terça-feira, 9 de setembro de 2014

"Homenagem a S.A.I.R., a Princesa D. Maria Elizabeth de Orleans e Bragança: 100 anos do nascimento, 66 anos de devotamento ao Brasil"

Conferência realizada por Dionatan da Silveira Cunha, editor do Blog Monarquia Já, durante o XXIV Encontro Monárquico, no Rio de Janeiro. Com imagens do arquivo do Blog Monarquia Já

Nascida Maria Isabel Francisca Teresa Josefa, Princesa Real da Baviera, no Castelo de Nymphenburg, em Munique, a 9 de setembro de 1914, S.A.I.R., a Princesa Senhora Dona Maria era a segunda filha do Príncipe Francisco (Franz) da Baviera e da Princesa Isabelle, Princesa de Croy. S.A.I.R. era neta do último monarca da Baviera, o Rei Luís III (1845-1921), (foi regente do reino a partir de 1912, devido à incapacidade do Rei Oto I, assumindo a coroa com sua morte no ano seguinte, até 1918, quando da proclamação da república na Alemanha no final de 1918) e de sua esposa, a Rainha Maria Teresa Henriqueta, nascida Arquiduquesa da Áustria-Este.   

Ao nascer, portanto, a Princesa pertencia a uma prestigiosa família real reinante, referência em toda a Europa pela Cultura, pelo apoio as artes e refinamento, estando sempre ligados ao Papado, aos Império dos Habsburgo, à França, à Península Ibérica e a Europa de modo geral.  Efetivamente em 1914, ano de seu nascimento, o mundo experimentava os infortúnios do início da Primeira Guerra Mundial, a Família Real da Baviera não ficou imune aos acontecimentos e até mesmo o Príncipe Francisco envolveu-se na Guerra, sendo general do Exército bávaro. Em 1918, eclodiu na Alemanha a Revolução Espartaquista, com forte influência da terrível Revolução Russa de 1917, que acabou por assassinar o Czar Nicolau II e sua Família. Este movimento era de ideal comunista e conseguiu primeiramente controlar a região da Baviera. Em 7 de novembro daquele ano, o Rei Luís III e sua Família, entre eles a pequena Princesa Dona Maria, foram obrigados a partir de Munique. O Rei foi o primeiro a ser deposto e a Família passou a sofrer a hostilidade dos revoltosos. A Família Real da Baviera, contudo, conservou todo o seu prestígio, tendo-se inclusive falado em certa época na hipótese de uma restauração da monarquia na Baviera, integrando a República Alemã. 

A Rainha Maria Teresa, avó de Dona Maria, herdou de sua família um riquíssimo patrimônio, que incluía propriedades na Moravia e Sárvár, na Hungria. Neste último país, num castelo de mesmo nome da localidade, Dona Maria passou a infância. Seu avô, por ameaças, teve ainda de se transferir para o Liechtenstein e para a Suíça. Neste contexto a infância da Princesa Dona Maria foi bastante conturbada e até mesmo traumática. Na década de 30, a Família retornou à Baviera e parte de seus bens foram devolvidos pelo governo republicano. Seu avô, o Rei Luís III, faleceu em 1921 (mesmo ano da morte da nossa Princesa Dona Isabel, a Redentora), deixando como herdeiro o Príncipe Rupprecht - filho mais velho e tio de Dona Maria. Este se declarou contra o regime nazista, sendo sua esposa, a Princesa Antonieta, nascida Princesa do Luxemburgo – irmã da Grã-Duquesa Carlota do Luxemburgo, e seus filhos, capturados em 1944 e levados para o campo de concentração em Brandemburgo e, anos mais tarde, a Dachau (DARAU), sendo libertados pelo exército norte-americano. A Princesa não resistiu e faleceu anos depois. A Família teve de se exilar na Itália. O nazismo ensejava a Segunda Guerra Mundial.  

Em 19 de agosto de 1937, a Princesa Dona Maria foi desposada na capela do Castelo de Nymphenburg pelo Príncipe Dom Pedro Henrique Afonso Filipe Maria Gastão Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança, Herdeiro dos Imperadores do Brasil, Chefe da Casa Imperial, de jure, S.M.I., o Imperador Senhor Dom Pedro III do Brasil. A cerimônia foi assistida por dois Soberanos, a Grã-Duquesa Carlota do Luxemburgo e o Rei Alfonso XIII da Espanha, além do Chefe da Casa Real das Duas Sicílias (Ferdinando, Duque de Calábria, tio de Dom Pedro Henrique) e os Príncipes Herdeiros da França, Condes de Paris (ela Princesa Dona Isabel de Orleans e Bragança, prima irmã de Dom Pedro Henrique), além de outros da realeza e da nobreza. O tio de Dona Maria, o Príncipe Rupprecht, também presente, fez questão de mostrar o desprezo da Família Real, da Baviera aos comandantes nazistas, não os convidando para o enlace. O casamento de Dona Maria foi notícia também pelo fato do celebrante, o Cardeal Faulhaber, Arcebispo de Munique, ter aproveitado a ocasião para, no sermão, criticar firmemente o regime de Hitler.   

