sexta-feira, 5 de junho de 2015

Conde d'Eu: um exemplo de Príncipe

As vésperas do XXV Encontro Monárquico, que terá uma palestra, proferida pelo Professor Alexandre Armando dos Santos, intitulada "A verdadeira face do Conde d´Eu, revelada em sua correspondência pessoal", o Blog Monarquia Já tem o prazer de republicar uma sessão do compêndio de "Estudos de História Imperial", elaborado no ano de 1950 pelo Professor Helio Vianna, que tenta fazer justiça a biografia do grande Príncipe Gastão de Orléans, Conde d'Eu e Marechal do Exército Brasileiro, que sofreu grave campanha difamatória durante a Monarquia e na república é caluniado por muitos escritores. 

Nesta sessão, o Professor Helio Vianna comprova, com documentos, a dignidade e honra do Conde d'Eu, mostrando como era justo e honesto com seus colegas de Exército, seja amparando veteranos desvalidos, solidarizando-se com também com os inválidos, ou concedendo o perdão a oficiais desleais. O Conde d'Eu, segundo este brilhante relato, foi também um dos maiores promotores do desenvolvimento do Exército do Brasil. 

Confira:     
O Príncipe Gastão de Orléans, Conde d'Eu
Marechal do Exército do Brasil
Herói da Guerra do Paraguai 



BIBLIOTECA PEDAGÓGICA BRASILEIRA
Série 5ª – BRASILIANA – Vol. 269

ESTUDOS
DE
HISTÓRIA IMPERIAL

Por

HELIO VIANNA
Professor catedrático de História do Brasil da Faculdade Nacional de Filosofia; de História da América da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Colégio Coração de Jesus
- Biblioteca –
Irmã Célia Leal
Florianópolis – SC

COMPANHIA EDITORA NACIONAL
São Paulo
1950
Nota: Por ser transcrição, a grafia da época foi mantida 


GASTÃO DE ORLÉANS – O PRÍNCIPE INCOMPREENDIDO

Os maiores dramas não serão, talvez, os que se recheiam de cenas intensas, onde impere a violência e as grandes dôres livremente se manifestem, exteriorizando-se em imprecações. Serão, antes, os que se calam nos sacrifícios íntimos, os que se escondem na discrição dos introvertidos.

Da mesma forma, não deverão ser considerados mais infelizes os que são derrotados em plena luta, porém os que, tendo tifo a oportunidade de iniciá-la, não chegam a vê-la travada, deixando passar possibilidades de vitória. E quando, ornado de fortes atributos pessoais, parece o combatente predestinado ao bom êxito, cresce, com essa circunstância, o amargor de seu desaproveitamento, o desencanto de sua inutilidade.

Terá sido êste, possivelmente, o doloroso drama de 1864 a 1889 entre nós representado pelo Conde d’Eu.

Confinado à situação especialíssima dos príncipes-consortes, eventualmente dos soberanos nominais, aqui apenas futuro imperador-marido, numerosas foram as contingências que contribuíram para o malogro do desempenho que poderia ter dado ao seu anti-humano papel, mais que qualquer outro sujeito às interpretações errôneas e às sugestões tendenciosas.

Começou a série de suas dificuldades pelo fato de ter tido um sogro igualmente excepcional, incapaz de ceder às pressões modificadoras que às suas normas de conduta privada quaisquer pessôas quisessem impôr. Teimoso e mesmo prepotente, em assuntos de fôro íntimo, D. Pedro II, perfeito conhecedor de seus patrícios e de suas qualidades e defeitos, geitosamente parece ter querido manter numa linha de estrita neutralidade política o marido de sua filha e herdeira. Forneceu-lhe, é verdade, mas a custo, uma oportunidade extraordinária, que êle pôde aproveitar, apesar das dificuldades a ela inerente: o comando em chefe do exército brasileiro na última fase da guerra com o Paraguai. Fora disto, não lhe permitiu, como à própria D. Isabel, qualquer interferência no funcionamento do mecanismo do Poder Moderador, a não ser durante as três Regências da Princeza. Seria esta, sem dúvida, uma forma bastante singular de preparar para o poder a sucessora, naturalmente destinada a contar com a colaboração, a todo o momento, de seu marido. Assim procederia o Imperador pela suposição de ser suficiente apenas o seu exemplo, ou, céptico também nêsse ponto, acreditaria que nem isso teria fôrça para moldar índoles de fibras tão sensíveis quanto a de Gatão de Orléans? 

