando acordei, rezei um Padre-Nosso e uma Ave-Maria pela intenção da mamãe. O dia está lindo, parece que Deus também quis festejar os anos da mamãe”.

2- “Acabamos, há pouco, com a festa da Igreja. Perdoei 6 réus e comutei 2 penas de morte. É uma das poucas atribuições de que gosto no tal poder!!!”

3- “Esta tarde o tempo nos deu uma estiada e fomos adorar o Santíssimo. Agora está chovendo miudinho”. (Carta de 02/04/1858).

4- Da Semana Santa, deu a notícia: “Temos ido todos estes dias de manhã e de noite aos ofícios da Semana Santa. Com o Internúncio tivemos seis padres.” (Carta de 11/04/1868).

5- “Hoje, foi dia de limpeza na Igreja e deixamo-la muito bem arranjadinha para amanhã”. (Carta de 07/11/1874).

6- Outra preocupação da princesa era, com um grupo de amigas, cantar nas solenidades religiosas da Matriz, como escreveu ao pai, fazendo galhofa, em 30/11/1874: “Lhe direi, entretanto, que seus cabelos se teriam arrepiados hoje, ao ouvir as vésperas que cantamos na Igreja às 3 horas”.

7- No final do curso do 4º mês de sua segunda gestação, ao referir para a Condessa de Barral que sentiu os movimentos ativos do bebê dentro do seu útero, e sequiosa para a chegada do mês de outubro, o mês de seu parto, exclamou: “Meu Deus! Como eu queria que o mês de outubro já tivesse chegado e passado! E passado como nós queremos que passe!!! Reze por nós a Nosso Senhor e a todos os que estão no Céu!”

8 - Pela canonização do Padre José de Anchieta (o Apóstolo do Brasil): “Queira, pois Vossa Santidade resolver que é lícito aos católicos brasileiros venerarem em seus altares a imagem de tão santo varão. Queira também Vossa Santidade lançar sua apostólica bênção sobre mim e sobre minha família e sobre a Nação Brasileira”. (Palácio, 11/07/1877).

9- “Na Igreja tivemos nosso Mês de Maria sempre precedido do terço, dito em intenção de Papai e de Mamãe. Não são as orações que têm faltado; por toda parte se reza e se manda rezar, e esta manhã nas Irmãs, tivemos uma Comunhão por intenção de Papai. Comungamos nós dois e umas quarenta senhoras”. (13/05/1888).

10- Eis na íntegra as letras apostólicas do Santo Padre Papa Leão XIII por ocasião da outorga da insígnia Rosa de Ouro à Princesa Isabel: “A muito amada em Cristo Filha Nossa Isabel Princesa Imperial Regente do Império do Brasil”. E foi com os lábios trêmulos de santa emoção embriagada quase pela suave fragrância que a flor de ouro desprendia, que a Princesa Isabel após beijá-la comovidamente, afirmou ao enviado do Papa Leão XIII: “Agradeço ao Santo Padre esta grande prova de apreço, e prometo ser filha obediente da Santa Sé”.

11-No exílio, na capela do Castelo d’Eu havia uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, entre a Coroa Imperial Brasileira e a bandeira do Brasil Império. Diante desses símbolos a princesa vinha, diariamente, rezar pelos seus queridos brasileiros.

12- Eis a expressão de sua vontade suprema assinalada em seu testamento, feito em Boulogne-sur-Seine, Paris, em 10 de janeiro de 1910:

“Quero morrer na Religião Católica, Apostólica, Romana, no amor de Deus e no dos meus e de minha Pátria”.

O seu fervor pelo catolicismo era tão grande que ela era capaz dos mais assinalados sacrifícios. Aos 70 anos de idade e com grande dificuldade para se locomover (precisava do auxílio de uma bengala), por causa do excesso de peso e de problemas cardíacos, visitou em 05 de setembro de 1916, a Igreja Sagrada Família (obra do mais famoso arquiteto catalão, Antoni Gaudí) em Barcelona na Espanha passando todo esse dia em orações.

A Princesa Isabel, em 6 de novembro de 1884, juntamente com o esposo e os filhos D. Pedro de Alcântara, D. Luis Felipe, e D. Antônio, retornou a cidade de Aparecida, ocasião em que fez uma longa oração perante à imagem de Nossa Senhora agradecendo a graça alcançada (das gestações a termo, com filhos vivos), entregando-lhe uma pequena coroa de ouro de 24 quilates, pesando300 gramas em forma de globo, com uma cruz cravejada de rubis, e com 40 diamantes (24 maiores e 16 menores), acompanhada de uma almofada bordada em prata e ouro para sustentar a coroa, além de um rico manto azul-marinho, com 21 brilhantes representando as 21 Províncias do Império do Brasil. No dia 8 de setembro de 1904, com aprovação do Papa Pio X, a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi solenemente coroada por D. José Camargo Barros. A partir dessa data, oficialmente, a imagem passou a usar o manto, e a coroa passou a adornar a cabeça da pequena imagem.

Cumpriu também a promessa à Santa Isabel da Hungria, e até hoje, existe em Caxambu, a Igreja de Santa Isabel da Hungria.

Princesa Isabel em 8 de dezembro de 1907 em seu exílio em Paris. “Ao pedido que distintas e queridas patrícias me dirigem, de escrever algumas linhas para o Álbum Mariano, não me é lícito deixar de aquiescer. Meu amor e devoção à Santíssima Virgem torna-me grato escrever. Justamente em 1908 festejar-se-á o jubileu de Nossa Senhora de Lourdes, que para mim representa a graça obtida do nascimento de nossa filhinha que Deus quis levar a Si, e para meu consolo foi logo seguido dos nossos três filhos, Nossa Senhora de Lourdes cujo santuário inúmeras vezes visitei com a maior emoção.