Pelos trágicos acontecimentos na Europa, impedidos de vir ao Brasil, e conseqüentemente afetados pelas sanções impostadas pelos nazistas aos parentes e as mortes derivadas das ações daquele grupo, o casal fixou-se primeiramente em Mandelieu, na França, onde habitava Dona Maria Pia, mãe de Dom Pedro Henrique. Ali nasceram o Príncipe Dom Luiz, atual Chefe da Casa Imperial do Brasil (1938), Dom Eudes (1939) e Dom Bertrand (1941), atual Príncipe Imperial do Brasil. Pelas precipitações da Segunda Grande Guerra, Dom Pedro Henrique teve de se refugiar com a esposa e os filhos em La Bourbole, em Puy-de-Dôme, região central da França, aonde as violências da guerra provavelmente não chegariam. Lá nasceu Dona Isabel (1944).  

O ano de 1945 foi decisivo para a vida de Dona Maria, visto que precisaria deixar a Europa, onde era cercada por parentes próximos e queridos, para finalmente fixar residência no Brasil, realizando o sonho de seu marido. Em maio daquele ano o navio Serpa Pinto deixou Portugal e rumou para a América do Sul, num roteiro raro naqueles tempos de guerra. Em 17 de maio de 1945 a Família Imperial assistiu a Primeira Comunhão da Princesa Diana de França, filha da Condessa de Paris, em Pamplona, na Espanha, embarcando depois Dom Pedro Henrique e Dona Maria (grávida) e seus cinco filhos, para o Brasil. O embarque não agradou inicialmente a Princesa Dona Maria Pia, que achava errado Dona Maria fazer esta longa viagem estando grávida.  Pelos acontecimentos da guerra e a dificuldade de se arranjar meio de transporte para o Brasil, Dona Maria Pia acabou consentindo e admitindo a necessidade da viagem.   

Em Petrópolis, Dona Maria deu a luz, no ano de 1945, ao Príncipe Dom Pedro de Alcântara. Na chegada ao Brasil ocorreu um doloroso episódio: o Príncipe Dom Pedro Henrique foi informado pelo primo, Dom Pedro Gastão, sobre sua condição de ex-sócio da Companhia Imobiliária de Petrópolis, a empresa constituída para administrar a antiga Fazenda Imperial. O Príncipe e sua família, com grandes dificuldades, foram acolhidos por amigos valorosos que prestaram auxílio. Sobre isso, inclusive, a Princesa Dona Maria, sempre disse que a Providência nunca abandona as famílias numerosas.  De fato, Dom Pedro Henrique residiu certo tempo em Petrópolis, numa casa no bairro do Retiro. Já no Rio de Janeiro, em 1948 nasceu Dom Fernando e, em 1950, Dom Antonio. Residiram por certo tempo também em casa alugada no bairro de Santa Teresa.  Apenas em 1951 conseguiu Dom Pedro Henrique comprar uma propriedade agrícola, que denominou Fazenda Santa Maria, na cidade de Jacarezinho, no Estado do Paraná. Lá nasceram Dona Eleonora (1953) e Dom Francisco (1955). E em Jundiaí do Sul, também no Paraná, nasceram Dom Alberto (1957) as Princesas gêmeas, Dona Maria Gabriela e Dona Maria Teresa (1959). Em 1965, necessitando estar mais próximo dos grandes centros, Dom Pedro Henrique vendeu a Fazenda Santa Maria e comprou, em Vassouras, o sítio Santa Maria, conservado na familia até os dias atuais. 

Em 5 de julho de 1981, faleceu o Príncipe Dom Pedro Henrique, deixando viúva a Princesa Dona Maria. Ascendeu a Chefia da Casa imperial o seu filho, Dom Luiz.   