Não importa sabe-lo. Nats assinalr que, tanto quanto se pode depreender das entrelinhas das respectivas biografias, - embora, ambos, inteligentes como eram, reconhecessem as recíprocas qualidades, - adotaram sogro e genro, entre êles, a política das reservas e das prevenções, sem que em vinte e cinco anos de convívio conseguissem preparar, de modo claro e prudente, a continuidade dinástica que ao primeiro se impunha criar, ao segundo receber e, quando oportuno, orientar.

Se esta situação ocorria dentro dos próprios paços do Rio de Janeiro e Petrópolis, e entre dois homens realmente superiores, fácil é de se perceber que muito maior seria a série de incompreensões que se levantaria entre a trabalhada opinião pública e o príncipe-consorte, entre os partidos políticos e o político colocado acima dos partidos. 

Repetir-se-ia no Brasil o exemplo do Príncipe Alberto? Nada deixaria supôr, à vista dos precedentes, tão mal conduzidos pela deseducação geral, pela falta de percepção das conveniências nacionais, través dos jogos da influência pessoais. Além do que, o caso do marido da Rainha Vitória tem muito de lenda póstuma, de história adrede preparada...

Fôrça é confessar que também contribuiu para formação dêsse ambiente de injustificada desconfiança o próprio caráter do Príncipe. Não era o Conde d’Eu dos que nasceram para conquistar simpatias à primeira vista, dos que despertam entusiasmo e adesão com simples presença física, o som da voz e palavras de comando. Homem de grande vida interior, conciente , mais do que ninguém, dos percalços de sua posição, não pecaria por imprudente, antes por omissão. Seus méritos, sólidos e até comprovados pela experiência na guerra, não era dos que deixam perceber ao primeiro contacto. Bravo, não exibia sua bravura. Dotado de uma formação moral perfeita, nunca fez praça de reformador. Destinado ao pode, embora indiretamente, jamais foi surpreendido a fantasiar projetos para o futuro. Discreto até o excesso, sua tendência misantrópica muito o prejudicou, inutilizando qualidades que só não viam os que não queriam ver.

Assim passou entre nós um quarto de século o Conde d’Eu. Desaproveitado pelo sogro e pelos políticos, incompreendido pela massa, como pelos próprios irmãos de armas, nem mesmo as regências de D. Isabel lhe forneceram oportunidade para abandonar a posição de reserva que se viu obrigado a criar e manter. Não era dos que se ofereciam sem solicitação, a não ser que o motivo pela sua mesma grandeza o justificasse, como no caso da ida para a guerra, tão insistentemente pedida quanto protelada.

Cerceado por tantas oposições, desconfiado, porque compreendia o alcance das limitações que lhe eram impostas, pôde apenas cumprir os seus deveres de militar, de marido e de pai. Serviu à terra que tão mal o acolheu, não se eximindo nem mesmo ao dever de por ela se arriscar a própria vida, no campo de batalha. Incompreendido, caluniado, combatido até com as armas mais torpes, teve a magnanimidade fidalga de se não queixar, nem antes nem depois da proclamação da República. Naturalizado brasileiro com a insistência juvenil em seguir para o Paraguai, brasileiro, e dos melhores, foi também durante o longo exílio, brasileiro ao transmitir aos filhos o amor pela pátria em que nasceram, brasileiro, afinal, ao procurar, já viúvo e quase octogenário, mais uma vez atingir a terra do Brasil que como ninguém soube adotar como sua, por ela sofrendo o que ninguém sofreu, a mais prolongada incompreensão coletiva de que aqui se tem notícia. Glorificando-o em 1943, por ocasião do centenário de seu nascimento, a nação brasileira nobremente se redimiu dessa injustiça, ainda uma vez confirmando a regra de que somente à História compete dizer a última palavra.



O CONDE D’EU, ADVOGADO DOS QUE SERVIRAM NA GUERRA

CARTAS DO PRÍNCIPE GASTÃO DE ORLÉANS 
AO TENENTE-GENERAL CALDWELL

Já tem sido posta em relevo, pelos biógrafos do Príncipe Gastão de Orléans, a circunstância de ter êle se constituído, depois da guerra do Paraguai, permanecendo defensor de quantos houvessem servido na longa campanha e qualquer justa compensação quisessem pleitear, juntos aos poderes públicos. Nêsse sentido, não duvidava o Conde d’Eu assediar os seus amigos com pleno conhecimento da causa, solicitando exclusivamente o que tivesse apoio legal.