Que Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora das Vitórias, Nossa Senhora de Pellevoisin, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora da Glória, cujos dois últimos santuários me é vedado por ora tornar a visitar, proteja nossa cara pátria, meu esposo e filhos, todos aqueles que para sua glória trabalham, e de todo o coração a venera e lhe é dedicado”.

(Redentora) * A sua piedade cristã que lhe falava ao coração, a sua fé inabalável, e a sua sensibilidade religiosa, a fez sancionar em 13 de maio de 1888 (um domingo), a Lei Áurea (Lei Imperial n.º 3353), extinguindo a escravidão em todo o território nacional. Por esse ato, foi cognominada, “A Redentora,” e agraciada pela Igreja Católica com a suma distinção, o Premio Rosa de Ouro. Premio outorgado pelo Santo Padre Papa Leão XIII em 28/09/1888.

Colaboração:
Dr.Cleomenes Barros Simões, juntamente com a sua esposa Maria Tereza, são católicos praticantes. Ele é médico Ginecologista e Obstetra na cidade de Guarulhos, São Paulo. Autor dos livros “Toda a Ginecologia e Obstetrícia em Testes” (3ª edição) e “Patologia do Trato Genital Inferior”, ambos da Editora Roca, São Paulo. “Os Partos da Princesa Isabel, a Redentora - Uma contribuição para a História da Medicina no Brasil” da All Print Editora, São Paulo.
             

E, por fim, já completando este extenso relatório, reproduzimos o texto de Luiz Pedro Drago, que ao oferecer a pena para a assinatura da Lei Aurea à Princesa Isabel, entrega-lhe eloquente carta que muito bem diz sobre a importância do ato:

No Museu Histórico Nacional, a pena e a Coroa ofertadas a Princesa Dona Isabel
Foto: Arquivo pessoal de Dionatan da Silveira Cunha


 Senhora!

13 de Maio de 1888

À Vossa Alteza Imperial manda-me o povo agradecido impetrar a graça de aceitar esta penna, como glorioso instrumento histórico e trophéo inteiramente popular, a qual deve assignar a lei nº 3.353 de 13 de Maio de 1888, que elimina o nome escravo da nação brazileira!

E com ella, Senhora, algumas palavras, que devem recordar sempre a mais brilhante data, que será inscripta entre os acontecimentos de maior vulto da vida política, social e moral de um povo na história da pátria!

O mais humilde dos súbditos de Vossa Alteza Imperial espera ser fiel intérprete dos sentimentos generosos do coração da pátria, porque suas palavras exprimirão ainda os últimos lampejos das vozes dos captivos opprimidos, neste momento faustoso da promulgação da lei redemptora.

Senhora! - Quando rebentou a aurora do dia 7 de Setembro de 1822, trazendo em signos indeléveis as palavras: - Independência ou morte -, afigurou-se-nos ficar gravado na pátria história o mais proeminente acontecimento das conquistas de um povo altivo, nos grandiosos commettimentos da vida das nações.

Quando, porém, pelo telescópio frio da história estudamos reflectidamente os factos que constituem a vida deste império, e reconhecemos que, por quase um século, sob nossa responsabilidade immediata mantivemos agrilhada ao poste nefando da escravidão uma raça condemnada ao desespero, por todas as condições de desigualdade, que o cérebro humano pudesse cogitar e applicar, não era de acreditar que fossemos um povo livre e por conseqüência um povo independente, porquanto ainda se achavam conspurgadas as públicas liberdades.

Enquanto, Senhora, o Brazil considerasse o homem como o objeto explorativo do homem ou como o vil instrumento de sua mais torpe especulação, falleceriam-lhe todos os mananciaes precisos, quer divinos, quer humanos, para assentar os melhores fundamentos de sua independência, que deveria descansar nas mais efficazes leis, que pudessem garantir a todos os seus direitos, como prescrever também a todos os seus deveres sem excepções vocatórias, humilhantes e condenáveis!

Hoje, porém, que o Brazil considera o homem unicamente como irmão do homem, hoje que o Brazil conhece a sua pujança pela homogeneidade de sua massa, hoje que a nação reconhece o homem vinculado ao homem pelos mais estreitos laços da liberdade, hoje finalmente que a nação contempla em jubiloso extasis a justa igualdade dos direitos e deveres de seus filhos, pela grandiosa e immortal obra da redempção, é hoje também que terá o Brazil completado a sua independência.

Portanto, Senhora, devemos considerar o dia 13 de Maio como verdadeiro dia de festa nacional.

Esse monumento histórico, para cuja realização tomaram incansável parte os augustos progenitores de Vossa Alteza Imperial, foi tarefa que recordará sempre com saudade e vira admiração da pátria os nomes de José Bonifácio, Euzébio de Queiroz Coutinho Mattoso da Câmara - leis de 1850, Visconde de Rio Branco - lei de 28 de Setembro de 1871 e finalmente João Alfredo Correia de Oliveira - lei de 13 de Maio de 1888.

E vós, Senhora, a quem a pátria deve o maior commettimento, porque foi ele firmado não só por um princípio altamente religioso, mas ainda eminentemente humanitário, consistireis que o vosso povo vos acclame:

D. Isabel a Redemptora

E assim, Senhora, vivereis na história com essa coroa radiante das flores da redempção transpondo desde agora o vestíbulo da glória que vos conduzirá ao templo da Immortalidade.

O Orador
Luiz Pedro Drago


Esta carta pode ser lida em placa brasonada exposta no Museu da Igreja de Nossa Senhora da Gloria do Outeiro, no Rio de Janeiro. 

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