O Brasil, parece ter sido agraciado com as virtudes de nossa Rainhas e Imperatrizes. Foi assim com a primeira a pisar nas Américas, a Rainha Dona Maria I, que com sua fé e caridade, promoveu a religião, as artes e a cultura de modo geral. Foi também com a Rainha Dona Carlota Joaquina, que mesmo coadjuvante, defendeu os interesses de Portugal e gerou os herdeiros do Reino. No Império, o Brasil foi novamente abençoado com a Imperatriz Dona Leopoldina, dama de grande cultura, que sobre tudo versava,  conservadora e precursora de nossa independência, de cultura incrível. A Imperatriz Dona Amélia acolheu os filhos do Imperador Dom Pedro I, dando-lhes educação e amor, mesmo de longo na Baviera ou em Portugal, aconselhava sobre política e avida pessoal,  seu querido filho, o Imperador Dom Pedro II. Tivemos também Dona Teresa Cristina, que por suas características foi apontada como a Mãe dos Brasileiros, morrendo de desgosto por estar longe do Brasil, pátria que adotou como sendo sua. A filha desta, a Princesa Dona Isabel, reconhecida por todos como a Redentora, apesar de não ter sido coroada, teve sua vida marcada pelas virtudes. A prudência de seus atos, a justiça que a levou libertar os escravos, a fortaleza que demonstrou em sua regência e momentos como os de 1889, e temperança, demonstrada em seu equilíbrio de sempre amar e respeitar, mesmo àqueles que lhe deram as costas, lhe conferiram, recentemente, a possibilidade de abertura de inicio de processo de beatificação. Sua nora, a Princesa Dona Maria Pia, católica, exemplo de esposa, de mãe e de Princesa, criou seus filhos, mesmo com as dificuldades dos 53 anos de viuvez, com grande dignidade, transferindo-lhes os mais caros valores. A Princesa Dona Maria, homenageada com nossa conferência, reuniu o que havia de melhor nestas 7 grandes damas.  Já dizia o grande pensador e intelectual católico, Dr. Plinio Correa de Oliveira, numa das edições do prestigiado Legionário, que a Casa de Wittelsbach tinha verdadeira vocação para produzir grandes homens e grandes mulheres, portanto, o casamento de Dona Maria com o Herdeiro dos Imperadores do Brasil, foi uma grande dádiva, pois uniu o sangue dos Orleans e Bragança com o dos Wittelsbach. Verdadeiro ícone de uma geração de Grandes do Gotha, Dona Maria se junta a um seleto grupo que representam as tradições das antigas gerações da realeza das monarquias que governaram a Europa e o Brasil como o Grão-Duque João do Luxemburgo (90 anos), o Príncipe Phillip, Duque de Edimburgo (89 anos) e o Rei Miguel da Romênia (89 anos). Senhores e Senhoras de um passado majestoso e único, que levaram uma vida de grande dignidade.   

Depois da morte do marido, a Princesa Dona Maria passou a morar num apartamento na rua Custódio Serrão, na Lagoa, na cidade do Rio de Janeiro,  com sua filha, a Princesa Dona Isabel. Nos últimos anos foi enfraquecendo lentamente, sendo sempre sustentada por sua grande fé religiosa. Referência da Família, a Princesa sempre foi amada pelos 12 filhos, 25 netos e também pelos pequenos bisnetos e reverenciada pelos monarquistas brasileiros. O Clube de Engenharia, há anos atrás, a considerou a Mãe do Ano.  

Prima do Herdeiro do Trono Bávaro, Franz, Duque da Baviera, 77 anos (neto do Príncipe Rupprecht), Dona Maria teve cinco irmãos: o Príncipe Ludwig, falecido em 2008 com 95 anos, casado com sua prima, a Princesa Irmgard da Baviera (são os pais do Príncipe Luitpold, 60 anos, Herdeiro de Franz, Duque da Baviera, que é solteiro –  esteve recentemente no Brasil; a Princesa Aldegunda, falecida em 2004, com 87 anos, a Princesa Eleonora, falecida em 2009, com 91 anos, a Princesa Dorotéia, 91 anos, que casou com Gottfried, Arquiduque d´Austria, Grão-Duque de Toscana; o Príncipe Rasso, 85 anos, casado com a Arquiduquesa Teresa da Áustria (são os pais, entre outros filhos, da Princesa Gisela, esposa do Chefe da Casa Real da Saxônia, Alexander, Príncipe de Saxe-Gessaphe).  

A Princesa Senhora Dona Maria faleceu no dia 13 de maio de 2011. Foi velada na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, no centro de Vassouras, com missa de Corpo Presente, o sepultamento se deu no jazigo da Família Imperial no cemitério daquela cidade. Várias missas foram celebradas em sufrágio de sua alma. No Rio de Janeiro, a celebração oficiada por Dom Orani João Tempesta, Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, reuniu 600 pessoas. Publicações como o jornal “O Estado de São Paulo” e as revistas “Vogue” e “Point de Vue” renderam homenagens a Princesa. 

O ano de 2014 marca o centenário de nascimento da Princesa Senhora Dona Maria, que além de Princesa da Baviera e, de jure, Imperatriz do Brasil, foi um estandarte da caridade, bondade e fé cristã. 


Castelo de Nymphenburg, Munique

Castelo de Sárvár

Dona Maria, récem nascida, com com sua mãe, a Princesa Isabelle de Croÿ

Dona Maria em 1916



Dona Maria, com a mãe e o irmão, o Príncipe Ludwig




Com a família, pouco antes do casamento

Foto oficial do noivado
 

O casamento em Nymphemburg





A visita ao Santo Padre, no Vaticano

Com os filhos, na Fazenda Santa Maria

 

Na catequese da Primeira Comunhão para os filhos dos colonos, no estado do Paraná


Com a Rosa de Ouro, enviada pelo Papa Leão XIII à Princesa Dona Isabel e doada à Arquidiocese de São Sabastião do Rio de Janeiro pelo Príncipe Dom pedro Henrique


Com os irmãos e cunhadas na Alemanha

Em 2002, no Outeiro da Glória, com SS.AA.II.RR., os Príncipes Dom Luiz e Dom Bertrand

Dona Maria, de jure Imperatriz do Brasil

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