Onze cartas adiante transcritas, pelo esposo da Princeza Imperial, herdeira do trono brasileiro, dirigidas ao tenente-general João Frederico Caldwell, Ajudante-General do Exército, bem como três respostas dêste, cabalmente demonstram o generoso interêsse pelo Conde d’Eu sempre demonstrado por seus companheiros de armas do exército brasileiro. Pertencem, todos êsses documentos, ao arquivo de Caldwell, hoje em poder do Sr. Francisco Marques dos Santos, que o colocou à nossa disposição. 

1 – EMPREGO PARA UM VETERANO DA RETIRADA 
DA LAGUNA

“COMANDO EM CHEFE DE TÔDAS 
AS FÔRÇAS BRASILEIRAS EM OPERAÇÕES 
NA REPÚBLICA DO PARAGUAI

Quartel General em a Vila do Rosário, 11 de Março, 1870.

Exmo. Sr. Caldwell

Retira-se do teatro das operações em consequência da cessação das hostilidades, o Alferes do Estado-Maior de 2ª Classe Antônio José da Costa Brandão, que além de ter feito penosa campanha do sul de Mato Grosso em 1867, acaba de prestar bons serviços no meu Quartel-General. 

Êle deseja conseguir o emprego de encarregado de Depósito d’artigos bélicos na Província de Goiás, lugar que consta achar-se exercido por um oficial da Guarda Nacional; e como atendendo às boas qualidades que distinguem a êste Oficial estra pretensão me parece equitativa, não hesito em solicitar para ela a benévola proteção de V. Exa., de quem me confesso

Muito amigo
Gastão de Orléans”  

2 – AMPARANDO OS VETERANOS DO PARAGUAI

De volta da guerra, passou o Conde d’Eu a defender os interêsses dos militares que melhor tivessem servido na campanha, amparando-os em suas justas pretensões, indicando-os para cargos vagos, etc.

É o que prova, por exemplo, mais esta carta dirigida a Caldwell:

“Paço Isabel, 5 de junho de 1870.

Meu caro General,

Ouço dizer que se vai criar uma 5ª companhia no Depósito de Aprendizes Artilheiros. Venho pedir a V. E. que nêste caso seja nomeado para o Comando dela o 1º tenente de artilharia José Fausto de Lima. Êle já exerceu naquela Fortaleza um emprêgo que deixou o ano passado para regressar à campanha do Paraguai e que durante sua ausência foi preenchido por outrem. É um oficial digno de toda a consideração de V. E. por seu pundonor e outras excelentes qualidades; e pois creio que V. E. não terá dúvida em aceder a êsse meu pedido. 

- Passo a outro. Consta-me igualmente que, sendo nomeado Comandante do Asilo de Inválidos o Major Fiscal do mesmo, vai ficar assim vago êste último logar. Entre os oficiais que pretendem, tomo a liberdade de recomendar a V. E. o Major honorário do Exército Francisco Joaquim de Almeida Castro, oficial muito bravo que, tendo feito toda a campanha do Paraguai e recebido muitos ferimentos, um dos quais lhe deixou a mão aleijada, regressou ùltimamente como Fiscal do Batalhão 44 de Voluntários (1).

Parece-me pois que êsse meu recomendado tem mais algum direito que um dos seus concorrentes que me consta ser o Major Lazary, o qual regressou do Paraguai há bastantes anos, tendo portanto prestado poucos serviços na guerra.

Por isso rogo a V. E. o favor de me declarar se tem possibilidade de ser atendida a pretensão que expus, ou se há a isso algum obstáculo, o que muito lhe agradecerá êste.

Seu amigo
Gastão de Orléans”   



3 – PENSÃO PARA UM INVÁLIDO DA PÁTRIA

Paço Isabel, 7/6/70.

Meu caro General

Pedem-me que eu me interesse para fazer obter um a pensão ao Inválido da Pátria João Jacobo Hoelz, que se acha no Asilo da Ilha do Bom Jesus, e que tendo sido inspecionado três vêzes, foi reconhecido incapaz de ganhar sua subsistência, em consequência de moléstias internas. 

Rogo pois a V. Exa. Tenha bondade de me informar quais trâmites e formalidades necessárias para se obter do Govêrno Imperial a concessão de tais pensões.

Sou sempre de V. Ex. 
muito amigo,
Gastão de Orléans”.

Nota de Caldwell – “Respondido em 11-6-70”. 

4 – LIBERDADE PARA UM PEQUENO CULPADO

“Palácio Isabel, 7 de junho de 1870

Ilmo. Exmo. Sr. Tem.-Gal. Caldwell

Tenho a satisfação de responder a carta de V. Ex. datada de 3 do corrente declarando que: Sou de opinião que o oficial dever ser intimado para entrar com o dinheiro que extraviou, e que, satisfeita esta dívida, deve ser posto em liberdade; por isso que a formação d’um processo-crime exigiria sem dúvida um detenção prolongada que constituiria um castigo fora de proporção com a culpa, filha, ao que me parece, d’um méro descuido. 

Devolvo o ofício que acompanhou a carta de V. Ex.

Gastão de Orléans”.                           

Nota de Caldweel – “Respondida em 10-6-70”. Apesar dis’o, pretendendo ouvir a respeito a opinião do Príncipe, a 16 de junho escreveu-lhe o Ajudante-General a seguinte carta, conforme cópia guardada em seu arquivo:

“Senhor – 

Em aditamento á carta que tive a subida honra de endereçar a V. Alteza a respeito do Af. F. X. de A. M. cumpre-me depositar nas respeitáveis mãos de Vossa Alteza o incluso requerimento daquele Alf., propondo o meio para de pronto pagar a quantia proveniente do espólio do Ten. Joaquim Mariano Seabra, cujo requerimento veio coberto com o ofício do Comandante da Fortaleza de Santa Cruz de 13 do corrente, sob nº 772: desejava pois ouvir a judiciosa opinião de V. A. sôbre êste importante objeto.

De Vossa Alteza. 

16 de junho de 1870”



5 – INFORMAÇÃO BUROCRÁTICA DE CALDWELL

Documentando o modo estritamente legal com que se dirigia às altas autoridades militares, apadrinhando as solicitações dos ex- combatentes, nada é mais significativo que a minuta de carta ao Príncipe dirigida em 12 de julho de 1870 pelo Ajudante-General do Exército, tenente-general João Frederico Caldweel, a propósito de um dos apresentados do Conde d’Eu. 

“Senhor

Acusando a carta de Vossa Alteza se dignou dirigir-me em 4 do corrente, relativamente à admissão no Exército do ex-Sargento-Ajudante do Batalhão 33º de Voluntários Ludgero Elias Guimarães, peço licença, com o maior acatamento, para depositar em sua mãos a inclusa Ordem do Dia da Secretaria da Guerra nº 327, de 9 de setembro de 1862, em que se explica a maneira de serem ocupados os postos de oficiais inferiores do Exército, e também inclúo o parecer da 1ª Seção da Repartição do Ajudante-General, ontem datada; não obstante Vossa Alteza se dignará de mandar-me suas respeitáveis ordens a semelhante respeito, como melhor entender.”
  
 6 -  APRESSANDO A SOLUÇÃO DE UMA REFORMA                            
“Paço  Isabel,  13/8/70.
Exmo. Sr. General Caldwell.

Meu caro General.

O Major de comissão e Capitão de artilharia Anfrísio Fialho (2), por quem me interesso, solicitou sua reforma, e o parecer da juntas de saúde que o inspecionaram com efeito o declarou incapaz de serviço ativo por causa das lesões incuráveis, isto foi a princípios do mês passado, segundo informado e entretanto não tem havido até hoje decisão dêste negócio.

Eu, pois, agradeceria a V. Ex. se pudesse informar-me das circunstâncias que demoram a solução d’um pedido tão simples e tão justo. 

Creia-me sempre seu amigo. 
Gastão de Orléans”.

Notas de Caldwell: “R. em 14 de Agôsto”.



7 – AINDA O PEQUENO CULPADO PRESSO

Exmo. Sr. General Caldewell

No momento de me retirar por alguns meses para a Europa, não posso deixar de mais uma vez interceder junto de V. Ex. a favor do infeliz Alferes de Voluntários da Pátria F. X. de A. M., o qual, talvez por minha causa, ainda continua preso na Fortaleza de santa Cruz. 

Rogo a V. Ex. que tenha caridade de o mandar pôr em liberdade logo que isto fôr possível, e agradecer-lhe-ei informar-me o que porventura tenha ultimamente ocorrido a êste respeito, repetindo-me 

Sempre de V. Ex.
Muito amigo
Gastão de Orléans”.

8 – EM DEFESA DE OFICIAIS PRETERIDOS

“22/8/70
Exmo. Sr. General Caldwell

Ao percorrer a Ordem do dia Repartição de V. Ex., nº 276, de 31 do mês passado, observei com dor que ainda figuram como 1os tenentes os oficiais do corpo de engenheiros Guilhermes Carlos Lassance (3) e Eugênio Adriano Pereira da Cunha Melo, os quais tinham sido por mim promovidos a Capitães quando eu comandava as Forças em Operações no Paraguai.

Tendo Sido em geral aprovados pelo Governo Imperial todos ao taos dessa espécie que pratiquei, eu desejaria que V. Ex. me informasse o que porventura deu lugar a ficar êste sem aprovar; se foi talvez extravio do meu ofício de comunicação ou qualquer outro motivo. 

Eu com efeito muito sentirei se facassem sem serem promovidos esses dois distintos oficais porque a sua promoção era de rigorosa justiça, visto que eram êles os únicos tenentes de Engenharia existentes em campanha e aí prestaram incessantemente os serviços mais relevantes, especialmente o Sr. Lassance, que até teve um elogio especial na minha Ordem do dia n.º 40, de 24 de dezembro do ano próximo passado. 

Rogo a V. Ex. que vale pelos direitos que os serviços lhe constituem, para não ficarem esbulhados da remuneração que pensei ter-lhes dado, e me reputo de V. Ex.

Muito amigo
Gastão de Orléans”.


                                                                     
Em resposta a essa carta, encontrou-se no arquivo herdado por Dona Maria Isabel Caldwell a seguinte minuta de resposta: 

"Sereníssimo Senhor Conde d'Eu -

Em resposta à carta que Vossa Aletza dignou-se dirigir-me em data de hoje, na qual me pede que eu informe a Vossa Alteza porque não foram considerados como capitães os 1os tenentes d'egenheiros Guilherme Carlos Lassance e Eugênio Adriano Pereira da Cunha e Melo, tenho a honra de levar ao conhecimento de Vossa Alteza que as relações dos oficiais, cadetes e oficiais inferiores a 1.ª Linha, que por Vossa Alteza foram remetidos em ofício de 25 de janeiro do corrente ano, subiram com a informação desta Repartição em 18 de março também dêste ano para a Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, e não consta à mesma Repartição que fôssem aprovadas, tanto que a portaria de 26 de julho último, que manda seguir para o Rio Grande do Norte, Guilherme Carlos Lassance ainda o considera tenente, assim como a portaria de 23 do mesmo mês de julho também considera tenente d'engenheiros Eugênio Adriano Pereira da Cunha e Mello. 

Eis o que posso informar a Vossa Alteza.

De Vossa Alteza.

Rio de Janeiro, 22 de agôsto de 1870".

Em resposta, tratando dêsse e de outros assuntos anteriormente mencionados, no mesmo dia escreveu o Conde d'Eu ao tenente-general Caldwell, pois no dia seguinte partiria para a Europa, com a Princeza, a bordo do paquete Douro:

"22/8/70

Exmo. Sr. General Caldwell

Acuso o recebidas as três cartas que V. Ex. me dirigiu hoje. 

Quanto ao soldado Hoelz, penso como V. Ex. que à vista da alta da inspeção, deve ser reformado. 

Quanto ao Srs. Lassance e Cunha e Melo, vejo que não está, infelizmente, na alçada de V. Ex. fazer-lhes justiça.

Quanto, por fim, ao Alferes A. M., do paracer da Repatição Fiscal (que óra devolvo), vê-se que o Conselheiro Diretor da mesma inclina-se a que o Alferes seja solto para que os cofres públicos não venham a ficar por mais tempo sobrecarregados com o pegamento dos soldos dêle. 

Isto parece razoável, deixando-se então de pagar a êle os vencimentos a que tiver direito, até a quantia necessária para indenizar o espólio extraviado. 

Se V. Ex. porém julgar esperar até que venha resposta do Paraguai ao ofício de V. Ex. de 16 do mês próximo passado, julgo que pelo menos deverá ser solto logo que vier tal resposta.

Gastão de Orléans"

9 - ZELANDO PELO MELHOR ARMAMENTO DO EXÉRCITO

Constitui facto já comprovado por documentos publicados o interêsse que sempre manifestou o marechal Conde d'Eu pelo constante aperfeiçoamento do material bélico em uso no exército brasileiro, presidente que era da respectica Comissão de Melhoramentos.

Novos argumentos a respeito oferece a seguinte carta, como tôdas aqui transcritas pertencente à coleção de autógrafos do Sr. Francisco Marques dos Santos:

"Paço Isabel, 27-6-72.

Meu caro General,

É natural que no manejo das armas Comblain ùltimamente entregues ao 1.º batalhão de infantaria apareçam dificuldades e dúvidas que só a Comissão de Melhoramentos pode convenientemente esclarecer. Por êste motivo eu pretendia ir em um dos dias das semanas próximas ao respectivo quartel para examinar eu mesmo essas armas e sua munições.

Podendo porém ser que nisto haja algum inconveniente, venho rogar a V. Ex. que nêsse caso m'o declare para que eu então solicite oficialmente do Ministério da Guerra as devidas autrorizações para êsse exame. 

- Queira também me mandar dizer como tem ido de saúde depois daquela deporável queda na Escola Central e crer-me de V. Ex. 

afetuoso camarada e amigo
Gastão de Orléans."

Nota de Caldwell - "Respondida em 27-6-72".



10 - EM DEFESA DE UM SOLDA
DO PRESO 

"Paço Isabel, 28-6-72.

Meu caro General,

Visitando há dias a Fortaleza da Lage, apresentou-me aí o Soldado da 2.ª Companhia de reformados, adido ao Asilo de Inválidos da Pátria, João Antônio Rodrigues de Amorim, alegando que se acha prêso aí desde 27 de agosto de 1869 (quase três anos!) sem ter andamento seu processo. 

O Ajudante da Fortaleza informou-se então que acerca do processo dêsse indivíduo V. Ex. consultara o Govêrno Imperial em 25 de junho de 1869, o que deu lugar a uma consulta do Conselho Supremo Militar e depois a uma do Conselho de Estado, em virtude da qual foi declarado por resolução imperial de 4 de maio de 1870, que V. Ex. deveria sôbre êste assunto decidir o que conviesse, mandando arquivar ou prosseguir os processos, tudo o que se acha publicado na Ordem do dia dessa Repartição, n.º 725.

Tendo pois desde então decorrido dois anos, ocorreu-me que talvez tivesse caido êsse negócio em esquecimento, e por isso tomo a liberdade de pedir para êle a atenção de V. Ex., pois me parece que essa praça não pode, com justiça, ficar indefinidamente detida, sem ter andamento sem processo.

Sou sempre de V. Ex.

camarada afetuoso e amigo
Gatão de Orléans'.

Nota de Caldwell: "Muito urgente ao Asilo, 30-6-72".
- "Foi mandado pôr em liberdade em 1-7-72".

11 - SÔBRE A ENTREGA DE UM MENOR

"Petrópolis, 18 de dezembro de 1872

Exmo. Sr. General Caldwell

Meu caro General,

Agradeço a V. Ex. sua comunicações acerca do menor Francelino, cuja ata de inspeção aqui devolvo, e lhe rogo queira mandar entregar o dito menor à pessoa que fôr portadora deste. 

Sou, como sempre, de V. Ex.

camarada muito afetuso,
Gastão de Orléans".

Nota de Caldwell: "R. 21-12-72".

Falecendo Caldwell em fevereiro do ano seguinte, cessaria a afetuosa correspondência que por tanto tempo manteve com o marechal Conde d'Eu, com o Duque de Caxias (4) e com tantos outros oficiais do exército imperial, ministros da Guerra de que foi insetimável auxiliar, etc..   

(1) Foi êste oficial que em um momento de grande perigo, na batalha de Campo Grande, tentou deter o cavalo em que montava o Conde d'Eu, episódio fixado no conhecido quadro de Pedro Américo - Alberto Rangel - Gastão de Orléans - O Último Conde d'Eu (São Paulo, 1935), p. 251/252.

(2) Deixando o exército, Anfriso Fialho foi estudar Ciências Políticas e Administrativa na Bélgica, onde publicou, em francês, uma defesa do marechal Bazaine e uma biografia de Dom Pedro II. Voltando ao Brasil, advogou a convocação de uma Constituinte, em 1885, e reeditou os panfletos O Libelo do Povo, de Francisco de Sales Tôrres Homem, e A Conferência dos Divinos, de Antônio Ferreira Vianna. Posteriormente, sendo deputado pelo Piauí, publicou uma História da Fundação da República no Brasil. 

(3) Guilherme Carlos Lassance foi mais tarde dedicado mordomo da Casa da Princeza Imperial e de seu Augusto Consorte.

(4) Vinte cartas do Duque de Caxias ao Tenente-General Caldwell, estão transcritas nêste mesmo volume.


O Conde d'Eu, no exílio imposto pela república, como voluntário da Cruz Vermelha, abre sua residência na França para abrigar um hospital de campanha durante a I Guerra Mundial

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